Pra correr macio

Por Vanessa Henriques

Eu não fiz nada de útil na quarentena. Não visitei museus online, nem aproveitei para fazer um curso online em Harvard. Não li nenhum livro das listas de livros, nem fiz receitas mirabolantes (desculpe, mas pão não é uma delas). Não acompanhei lives nem cortei o cabelo. Assisti um ou outro seriado na Netflix, porque isso me exige muito pouco, mas pulei a lista dos 1001 filmes para ver antes de morrer. Não aprendi crochê, aquarela, ikebana ou origami. 

Não vá pensando que fiz muita coisa pela minha casa. Não esfreguei o rejunte dos azulejos, como prometi que faria. Não limpei os armários da cozinha nem o guarda-roupa. A pilha de roupa para passar cresce, se multiplica, dá filhotes, mas eu passo três leggings, lençóis e máscaras e sigo a vida.

Mas eu fiz algumas coisas, sim, claro, em sessenta dias. Escrevi matérias (fiquei devendo as crônicas), vi novela, tricotei um cachecol, fiz finalmente a receita de polenta com couve da minha mãe. Ri de incontáveis passarinhos piando na janela, pedindo mais pedacinhos de banana. Cortei incontáveis pedaços de banana, bem miudinhos. Reguei, olhei, admirei todas as plantas de casa (não são poucas). Plantei novas. Passei bem mais tempo do que o costume com meu marido, o que me faz bastante feliz.

Tempo é plantar ipês em vasos (Foto Vaness Henriques)

Eu queria ter feito muito mais, confesso. Até os itens do primeiro parágrafo, por que não? Mas falta tempo e disposição. O tempo desconfio que se esconde entre WhatsApps constantes, o trabalho com as mesmas cobranças de sempre e as duas horas necessárias para higienizar todas as compras do mercado. A disposição vai embora a cada passada de olho pelas notícias ou qualquer nesga de especulação sobre o futuro. 

O tempo pouco me pertence, odeio admitir. Eu corro atrás dele, me planejo, estrago tudo, recomeço, e ele tá sempre na minha frente, uma lebre, rindo do meu esforço de tartaruguinha. Eu achei que, estando em casa, seria minha vez de dar uma rasteira nele. Não foi dessa vez, parece.

Admito que parte dele eu gasto maquinando um futuro sem pressa, quase idílico, em que eu terei… tempo. O que falta para chegar lá? Estarei exigindo demais de mim? Minha pretensões não cabem na minha vida ou eu só continuo adiando todas elas enquanto reclamo da falta de tempo? 

Muito se falou sobre um novo mundo pós-pandemia. Concordo em partes. Adaptações serão obviamente necessárias, e a temida crise econômica virá (ou continuará, para ser mais exata). Alguma mudança individual também deve ocorrer, num efeito quase de promessa de começo de ano. 

Mas não consigo deixar de ver o mundo antigo à espreita, só aguardando para se refestelar no que chamamos de normal. Nele, eu já sei de antemão que faltará tempo. Resta saber qual será minha disposição para lidar com isso.

Respostas

  1. Avatar de Ana Maria Vargas
    Ana Maria Vargas

    É perfeito! Você traduziu em palavras o sentimento que tem nos visitado por esses dias tão estranhos.

  2. Avatar de HENRIQUE LOBO PRADELLA
    HENRIQUE LOBO PRADELLA

    Adorei o texto! Por aqui comecei a quarentena cheio de energia e com mil planos, mas foi minguando… E no fim o que mais gostei de fazer nesse período foi maratonar as nove temporadas de The Office.

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About the author

Sophia Bennett is an art historian and freelance writer with a passion for exploring the intersections between nature, symbolism, and artistic expression. With a background in Renaissance and modern art, Sophia enjoys uncovering the hidden meanings behind iconic works and sharing her insights with art lovers of all levels. When she’s not visiting museums or researching the latest trends in contemporary art, you can find her hiking in the countryside, always chasing the next rainbow.