Mascotes e mascates

Por Vanessa Henriques

Constatei esta semana, com pesar, que as redes sociais estão acabando com o meu bairro. Não pense que farei aqui um retrato melodramático de pais que mandam mensagem via WhatsApp para os filhos na mesa de jantar. Nem do acirramento do fla-flu de paneleiros e mortadelas. A questão aqui é outra.

Primeiro, cabe dizer que moro na Vila Mascote. Esse bairro simpático, cheio de espigões neoclássicos e árvores, está também repleto de mascotes. Cachorros de todos os tamanhos, gatos, chinchilas e até mesmo uma barulhenta cacatua foram vistos e ouvidos por estas ruas.

Os mascotes têm pedigree e são levados para passear com regularidade. Só que — e aí começo a abordar o problema — esses passeios estão mais para uma volta zumbi pelo bairro. Pets que aguardam o dia todo por seus amados donos precisam disputar sua atenção com outros pets mimados o dia todo: os celulares.

E dá-lhe cachorrões enormes, afoitos, passeando no passo do elefantinho enquanto o dono rola a tela infinita de bobagens no Facebook. Não aprecia, assim, as varandas envidraçadas, as calçadas apertadas e batizadas, e todo o ar de refinamento da prima modesta de Moema.

O ar despojado e conectado dos moradores leva a um segundo problema: os estabelecimentos comerciais. Sou afeita a um bom comércio local. Vou a inauguração de supermercado, tomo café em todas as padarias, prestigio todos os eventos sociais — à exceção da infame passeata pela paz que acabou sendo interrompida por um roubo.

Mas nesses 3 anos vivendo entre mascotes, ainda restam estabelecimentos desconhecidos. Não de minha parte. Posso ser fácil de se ver por aí, mas gosto de ser conquistada. Uma boa panfletagem, carro de som na rua, distribuição de pipoca, quem não gosta?

Eis que num dia qualquer o celular vibra na mesa. A pizzaria da rua de baixo, na frente da qual eu já passei mil vezes, me pede para adicioná-la no Instagram. A mesma pizzaria sem placa na fachada, a mesma que nunca me deu um ímã de geladeira. A que nunca encartou um cardápio no meu jornal ou deixou um panfleto na caixinha de correspondência.

Passada a revolta inicial, veio a dúvida: como eles sabem que eu moro no bairro? Rodei minhas curtidas e descobri: eu tinha começado a seguir há algumas semanas o perfil do salão de cabeleireiro que frequento. Eles são capazes de me achar assim, mas não me cortejam quando eu passo na calçada.

Restava decidir. Por que eu ficaria vendo fotos de pizzas que nunca consumi na minha timeline? Ficaria igual a tantos outros mascotes, esperando pela volta que nunca vem? Ou deveria me render ao mundo digital e tentar espiar se o bendito telefone e cardápio estão na descrição da bio?

Não me rendi. Se não me deu brinde quando eu tava na rua, não vem tentar ser meu seguidor. Deixei de seguir o salão e desativei o GPS e qualquer indicação de que moro ali. Na rua, eu gosto mesmo é de passear sem coleira. 

Resposta

  1. Muito boa e sincera. Adorei!

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About the author

Sophia Bennett is an art historian and freelance writer with a passion for exploring the intersections between nature, symbolism, and artistic expression. With a background in Renaissance and modern art, Sophia enjoys uncovering the hidden meanings behind iconic works and sharing her insights with art lovers of all levels. When she’s not visiting museums or researching the latest trends in contemporary art, you can find her hiking in the countryside, always chasing the next rainbow.