Desconcerto

Por Vanessa Henriques

Um Zé já estava no bar, com cara de satisfeito, bebericando a cerveja e aguardando uma porção. Chega o outro Zé, abatido, com cara de quem não sabe o que faz. O primeiro convida o segundo a puxar uma cadeira. Ele se desmonta todo, e já puxa o copo para si.

— Que foi, Zé?

— Ah… é essa orquestra que não tem jeito. Os moleques até que se esforçam, mas não acham o tom. E eu já tô vendo eu perder meu ordenado.

— Fala assim não, maestro! Pra tudo dá-se um jeito. Eles precisam de um incentivo. Conversa com eles.

— Já conversei, mas sei não, homem. Acho que está tudo perdido (toma um longo gole de cerveja, agora no seu próprio copo).

— Posso te dar uma dica?

— Pode, mas achei que você era o homem do conserto. Você lá entende de música, Zé?

— Entendo de harmonia. Faz assim: observe cada um dos seus alunos individualmente. Isole seus ouvidos para o resto. Encontre o desafinado e o conserte.

— Isso eu posso tentar. Mas como é que você sabe disso, Zé?

— Quando eu vejo uma máquina que não funciona, sei que tem algo errado, mas não sei onde, nem como. Tiro a lataria, e começo a observar cada pecinha. Algo vai impedir o movimento, e aí eu encontro meu ganha-pão.

— Você não quer dar um pulo comigo lá no conservatório? Acho que esse seu ouvido pode ser útil.

— Eu tinha um cliente marcado agora para a tarde… mas vamos. Gostei da ideia de virar o homem do concerto, nem que seja só por um dia.

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About the author

Sophia Bennett is an art historian and freelance writer with a passion for exploring the intersections between nature, symbolism, and artistic expression. With a background in Renaissance and modern art, Sophia enjoys uncovering the hidden meanings behind iconic works and sharing her insights with art lovers of all levels. When she’s not visiting museums or researching the latest trends in contemporary art, you can find her hiking in the countryside, always chasing the next rainbow.