Sabendo que era impossível, foi lá e não fez

O curioso dos sonhos é que eles se alimentam de muitas coisas — e 80% delas são pura bobagem. Quem nunca se imaginou fora do escritório, fazendo o que ama, trabalhando menos e ainda, de quebra, contribuindo para melhorar a sociedade?

Eu já começo levantando o dedo: sim, é claro que eu já pensei nisso. Quem, depois de 8 horas de expediente e 2 horas sacolejando no metrô, não pensou nisso? Não precisa ser bidu para perceber que o que estamos fazendo hoje é inútil e está nos condenando a uma vida cada vez mais infeliz. 

As ideias fervilham. Vou comprar um sítio, plantar minha taioba orgânica e vender no mercado de Pinheiros! Vou abrir uma livraria com floricultura (a perfeita junção de dois negócios de inegável insucesso)! Vou abrir uma escola com uma metodologia livre e muitos jardins (te cuida, Waldorf!)! Vou vender minha granola, minha arte na praia, meu bolo de chocolate no pote! 

Uma pena que a minha imaginação não se atente a um pequeno detalhe: também precisa ganhar dinheiro. Mas quem precisa de realidade quando se tem histórias de sucesso para consumir? 

O roteiro é batido: “Eu trabalhava 14 horas por dia na Bolsa, mas sentia que faltava um propósito na minha vida. Decidi vender meu apartamento e passei 2 anos em Paris aprendendo a fazer queijos artesanais. Voltei para o Brasil, me instalei na fazenda que era do meu avô, e hoje sou um produtor de queijos sustentável, ajudo a comunidade do entorno e ainda faço a lição de casa dos meus três filhos”.

Você pode trocar “mercado financeiro” por “agência de publicidade”, “Paris” por “Tailândia” e “queijo artesanal” por “chef de cozinha”, tentar outras combinações, mas o resultado não vai mudar muito. Há relatos como esses em todos os lugares, desde a embalagem do requeijão até o caderno de negócios do jornal.

Eu até poderia me queixar aqui da narrativa neoliberal do sucesso, da meritocracia nepotista ou da praga que é o Instagram, mas corro o risco de soar batida. O que eu queria compartilhar é só a minha certeza de que escolhi o propósito certo, mas o caminho errado.

Eu adoro taioba e um café filosófico, mas achei que o caminho para isso era fazer uma faculdade de humanas, arrumar uns amigos bacanas, ser feliz com pouco, cultivar cactos em chão de taco. Ledo engano.

Para ter tudo isso eu precisava ter me dedicado ao mercado financeiro com uns 20 anos, quando eu ainda tinha vértebras e retina para isso. Ter emendado a segunda graduação e a pós antes de esquecer a ordem das gerações de direitos humanos. Esquecido o aniversário da minha mãe mais de um ano consecutivo. E aí, um dia, viria a epifania, e eu estaria livre (e, mais importante, com a conta abastecida para ser livre) dos males do mundo moderno.

Agora a escoliose tá pegando, a cabeça não aguenta 8 horas de expediente e mais aquele curso online pra dar “up” no currículo, e só de pensar em investir na bolsa já abro um bocejo. Esse bonde já passou (será que algum dia ele foi uma opção?).

Estou triste? Um pouco, mas também estou verdadeiramente livre. Livre das expectativas irreais, dos planos mirabolantes sem chão e dos “cases de sucesso” que não servem para 99% da população. Tenho menos pressa, também. 

Quem sabe agora eu consiga enxergar melhor os 20% que restam.

8 thoughts on “Sabendo que era impossível, foi lá e não fez

  1. Falou tudo Vanessita!! O que não faltam são cases de sucesso e receitas para resolver qualquer tipo de problema, até parece que é fácil assim rs

  2. Ah, nem me fale dessas escolhas! Fiquei com uma ponta de inveja, eu ainda não consegui me libertar dos planos mirabolantes. Adorei o texto! Me lembrou uma entrevista que vi com um cara que ficou milionário antes dos 30, e ele falando super sério que começou do zero, a única coisa que ele tinha era uma FÁBRICA que herdou da família hahaha

  3. Tava pra eu ler há semanas e menina que pancada! Adorei a forma como vc deixou tantos sentimentos (meus) claros, minha parte preferida foi o parágrafo dos cactos no chão de taco ❤
    Essa prisão da subsistência é claustrofóbica e ver pessoas privilegiadas escapando dela não ajuda em nada, mas sigamos planejando nossas fugas… nem q seja pra sonhar

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