Ela é dançarina

Por Vanessa Henriques

Há um ano mudei de horário no trabalho. Ao invés de fazer horário comercial ou algo perto disso, passei a entrar às 17 horas e sair às 1 hora da madrugada. Já fazia esse horário ocasionalmente, mas tive a oportunidade de adotá-lo permanentemente e aceitei.

Nos primeiros dias me senti fora do universo. Enquanto todo mundo trabalhava, eu me espreguiçava na cama às 10 horas de uma terça-feira. Almoçava na hora do café da tarde de muita gente. E quando finalmente saía para trabalhar, dava de cara com os rostos felizes no metrô de quem vai para casa comer e botar um pijama.

Aos poucos o corpo foi se acostumando e vi vantagens nesse dia estendido. Minha produtividade sempre foi melhor pela manhã, então eu fui me ajustando. A casa ficava mais limpa, o almoço e a marmita da janta sempre feitos, e ainda consegui voltar a fazer exercícios. Parece bom.

Ainda continua bom, mas cheguei à conclusão que a procrastinação é que mudou muito. Num dia normal, você vai trabalhar, volta, come alguma coisa e se joga no sofá, certo? Eu já fiz isso milhares de vezes. 

Agora, experimenta acordar às 11 horas, comer alguma coisa e se jogar no sofá numa quarta-feira. Algo não encaixa. Você sabe que não pode se render ao ócio completamente, porque mais tarde terá de sair. Mas pode tirar uma soneca. Você não pode ficar inventando mil faxinas e afazeres, porque ainda tem uma jornada de 8 horas pela frente. Mas você tem todo esse tempo nas mãos. Você não pode ficar bravo com quem acordou às 6 horas e agora passa, lépido e fagueiro, do seu lado na rua, comemorando sua liberdade. Mas você pode invejar.

Ter mais tempo (ou ao menos um tempo diferente nas mãos) te obriga a pensar o que fazer com ele. Amanhã vou no pilates, vou fazer o almoço. No dia seguinte vou visitar minha avó. Na sexta vou almoçar com mozão (ele é funcionário). E por aí vai.

Para quem é afeita às listas e às obrigações autoimpostas, isso pode ser um perigo. Tem dias que tudo que a gente precisa fazer é absolutamente nada do que a sociedade considera útil, sem culpa nenhuma. Vou reservar um dia para isso, com certeza. Epa.

Ou talvez a chave seja abraçar a produtividade sem medo, planificar tudo, nem que seja a soneca, e viver essa rotina ao contrário ao máximo. Afinal, ninguém sabe quando isso vai mudar ou acabar. Pode ser amanhã ou no próximo ano.

Só queria compartilhar com vocês, seres que habitam o mundo normal, por onde ando pelas madrugadas. E pedir desculpa por aquele zap na hora errada ou por melar todas as tentativas de happy hour. 

Vocês não ouviram falar que a moda agora é almoçar? De preferência um brunch? Se quiserem companhia, estamos aí.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s