صباح الخير

Por Vanessa Henriques

Em um ponto da minha vida, eu soube árabe. Claro que não saía por aí falando fluentemente, mas tive noção de letras, sons e algumas expressões que me garantiriam pedir um café com leite ou um quibe. Além de falar bom dia.

Apesar de ter estudado por um ano, a falta de estudo e de contato com a língua fez com que eu esquecesse grande parte do que aprendi. Sabe aquela faxina que de vez em quando fazemos nas gavetas? Pois bem, numa dessas faxinas, meu cérebro jogou o árabe fora, sem nem me consultar.  Sobrou só o bom dia.

Seria possível relembrar algumas coisas, pensei comigo, afinal foram aulas e mais aulas anotadas no caderno, além das apostilas, CDs e livrinhos guardados. Seria possível se não fosse impossível, já que emprestei meu caderno e apostila para uma colega que jamais me devolveu. Cobrei uma, duas, três vezes e nada. Ficou de passar na minha casa pra devolver. Depois de passar no meu trabalho. No fim eu já tinha entendido que não voltaria a vê-los.  Quem mandou emprestar?

Lá estava eu, sem meu caderno e apostila rabiscada, nos quais depositei toda minha fé de que guardariam o meu árabe, me prevenindo das faxinas indesejadas. Olho com desdém pro material que me sobrou, que não supre a falta dos demais. “Esse não tem os verbos!”. “Esse não tem a parte de conversação!”.

Mas não sei se é justo colocar a culpa toda no caderno ou em sua ausência. Recuperar o caderno não significaria recuperar automaticamente o que, na verdade, eu esqueci. Desaprendi. O árabe continuaria distante de mim, lá no Golfo Pérsico, e as anotações serviriam provavelmente apenas para matar as saudades.

Talvez a ausência do caderno doa mais por ser uma ausência de mim mesma, daquela Vanessa que achava que poderia aprender uma língua cujo alfabeto parece rabiscos à primeira vista e no qual há pelo menos cinco tipos de sons de erre. Será que hoje teria a mesma coragem para (re)começar?

Por uma coincidência do destino, acabei recuperando contato com meu professor, e talvez tenha como reaver a apostila. Quem sabe ela me anime a retomar de onde parei, ou simplesmente traga o Golfo para mais perto de mim. As minhas anotações não irão voltar, terei que arranjar novas. Cadernos, há muitos no mundo. E os melhores costumam ser aqueles em branco, cheios de esperança.

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About the author

Sophia Bennett is an art historian and freelance writer with a passion for exploring the intersections between nature, symbolism, and artistic expression. With a background in Renaissance and modern art, Sophia enjoys uncovering the hidden meanings behind iconic works and sharing her insights with art lovers of all levels. When she’s not visiting museums or researching the latest trends in contemporary art, you can find her hiking in the countryside, always chasing the next rainbow.