Por Vanessa Henriques
Sabe quando você sai para pedalar com alguém que está a pé? Vocês querem estar juntos, mas é difícil compatibilizar os ritmos. Quem está na bike precisa pedalar bem devagar, quase se desequilibrando, para acompanhar o caminhante. Quem anda pode até correr, mas não vai alcançar o ritmo do pedal. É possível se separar: o ciclista aproveita uns minutinhos de liberdade, imprime ritmo às rodas, mas sabe que não vai durar muito: vai ter que ficar parado esperando ou pedalar tudo de volta, para encontrar o parceiro.
Como tudo é metáfora, tenho alternado entre o ciclista e o pedestre. Em geral, me sinto comandando a bicicleta: meu ritmo rápido, os pensamentos à mil, a expectativa nas alturas, combinam mais com o espírito de um velocista. Só que olho para o lado e… preciso esperar. Ou voltar. Ou os dois. É bom para proteger o coração, e eu amo a companhia. E o emocional vai de altos a baixos, tal qual o gráfico do smartwatch que marca minha frequência cardíaca.
Só que eu admiro o pedestre, quero ser como ele: devagar e sempre, sem arroubos, mas constante. É quem vai mais longe, melhor, um passo por vez. Só que a bike é rápida, né? Olha como ela já tá lá na frente… e eu aqui. Sou uma pedestre ansiosa — e, pior, nem gosto de correr!
Também tenho os momentos de ser paralelepípedo: não consigo me mover. Sou pisoteada pelas rodas e passadas, urgências e desejos, mas não tem whey ou creatina que me faça reagir.
Talvez você se pergunte: porque não andar ou pedalar com alguém com o mesmo ritmo que eu? Eu devolvo: você já dirigiu um carro por uma grande cidade? Participou de uma reunião de condomínio? Ficou na fila de um supermercado lotado? Se respondeu sim para uma dessas, já deve ter reparado que as pessoas têm ritmos, prioridades e até interpretações da lei completamente diferentes e conflitantes. O milagre é que a gente ainda consiga estabelecer uma coesão social mínima (e olha que é BEM mínima mesmo).
Por mais que encontremos um companheiro de jornada, seja ciclista ou pedestre, que parta na mesma velocidade, dificilmente seguiremos juntos por muito tempo. A vida é maratona e endurance, com pitadas de triatlo. Sejam amigos, amores, familiares, cada um vai alternar seu pace diante dos obstáculos que encontrar.
Então preciso fazer as pazes com meu coração de ciclista enquanto aspiro ser corredora octogenária. Preciso admirar os sprints e os retornos com a mesma intensidade. É tarefa para todo dia, que nem a dose de creatina.
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