Ofício

Por Vanessa Henriques

A tarefa dada parecia simples: entrevistar uma pessoa e descrever sua história em 700 caracteres com espaços. Havia tempo de sobra para fazê-lo, e o entrevistado estava ali desimpedido: era o porteiro do meu prédio, sujeito simpático e falastrão, do qual já havia ouvido boas histórias e sabia que renderia bom material.

Ele começou meio tímido, e até achei bom ter desistido de gravar a conversa. Respondeu às perguntas com tranquilidade, mas sem entrar em grandes detalhes. Garanti meu material, agradeci, anotei seu nome completo, e fechei o caderno. Eis que meu entrevistado apareceu, e começou a desfilar uma série de boas histórias e de frases marcantes. Pensei em ligar o gravador, à miúda, só para não perder. Mas não podia fazer isso, teria que contar com a minha memória. Falamos desde sua esposa até do seu carro, estacionado ali em frente. Tive que encerrar a conversa antes que esquecesse tudo que estava me esforçando para lembrar.

Subi o elevador ainda anotando a “segunda parte” da entrevista, com medo de me esquecer de algo importante. Liguei o computador e comecei a escrever uma, duas, três versões da mesma história. Contei as palavras, e aí começou o desespero: parecia impossível fazer jus à tão boa história em tão pouco espaço. Mexi daqui e dali, cortei espaços e vírgulas, mas algo sempre ficaria de fora.

Ele é cearense, segundo de nove irmãos, veio para São Paulo com 18 anos. Trabalhou na roça, na indústria, foi caminhoneiro, motorista de ônibus e mais outras coisas que ele teve a gentileza de não me contar para não piorar a tarefa. Se diz muito bem casado com sua Preta, que é por quem ele carrega um celular do qual nem lembra o número. Disse que não gosta muito de trabalhar como porteiro, pois não gosta de ficar parado. Mas emendou dizendo que não existe trabalho ruim, e que a gente vai se acostumando e tem que pensar no que ele vai nos proporcionar para além do dinheiro.

Comecei a pensar no quanto haveria para contar sobre a minha vida. Lógico, entre eu e meu porteiro há mais de 30 anos de vida de diferença, mas mesmo assim acho difícil chegar à idade dele com tantas boas histórias. Mas sendo justa comigo mesmo, que vida caberia em 700 caracteres, ainda mais quando se tem o dom da conversa? Acho que nem de um bebê seria suficiente.

Ele bem disse que se fosse para escrever sobre a vida dele, não caberia num livro. Verdade. E por isso ele merece muito mais do que 700 caracteres, e aqui vai essa crônica para tentar me redimir com sua boa história.

Resposta

  1. Muito legal! Seria interessante você dar esta crônica de Natal para ele
    =)

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About the author

Sophia Bennett is an art historian and freelance writer with a passion for exploring the intersections between nature, symbolism, and artistic expression. With a background in Renaissance and modern art, Sophia enjoys uncovering the hidden meanings behind iconic works and sharing her insights with art lovers of all levels. When she’s not visiting museums or researching the latest trends in contemporary art, you can find her hiking in the countryside, always chasing the next rainbow.