Contando dias

Por Vanessa Henriques

Sempre admirei o exercício do jejum. Seja na quaresma ou no ramadã, acho importante reservar um tempo para reflexão e também para perceber nossos vícios, fraquezas e limites.

Meu namorado sempre foi adepto de uma restrição na quaresma, minha irmã também. Eu fazia que jejuava, escolhia algo que não me fazia lá grande falta (como refrigerante) e passava esses 40 dias na flauta. Assim ficava fácil fazer essa mezza purificação, mezza calabresa.

Esse ano foi diferente — e não foi porque eu me toquei que estava fazendo isso errado, claro, essa iluminação foi posterior. Por motivo de força maior (leia-se por motivo de gastrite maior), estou numa quaresma radical. Sem fritura, chocolate, café, nada com gás e, não menos importante, sem batata-doce.

Nesse período de provação já passei por algumas fases da abstinência, que estão melhorando com o tempo (o único que ainda não consigo levar numa boa é o cheiro de café recém-coado). Aquela vontade fulminante abriu lugar a uma adaptação e, em certa medida, conformação com o meu destino.

Passei a perceber também outras questões que antes não enxergava. Às vezes não é a comida/bebida que faz falta, mas sim o hábito social e, para ser mais precisa, o tédio.

Responda rápido: o que você faz para a tarde no trabalho passar mais rápido se não pode comer chocolate, tomar café ou chupar uma bala?? Só resta encarar o vazio existencial sem nenhuma distração — o que, convenhamos, não é nada agradável.

Além das questões filosóficas, há uma parte prática importante. Experimente encontrar em bares e restaurantes um cardápio amigável à gastrite. Não precisa ser bidu para entender que a busca será no mínimo sofrida.

E isso fez com que eu experimentasse situações bastante inusuais. Afinal, hay que curar el estomago, pero perder na vida social, jamás! No bar: pedi um waffle com sorvete (quase esqueci de pedir para tirar a cobertura de chocolate, mas fui salva pelo serviço lento do lugar). No restaurante por quilo: peguei um monte de coisa que não devia, paguei caro, e tive que deixar no prato. Aqui entra a fatídica e deliciosa batata-doce assada que tive que abandonar (mamãe te ama e volta pra te buscar quando tiver boa!). No McDonalds: me recusei a comprar uma salada ou uma maçã ali, voltei para casa e comi bolacha maisena.

Sairei purificada deste jejum prolongado? Acredito que sim. Corro o risco de retroceder à estaca zero? É provável. Ao menos agora conheço o cardápio “saudável” de boa parte dos lugares que frequento e todas as marcas de bolacha maisena à venda no supermercado. Quaresma de 2018, me aguarde!

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About the author

Sophia Bennett is an art historian and freelance writer with a passion for exploring the intersections between nature, symbolism, and artistic expression. With a background in Renaissance and modern art, Sophia enjoys uncovering the hidden meanings behind iconic works and sharing her insights with art lovers of all levels. When she’s not visiting museums or researching the latest trends in contemporary art, you can find her hiking in the countryside, always chasing the next rainbow.