A borda da história

Por Vanessa Henriques

 

Há anos eu colecionava imagens de quadros bordados com nomes de bebês, daqueles que enfeitam a porta do quarto na maternidade. Salvei um monte de fotos no meu Instagram, esperando para que um dia eu pudesse fazer essa encomenda, já tinha até uma artista preferida.

Quando engravidei, me enchi de coragem e pensei: por que eu não posso bordar? Fazia tempo que eu namorava essa ideia, e a coleção de posts só crescia, mas eu não me movia. Comprei um curso online, e me animei com a possibilidade. Aguardei o fim das férias para colocar em prática minha nova artesania.

Eis que o fim das férias virou uma longa internação e, depois, um luto indigesto, impossível. As linhas e agulhas ficaram de canto. Tanta coisa ficou de canto. Não tinha forças para muita coisa, que dirá aprender algo novo. Até que decidi que seguiria em frente e faria o bordado para minha filha.

Escolhi um desenho delicado, que a representasse, e ao mesmo tempo algo possível para uma iniciante. Um ipê amarelo, com sua florada tão linda quanto breve, assim como foi a passagem da minha filhinha. Bordei todas as flores com esmero, errando, consertando, chorando, e também sorrindo. Arrematei com seu nome em vermelho, na raiz. A raiz de tudo.

Esse bordado virou meu amuleto. Olho para ele todos os dias, deixo-o num móvel próximo à TV, visível para mim, mas não exposto demais. Ele me mostrou que, por mais que tudo tenha sido o oposto do esperado, há coisas que ainda podemos fazer por nós, pelos nossos pequenos. Quando terminei, chorei muito, mas o choro foi diferente. Eu bordei a nossa história, para admirá-la, lembrá-la, honrá-la.

É muito difícil amar nossa história e a nós mesmos quando o revés é tão grande. Ainda mais em um tempo em que vivemos vidrados na comparação, combustível da expectativa e também da frustração. Quando é difícil ter espaço para sofrer, para contar histórias distintas, não tão felizes.

Sigo aprendendo a conversar com a dor, enquanto crio novas expectativas — sim, elas sempre vêm, e são parte de estarmos vivos. Elas serão muito diferentes, mas serão minhas, e o tempo dirá o que será realidade ou não.

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About the author

Sophia Bennett is an art historian and freelance writer with a passion for exploring the intersections between nature, symbolism, and artistic expression. With a background in Renaissance and modern art, Sophia enjoys uncovering the hidden meanings behind iconic works and sharing her insights with art lovers of all levels. When she’s not visiting museums or researching the latest trends in contemporary art, you can find her hiking in the countryside, always chasing the next rainbow.