Por Vanessa Henriques
Você ainda espera o fim da pandemia?
Percebi que é o meu caso. Por mais que o tópico tenha sido varrido para debaixo do tapete, volta e meia ele dá o ar da graça, num comentário, numa constatação de que nada foi como antes, ou na dificuldade em localizar no tempo qualquer acontecimento entre 2021 e 2023.
A covid mudou tudo, e nada ao mesmo tempo. Os aprendizados de um momento tão caótico parecem ter sumido. As políticas públicas estão tímidas, os discursos de poderosos são toscos. O home office é para poucos (que se acham maioria). O mundo caminha para mais guerras, o oposto da cooperação.
Só que a pandemia dividiu nossas vidas em uma inegável massaroca de antes, durante e depois. Nossa rotina, nossos hábitos, nosso tempo de tela, nosso trabalho, nosso deslocamento, nossas roupas, nossos ócios, tudo se alterou.
Descrente do home office (do qual sou fã e hater na mesma medida), percebi que ainda aguardo o momento em que sairei todos os dias de casa. Sabe, como era lá no passado. De que usarei mais roupa “de sair” do que “de ficar em casa”.
Fantasio em fazer um curso presencial, com as mesmas pessoas todas as vezes. Tipo cursinho de inglês da adolescência, em que vc agarrava amor e ódio dos colegas de sala. Ou que na academia vai “fechar uma turma” na zumba, e não um apanhado de pessoas que tinha tempo naquele dia e marcou pelo app (e que vc talvez nunca mais veja na vida).
Percebo que tenho saudade de uma vida que era mais ativa, mais coletiva, ainda que infinitamente mais cansativa. Hoje qualquer movimento para 200m longe do sofá parece merecer uma grande ponderação. Pudera, a cidade é um caos, é fácil se acostumar à dinâmica de um bairro e um guarda roupa composto só de leggings.
Só que essa rotina pré-pandêmica parece cada dia mais distante, como se o tempo corresse ao contrário do coração. Talvez eu precise me acostumar, me adaptar, eu repito no espelho. E tento, genuinamente. Mas sempre parece que falta alguma coisa.
Acho que estou buscando no ambiente algo que não mora mais em mim. Perdida na mudança, vou tateando os móveis tentando me reacostumar com seus lugares. O sofá, sempre ele, é o único que ainda me acomoda.
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