Por Vanessa Henriques
Tenho horror e atração por marmitas produzidas em série. O TOC acha lindo ver todas as comidas iguaizinhas em tigelas coloridas, a rotina acha perfeito ter todas as refeições planejadas e não precisar pensar no que vai cozinhar pro almoço entre uma reunião e outra. Mas o espírito só consegue pensar: quem aguenta comer a mesma comida tantos dias? Como harmonizar aquele dia de “preciso de macarrão com muito queijo” com uma marmita balanceada com legumes e proteínas?
Sempre que chego à conclusão de que o caos se instalou na minha vida e que só terceirizando a cozinha todos os meus problemas irão se resolver, paro e lembro que o trabalho rouba de nós um prazer que deveria ser inegociável. A marmitaria em série só atende aos desejos produtivistas: menos tempo procurando receita, mais tempo consumindo; menos domingo para não fazer nada, mais tempo para trabalhar durante a semana; menos espaço para o improviso, mais massificação.
Outro dia encontrei um amigo que, empolgado, me mostrou seus cálculos e proporções para saborear o café perfeito todas as vezes. O argumento é bom: não basta acertar num dia e depois amargar (literalmente) 20 cafés meia-boca. O agravante é excelente: ele tem gastrite, e o café diário é um misto de ritual de autocuidado com autodestruição — e errar as proporções pode ser realmente complicado.

Entendi seu ponto, mas discordei. Considero a cozinha a mais perfeita expressão da impermanência e do nosso estado de espírito. Somos capazes de grandes feitos quando nos sentimos bem: pães aerados, geleias no ponto certo, bolos altos e fofos, refeições e até invenções caprichadas.
Mas também queimamos o arroz, esquecemos de descongelar o bife, deixamos o café forte ou fraco demais e desperdiçamos legumes que apodrecem na geladeira.
Por mais que nosso sonho seja encarnar a Rita Lobo ou algum participante do Master Chef — que também enxergam a comida de modo industrial, é bom lembrar —, não passamos de nós mesmos. Podemos aperfeiçoar nossos cafés e almoços coloridos, ou aceitar que cada refeição será única.
Só não dá para esquecer que um bom banquete é o que nos faz também humanos (já viu bicho escolhendo louça ou tupperware colorido?), e que toda vez que a pressa nos tira isso, murchamos que nem maçã que passou dias demais na fruteira.
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