A volta

Por Vanessa Henriques

Era um dia qualquer, de cansaço qualquer, demora do ônibus qualquer, de só unzinho assento qualquer. Mas a companhia não era qualquer uma. Do meu futuro lado, meio risonho, meio malandro, um velhinho se acomodava confortavelmente ao lado da janela.

Acenei em respeito na hora que sentei, e ele assentiu de volta, como que divertido pela minha presença. O ônibus demorou a sair, mas saiu. Ao primeiro sinal de trânsito, o velhinho sacou um pacotão de bolacha da mochila.

Wafer, recheio triplo, e eu voltando do trabalho esfomeada. Ele me ofereceu gentil: quer uma? Eu sorri, mas recusei educadamente. Queria muito uma bolacha, muito mesmo, mas achei estranho aceitar (por que mesmo??).

Num solavanco lá se foi a bolacha, que parou nos meus pés. Que desperdício, pensei. Nada abalava o humor da criatura. Deu uma chutadinha de leve com os pés, sorriu malandramente e falou: opa, caiu.

O caminho era curto, mas hoje estava mais longo. Chuva, frio, e mais nada de novo no celular. As bolachas tinham acabado, e eu não tinha nenhum livro na bolsa pra me distrair.

Mas meu companheiro tinha um livro, e sacou com vontade da mochila, não resisti e passei o olho no título, em letras garrafais:  SEXO COMEÇA NA COZINHA.

Desviei rápido o olhar, na esperança de que ele não tivesse percebido minha bisbilhotice, mas ele pareceu gostar da situação, e não arrancou o sorriso largado do rosto. Dei sinal e fui embora, não sem antes lhe desejar uma boa viagem (em pensamento, claro).

A curiosidade, essa não foi embora. Mais tarde procurei o livro na internet, já criando na minha cabeça um velhinho sabedor das artes do kama sutra culinário. Quem sabe eu também aprendesse algo novo?

A busca retornou logo no primeiro resultado: best seller à venda na livraria mundo cristão. Eita. Será isso mesmo? A sinopse entregou:

Por que o sexo começa na cozinha? Kevin Leman pretende responder a essa questão levando o casal a rever sua postura e mostrando por meio de situações do cotidiano como o relacionamento do casal, ainda que em condições críticas, pode sofrer profundas transformações quando marido e esposa sintonizam suas atitudes através do compromisso de renovar o comportamento. O autor busca mostrar que é nas pequenas atitudes que a se confere se a pessoa que está ao lado compartilha dos sentimentos e pensamentos mais íntimos.

Um pouco decepcionada, fechei a busca. Aquele sorriso não me enganava, mas talvez o velhinho fosse muito bem casado e estivesse tentando melhorar a convivência com a patroa. Ou só tivesse pregando peças em passageiros como eu. Vai saber.

O que importa é que graças à ele me deu uma vontade danada de contar esse causo, depois de tanto tempo enferrujada. Se o sexo começa na cozinha, a crônica começa no ônibus. Olhares atentos, o próximo já vem vindo.

Deixe um comentário

From the blog

About the author

Sophia Bennett is an art historian and freelance writer with a passion for exploring the intersections between nature, symbolism, and artistic expression. With a background in Renaissance and modern art, Sophia enjoys uncovering the hidden meanings behind iconic works and sharing her insights with art lovers of all levels. When she’s not visiting museums or researching the latest trends in contemporary art, you can find her hiking in the countryside, always chasing the next rainbow.