Páginas e peixes

Por Vanessa  Henriques

Outro dia, numa arrumação em família, dei de cara com ele. Um armário grande, bonito, de madeira escura, com vidro nas portas. Conservava o velho cheiro, das cartilhas dos meus pais e das revistas que se amontoaram por toda minha infância em suas prateleiras.

Sim, nós mantínhamos um armário em casa — no quintal, a bem verdade — praticamente só com revistas velhas. Tinha desde Contigo! até revista Manchete, passando por Vejas e Caras, uma mais amarelada que a outra. Era o destino de todas as revistas que passavam lá em casa.

Mas por que manter um armário cheio de revistas velhas, juntando poeira e provavelmente baratas?  Simples, por causa das colagens. Pensa só, meus pais tinham três crianças em idade escolar, e a colagem era a rainha das salas de aula dos anos 90.

Eu não sei se a colagem ainda é popular, mas naquela época, eram muitas. Ou, ao menos, era a impressão que dava. Toda semana lá tava eu sentada no chão, rodeada por revistas e jornais, procurando a imagem necessária. Um coelho! Um abacaxi! Uma mulher!

Eis que um dia, eu precisava de um peixe. Não tenho ideia para que e por que, só me lembro que era isso que uma lição de casa pedia. E quem disse que eu encontrava o bicho? Comecei pelas revistas mais novas, que ainda estavam em casa. Nada. Fui no armário salvador e, depois de horas folheando páginas, nada.

O que eu ia fazer, isso nunca tinha me acontecido antes. Minha mãe foi prática: pegue a Barsa. Escolha uma página com peixes e nós vamos na papelaria e tiramos uma xerox colorida. Quem nasceu na era da multifuncional em casa pode não entender o drama, mas isso era o auge, o luxo do luxo. A xerox branco e preto já era cara, imagina co-lo-ri-da! Ou minha mãe se compadeceu do meu drama, ou eu enchi muito o saco dela com esse peixe. Essa parte não lembro.

Escolhi a página com esmero. Nela havia uma série de peixes, então mesmo que errasse o corte, não ficaria sem a figura. Recortei, mais tarde, o mais bonito dele, e não tive coragem de jogar fora o resto da página, como acontecia com as revistas. Entreguei o trabalho, morrendo de medo de ser descoberta. Não fui. E se duvidar tirei nota máxima.

Ver o armário me lembrou do “falso” peixe, das colagens e deu uma saudade danada de mergulhar no mar da memória em busca de histórias. Nesse mesmo dia pesquei muitas outras lembranças, mas nenhuma tão deliciosa e falsamente colorida como essa.

Resposta

  1. Hahahaha. Boa! Podia criar uma série de crônicas escolares, rs.

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About the author

Sophia Bennett is an art historian and freelance writer with a passion for exploring the intersections between nature, symbolism, and artistic expression. With a background in Renaissance and modern art, Sophia enjoys uncovering the hidden meanings behind iconic works and sharing her insights with art lovers of all levels. When she’s not visiting museums or researching the latest trends in contemporary art, you can find her hiking in the countryside, always chasing the next rainbow.