Chefia

Por Vanessa Henriques

Sento-me à mesa e aguardo a aproximação de algum garçom. A padaria está praticamente vazia, e mesmo assim tenho dificuldade em ser atendido. Tento um contato visual, um aceno tímido e nada. Até que uma atendente lá no fundo do balcão nota meu desespero e vem a meu encontro.

Dou bom dia, peço minha média e ela me dá o toque: “moça, quando precisar chamar aperta esse botãozinho”. Aaaah, tem um botão! Assim como nos hospitais e aviões, agora tem botão pra chamar atendente na padaria.

Olho a minha volta e percebo que todos estão muito bem adaptados ao sistema. Aliás, finalmente descobri o que era aquele apito que ouvia vez ou outra no salão e achava que era meu celular tocando! Ele serve para alertar o garçom de que a mesa 10 quer um suco de laranja com gelo, pra já.

E não adianta evocar a velha guarda. Os atendentes estão tão condicionados a ouvir este bipe que não olham mais para o alto a procura de braços, mas sim para pequenos painéis instalados em locais estratégicos. Como se já não bastasse a televisão ligada no volume máximo, você teria que competir com toda essa parafernália para ser notado.

O mais triste é pensar que com isso perdemos toda uma diversão à parte com os apelidos dados aos garçons. Amigo, magrão, grande, chefe, mestre e mais tantos outros chamativos cairão no limbo — junto com a autoestima deles.

E por falar em diversão, escondam os botões das crianças, senão em poucos segundos elas podem começar a recitar a 5ª sinfonia de Beethoven com seus dedinhos ferozes. Sem contar os desmemoriados, que apertam o botão e quando são atendidos já esqueceram o que queriam — afinal não ficaram a procura do garçom e continuaram suas conversas normalmente.

A cena mais emblemática que testemunhei foi em um restaurante, há algum tempo, no qual o garçom brigava com um aparelho eletrônico com o qual deveria anotar os pedidos. Já estressado com o brinquedo, ele pediu licença, esticou o braço até o balcão e retornou à mesa com um bloquinho e uma caneta na mão, usando o dito-cujo como apoio. Abriu um sorriso, confiante, e disse: “Agora sim!”.

Resposta

  1. eu sou a criança, um botão desses perto de mim, hmmm! Só não é pior q aquela campainha q fica em balcão de hotel, aquela eu aperto sem escrúpulos 😀

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About the author

Sophia Bennett is an art historian and freelance writer with a passion for exploring the intersections between nature, symbolism, and artistic expression. With a background in Renaissance and modern art, Sophia enjoys uncovering the hidden meanings behind iconic works and sharing her insights with art lovers of all levels. When she’s not visiting museums or researching the latest trends in contemporary art, you can find her hiking in the countryside, always chasing the next rainbow.