Cosme e Damião

Por Vanessa Henriques

Outro dia, folheando sem vontade um cardápio de lanchonete, procurava uma sobremesa que me convencesse de que seria imperativo pedir uma sobremesa. Infelizmente, não foi o caso. O gordo menu trazia um festival de obviedades açucaradas: mousse de chocolate e de maracujá, sorvete de massa, pudim de leite e o indefectível petit gateau.

Quando vi, ao invés de faminta, estava refletindo sobre o invocado bolinho: há alguns anos ele adentrou, sorrateiro, a doçaria brasileira, e lá se instalou com ares de rei. Não sei precisar bem quando, muito menos como, mas a sobremesa caiu no gosto de muita gente, iniciando uma pequena tradição.

O cupcake, por sua vez, não teve lá tanta sorte. Foi a sobremesa da moda subsequente, invadiu cafés e padarias, ousou nos sabores e cores mais estrambólicos, mas depois de alguns meses (anos talvez?) começou a sumir das vitrines.

A bola da vez, se vocês concordarem comigo, são os velhos churros. Espalham-se pela cidade nas mais variadas formas (mini, recheados, espanhóis, com cobertura) e veículos (já vi incontáveis food trucks de churros). Desconfio que nem Seu Madruga ou Dona Florinda desconfiavam que estaríamos, em pleno século XXI, pirando com churros.

É certo que o capitalismo tem seus tortuosos caminhos, e que sabemos que a sobremesa queridinha de hoje não valerá nada amanhã. Mas eu não tenho dó do cupcake, e muito menos dos churros. Tenho dó de nós, restritos a uns modismos bestas e sendo privados das mais deliciosas receitas de Ofélia.

Qual foi a última vez que você viu por aí um vistoso pavê de bolacha maisena? Ou aquele doce multicolorido de gelatina? Manjar de coco com ameixa? O clássico creme de papaya?

Vejam só o que perdemos às custas de um bolinho de chocolate (muitas vezes bem do sem graça) com uma bola de sorvete. Se você parar para pensar, o caso vai na contramão da famigerada gourmetização, já que um bolo de chocolate jamais será como um doce com fruta em calda ou que harmonize com cassis.

Garçom, a conta e um café!

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About the author

Sophia Bennett is an art historian and freelance writer with a passion for exploring the intersections between nature, symbolism, and artistic expression. With a background in Renaissance and modern art, Sophia enjoys uncovering the hidden meanings behind iconic works and sharing her insights with art lovers of all levels. When she’s not visiting museums or researching the latest trends in contemporary art, you can find her hiking in the countryside, always chasing the next rainbow.