Madeixas e bichanos

Por Vanessa Henriques

Não se sabe bem como nem porque, mas meu cachorro sempre sabe quando vai ao veterinário. Algo no jeito de agir perto dele deve denunciar meus planos, mesmo quando tento ser o mais discreta possível. Muito carinhos, muita voz mole, um passeio que vai dar em uma rua suspeita… Quadras antes da bendita porta colorida — pintada com desenhos de cachorros felizes — o dito-cujo começa a emperrar e a querer voltar pra casa.

Puro instinto de sobrevivência, vocês irão dizer. Pois bem. Mas esses dias tive a impressão de que ele anda arranjando seguidores. Não pense que é o gato, que não cai nesse conto do passeio pela rua do veterinário há tempos. Felinos não tão pra brincadeira.

Na verdade, é bem mais inusitado do que isso. Trata-se da minha vasta cabeleira, que passou incólume nos últimos meses sem um cortezinho sequer. E ela gostou disso, se é que você quer saber, a ponto de prever que já estava na hora de dar um passeio por ruas, digamos, estranhas.

Mas a técnica utilizada foi sofisticada, a ponto de deixar o cachorro e até o gato com inveja. Afinal, cabelo não tem como se esconder embaixo do sofá. Ao invés disso, ele resolveu apelar pro bom comportamento, deixando uma ponta de dúvida (literalmente) em minha cabeça.

Foram dias de cachos perfeitos, frizz controlado e até penteados bem sucedidos. “Será que vale a pena cortar? Tá tão bonito…” foram pensamentos recorrentes. Sem contar a inflação que atinge os serviços capilares, motivando atitudes cara-de-pau como cobrar mais do que o preço de um pote de shampoo por UMA lavagem de cabelo. É, talvez fosse melhor esperar…

Cacho

Devo dizer que ele ganhou uma batalha, mas não a guerra. Seu bom comportamento garantiu mais uns dois meses antes do meu golpe de misericórdia: um corte agendado no final de semana, sem chance de perder o horário por causa do trânsito ou da chuva do final da tarde. Depois de uma lavagem e uma massagem, ele se rendeu facilmente, e voltou pra casa mais bonito do que nunca.

Pra comemorar, levei o cachorro pra uma volta na rua, como quem não quer nada, perto da portinha colorida. Para o meu espanto, ele se comportou de forma exemplar, afinal sabia que não era dia de ir ao veterinário…

Respostas

  1. Poxa, fazia tempo que não tinha nenhuma linhazinha nova pra nos divertir, mas valeu à pena esperar! Parabéns!

  2. (rs) Pois o meu cabelo, Vanessa, não se comportou assim tão bem! Tanto desaforo me fez nos últimos dias e ainda com este calor sufocante, que, ao passar em frente a um salão, sem nem ao menos agendar um horário, resolvi cortar os meus “cachos”. Experiência desastrosa!
    Tentei corrigir dois dias depois e… o cabelo ficou mais curto e o arrependimento maior. Pensei: vou prendendo até crescer novamente; mas não dá pra prender!!
    Aceito sugestões.

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About the author

Sophia Bennett is an art historian and freelance writer with a passion for exploring the intersections between nature, symbolism, and artistic expression. With a background in Renaissance and modern art, Sophia enjoys uncovering the hidden meanings behind iconic works and sharing her insights with art lovers of all levels. When she’s not visiting museums or researching the latest trends in contemporary art, you can find her hiking in the countryside, always chasing the next rainbow.