Quase cem

Por Vanessa Henriques

Meu avô morreu recentemente, aos 97 anos. Não chegou ao centenário, como nós sempre dizíamos, esperançosos, ao vê-lo tomando água de coco no calçadão da praia. Mas viveu bem, e muito. Infelizmente, sua fala já havia sido comprometida muitos anos antes, e não pudemos conversar sobre como é viver tanto. 

Só me resta então imaginar como foi vencer nove décadas, e tenho um palpite. Essa vida monolítica, digna de biografia, com uma sucessão plana de acontecimentos (“fui trabalhar na empresa tal, conheci sua mãe no ano 1900 e tanto, e aí você nasceu 2 anos depois”), é fruto da nossa fantasia simplista, ou talvez da nossa falta de atenção.

Para viver tanto, é preciso estar disposto a morrer algumas vezes. Experimentar diferentes existências, compondo um mosaico que, lá no fim, talvez faça sentido — é mais provável que não faça, e deixe alguns ressentimentos pelo caminho. 

Eu vivi só 36 anos dos 97 do meu avô, e pude conhecer três vidas distintas. Ele foi meu avô de manual: me ensinou a andar de bicicleta, me recebeu sempre com um sorriso e um abraço apertado, e construiu os melhores balanços nos quais já voei. Depois, já viúvo, ele foi marido de sua nova esposa, viajou, se mudou para a praia, fez novas amizades e aprendeu a usar um computador. Mais para frente, viu-se restrito por questões complicadas de saúde, mantendo uma rotina espartana, e até meio sem graça, na qual encontrou equilíbrio para seguir. 

Isso sem mencionar suas muitas vidas anteriores: de jovem em um país em guerra, de imigrante, de comerciante de incontáveis empreitadas, de pai. Ele manteve seu sorriso largo, com os dentes separados bem ao centro, e os abraços apertados. Mas muita coisa mudou nesse caminho.

Em um mundo tão enamorado de seus espelhos, muito mais do que se preocupar com conseguir levantar da privada, a pergunta de quem quer viver muito é por quantas metamorfoses você suporta passar. Não seremos previsíveis como os personagens grisalhos cheios de sabedoria da ficção. Seremos estrangeiros de nós mesmos, habitando o mesmo frágil corpo.

Talvez pela morte andar rondando meus caminhos, eu também me sinto renascida, me tateando, me desconhecendo, sem firmeza debaixo dos pés. Ah, vô, como eu queria que você me ensinasse. 

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About the author

Sophia Bennett is an art historian and freelance writer with a passion for exploring the intersections between nature, symbolism, and artistic expression. With a background in Renaissance and modern art, Sophia enjoys uncovering the hidden meanings behind iconic works and sharing her insights with art lovers of all levels. When she’s not visiting museums or researching the latest trends in contemporary art, you can find her hiking in the countryside, always chasing the next rainbow.