Prova de fogo

Por Vanessa Henriques

A vida é feita de certezas, mesmo quando não queremos enxergar. E toda nossa existência caminha apenas para aquele momento em que nós pagamos para ver e, olha só, confirmamos aquela certeza.

Começo teorizando, mas a certeza a que me refiro é bastante pedestre. Eu tinha certeza que não valia a pena pagar para comer fondue fora de casa. Desde que esta “iguaria” virou moda (anos 2000?), não me conformava com o preço cobrado pelo quitute fora dos limites da cozinha doméstica.

Uma panela de queijo industrializado, uns pães amolecidos, umas frutinhas e um chocolate vagabundo? R$100 por pessoa. Tudo, claro, num clima intimista da montanha, telhado estilo europeu, pele de carneiro fake para se cobrir. Num frio de, sei lá, 15ºC, que é o pico do inverno em São Paulo.

Fui driblando os convites públicos e me rendi aos fondues familiares, que tinham a vantagem de ser menos afrescalhados e com produtos de melhor qualidade. Fizemos eu e meu marido versões antológicas, como o fondue na beira do fogão, com o auxílio de garfos e estrelando uma mexerica que estava estragando na fruteira. Um luxo.

Até que chega um ponto que a vida te coloca cara a cara com a sua certeza. Vai ser ruim, vai ser caro demais, e você vai se arrepender, mas quando você se dá conta, está com seu nome na fila de espera de um badalado restaurante de fondue em Campos de Jordão. Por motivo de força maior, claro.

Era uma comemoração familiar da qual eu não podia me furtar, e havia sido uma vontade da aniversariante. Paciência, vamos lá. Pedimos um rodízio de fondue — que incluía fondue de carne, de queijo e de chocolate — para cada. Rachamos uma garrafa de vinho que nos custou menos do que se todos os comensais tomasse um suco de laranja. Tire suas conclusões.

A dúvida já me assombrou no pedido. O garçom perguntou se queríamos uma panela de óleo ou uma chapa para o fondue de carne. Eu responderia que não queria nenhum dos itens, obrigada, mas os mais experientes da mesa pediram um exemplar de cada.

Alguns minutos depois ele surge com bandejas e mais bandejas de carne crua, uma chapa ardendo e uma panelinha de óleo com um rechaud embaixo. Observei o protocolo, e percebi que estava pagando oitenta reais para fritar a minha própria carne com roupas de sair, em meio à fumaceira geral do salão.

Eu, que torço o nariz para quem pede picanha no rechaud (que já tá pronta, veja bem!) em barzinho lotado. Eu, que vou em churrasco e encho a pança de pão antes da carne começar a sair. Eu, que não queria lavar o cabelo. E, principalmente, eu, que vou ao restaurante para não ter que cozinhar.

Um pouco abalada, tive que escolher uma das opções. Fritei uma linguiça no óleo. Ela saiu encharcada, desenxabida, meio encolhida pela violência do preparo. Mandei para dentro, resignada.

Tentei a chapa. Coloquei um pedaço de carne, esperei. Fui virar. Grudou. O garçom, notando minha falta de desenvoltura, aconselhou que eu esperasse uns minutos, senão grudaria mesmo. Esperei, virei. O resultado foi tão ruim quanto os bifes que tento fritar em casa: engordurados, fora do ponto, e sem sal. Sim, você tem que lembrar também do tempero nesta grande cozinha que virou este jantar. Pena ter esquecido meu avental.

Você pode dizer: carne é caro. É mesmo. Mas o desgosto foi tanto que não comi nem 150 gramas naquela noite. Já tive desempenho melhor num restaurante por quilo. Queijo, imagina, pela hora da morte. Também não é para tanto, já que aquela pasta mais lembrava um preparado UHT de qualquer coisa.

Ao menos deu para fechar num terreno conhecido: chocolate, uma panela quente, frutinhas, marshmallow. E a certeza (de novo ela) de que a conta não seria compatível com a experiência.

Eu quis compartilhar este relato na esperança de ser lida por boas almas que, como eu, não gostam de pagar para cozinhar fora de casa. Ou talvez de restauranteurs que se toquem do grande mico que é colocar seu cliente nesta roubada, e ainda vender como uma experiência invernal incrível.

E, claro, para provar que eu tinha certeza que era uma furada. Que venha a próxima provação. Deixarei meu avental separado.

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Deixando pegadas

Por Vanessa Henriques

Gosto de fazer trilhas. É uma paixão que descobri desde que comecei a namorar meu marido. No começo eu tinha receio, me embrenhar no mato, toda estabanada, meninona de apartamento, coisa boa não podia sair. Hoje sou só amores e coleciono histórias e trilhas preferidas.

Claro que não saio por aí de facão na mão e perneira abrindo caminhos. Costumo visitar parque estabelecidos, trilhas fáceis e médias, com ou sem guia. Já fiz trilhas memoráveis por bons e maus motivos. Mas algumas coisas são constantes: o ar puro e fresquinho, o deslumbre com a beleza da floresta — geralmente do pouco que nos resta da rica Mata Atlântica — e as botas sujas de terra.

Botas essas que já estão nos seus últimos passos. Foi por causa dela que comecei a pensar nesse texto. Comprei a minha deve fazer uns 7 anos, quando percebi que não era uma boa ideia sair pelo mato com tênis de corrida. Na primeira usada pisei numa poçona de lama — o que poderia ser um charme, afinal ela foi feita para isso e não entrou nada na minha meia. Mas a verdade é que segui por um lado da trilha enquanto todo mundo foi pelo outro, e chafurdei literalmente.

Depois da bota fui ficando mais paramentada: roupa comprida (é sempre a recomendação), meia longa, boné (odeio e sempre esqueço, mas também é bom), uma pochete (sim) extremamente útil, mochilinha de ataque. Acho que é isso.

Logo, quem me vê por aí só pode achar que sou uma trilheira raiz, descolada, fazedora de raftings e escaladas, saltadora de parapente, telespectadora do Discovery Channel. Curto a fama, mas ela não podia ser mais falsa. Não só pela minha parca experiência, mas justamente por causa dos EPIs que utilizo.

Nada mais raiz do que fazer trilha descalço, de chinelo havaiana, de crocs, de tênis liso de corrida, de all star branco, de calça jeans, de vestido, e até mesmo carregando uma bolsa de palha com um sousplat dentro (tenho testemunhas). Todas situações reais.

Isso é coisa de quem se joga no rolê sem saber bem o que vai acontecer e vai com tudo, não tá nem aí para as consequências. Que escolhe a roupa pelo humor, e não pelo programa. Quem consegue curtir o passeio apesar das péssimas condições em que se encontra. Eu sou muito nutella, não faria nada disso.

Mas devo confessar que um dia já fui mais raiz. Fui com meu marido a uma trilha desconhecida, que envolvia basicamente subir um morro, no melhor espírito ousadia e alegria. Todos diziam que lá não tinha banheiro nem água, era bom levar alimento e alguma bebida.

O que os dois malandros fizeram? Botaram um (repito, um) polenguinho e uma (repito, uma) garrafa de água na bolsa, eu de shortinho jeans e blusinha de algodão, ele de bermudão caqui e uma blusa de corrida (mandou bem) e fomos lá subir por 1 hora um morro interminável debaixo de sol. Ao menos fui com a bota.

Chegamos mortos de cansaço ao topo, suados, com fome, com sede, e sabíamos que ainda tinha a descida. Mas lá do alto, que vista. Dava para admirar todos os mares de morros possíveis e ainda espiar o litoral, para onde iríamos em seguida. Tudo tinha valido a pena.

Para desfrutar comendo um polenguinho! (Foto Vanessa Henriques)

Descemos (o que eu acho mais difícil que subir) e saímos desesperados por um gole de água. Paramos no primeiro restaurante. Só aceitava dinheiro. Compramos o que deu: duas garrafas de água e uma salada caprese. E desde então, ficamos cada vez mais nutella.

O detalhe é que já subimos este morro outras duas vezes. Talvez minhas raízes não estejam totalmente mortas.

Vi passarinho verde

Por Vanessa Henriques

Hoje fui surpreendida por um novo amigo. Fui tomar o meu café da manhã e, como de praxe, cortei um restinho do meu mamão para colocar no nosso comedouro — que é, sem rodeios, um prato de planta amarrado com um arame (pois antes era fita crepe e, obviamente, eles voavam) onde deixamos frutas para os passarinhos.

Lá da cozinha, ouvi um barulhinho diferente. Era um periquito-rico (que eu, como todo mundo, chamo de maritaca) bem à vontade, com um naco de mamão na boca e resmungando alguma coisa, como fazem os psitacídeos. Quando notou a minha presença, toda torta no sofá tentando focar a câmera horrível do celular, saiu voando.

No começo, os passarinhos não gostavam de tanto improviso. Veja bem, as condições eram ruins, a fita crepe vivia desgrudando, as frutas ficavam pretas (já que ninguém as comia) e se chovia ou ventava, corria-se o risco de sair voando com prato e tudo.

Demoraram para aparecer os primeiros penosos, curiosos e famintos. Mas eles apareceram. Um a um, fomos colecionando visitantes. Os cambacicas, pequeninos e abusados, tomando água de cabeça para baixo. Os sanhaços cinzentos, que sempre vêm em pares, para vigiar. Os sanhaços do coqueiro, maiores e falastrões, espantando que tivesse por ali. Os estalinhos dos beija-flores. O canto manjado do sabiá. A curiosidade e o piado forte, que sempre me assusta, do bem-te-vi.

Os periquitos, no entanto, nunca tinham se aventurado por ali. Há no meu prédio uma série de coqueiros plantados no jardim, e nós nos contentávamos em vê-los lá de cima, beliscando frutinhas e matraqueando. Eis que um descobriu o que as outras espécies já estão cansadas de saber: sempre tem um mamão, uma bananinha, às vezes outra fruta (que eles ignoram, os ingratos), geralmente de manhã, quando essa moça grande e estabanada do celular fica tentando te fotografar, ou de tarde, quando um barbudo fica imóvel no sofá tentando te espiar com um guia de aves na mão.

oi! (Foto: Vanessa Henriques)

Me divirto pensando em como eles encontram esse pratinho, na ponta de uma varanda no mar de prédio e de árvores desta vila. Pelo cheiro? Pela cor? Observando os outros penosos que param por ali?

E, depois de encontrado, o que fazer? Voltar sorrateiro, para ninguém perceber, e garantir o sua rodelinha de banana? Ou contar para a galera, trazer a passarada toda, fazer algazarra, e entrar de vez na lista de parasitas da nossa fruteira? São grandes reflexões para um corpo tão pequeno e tão pouca fruta.

Dá uma trabalheira manter os visitantes contentes. Quando eles ficam mais à vontade, não se envergonham de deixar seus cocôs de frutinha e sementes pela varanda. Nem de piar alto quando não tem nada para comer. Sem contar as brigas entre eles.

Mas é um charme tremendo dizer que acordou, em plena São Paulo, com o barulho dos penosos na janela. E vale a pena, para ficar em dias como esse, como quem vê passarinho verde.

 

Do que não falei, do que esqueci, do que perdi

Por Vanessa Henriques

Vocês devem ter percebido (digam que perceberam!!) que tenho tentado voltar ao ritmo de escrita desde que postei aquele vídeo do aniversário do blog. Este texto era para ter vindo logo na sequência, ou até antes, mas acabei me embolando sozinha com compromissos pré-férias e viagens. Eis que ele veio.

Todo mês de junho tem tom de dilema. Sempre lembro, lá pro meio do mês, que o blog completa X anos e meu deeeus eu preciso fazer algo sobre isso. Ou não preciso? – afinal, não posto faz meses. Ainda faz sentido manter o blog? Virou só obrigação (e, ainda por cima, obrigação não cumprida)?

Os anos passam e a dúvida continua. Embalada por algumas conversas da terapia, decidi dar mais uma chance para esse blog surrado. Entrei no painel do wordpress e comecei a reler comentários. Tinha bastante coisa boa ali: confissões profundas e engraçadas, pedidos por mais textos, ranking de identificação…

Tinham comentários emocionados sobre textos que eu nem lembrava de ter escrito. [Mari Kondo que me perdoe, mas avancei pro estágio proibido e comecei a ler os textos antigos no meio desse processo de quase-arrumação de casa.] Tinha coisa boa ali, agradável, que eu gostei de reler.

E quanto mais eu fuçava, menos motivos sobravam para deixar de postar aqui. Deu uma saudade de mim, de outros tempos de vida que eu já tinha me esquecido que existiram. Eu escrevia bonito. Eu escrevia poesia. Eu escrevia quase toda semana. Quanta coisa mudou.

Ninguém sabe apontar o momento certo que, opa, tudo mudou. É impossível. Mas sempre restam pistas. Durante esses seis anos de Croniquices, eu passei por quatro empregos, mudei de casa, viajei muito, fiz novos amigos, perdi alguns. Vivi também experiências que me fizeram questionar a minha escrita, algo que compartilhei com poucas pessoas.

No início de 2016 fui aceita no Clipe (curso de escrita de literária oferecido pela Casa das Rosas) e passei no trainee da Folha. Parecia que agora tudo ia deslanchar com relação à escrita, certo? Mas a verdade é que tudo isso me colocou numa baita insegurança.

No curso, eu não tinha uma escrita profunda, atropelada, cheia de metáforas, miniconto ou o quer que seja. Não tinha lido os clássicos e nem conhecia as promessas. Na Folha, eu não tinha o tino de repórter, o texto seco, desidratado de conjunções e de clichês. E eu não sabia o que eu tinha, pra melhorar a situação. Ao invés de aproveitar o que aprendi e me aprimorar, acabei ficando vazia depois dessas experiências. A canoa virou.

E escrever ficou cada vez mais difícil. Estava assombrada pela concorrência, desestimulada, perdida. Nem me dava mais ao trabalho de inserir um “escrever crônica” na minha lista semanal. Quando a inspiração vinha, eu batia um texto sem vontade e publicava, para cobrir os buracos de meses sem publicação.

Eis que depois de tudo isso, eu leio um texto lindo sobre a chuva:

[a chuva] só queria cair do céu, aliviada depois de um dia abafado, penetrar na terra, quem sabe ir parar num lençol. Nós atrapalhamos também o caminho dela, mas ela não se vinga de nós. Continua caindo, incólume, sob nossas cabeças.

As andorinhas, ao contrário, dançam e brincam, recepcionando a chuva que decidiu cair impiedosa. Molham as penas sem dó, sem pensar no estrago do dia seguinte. Enquanto há chuva, há motivos para furá-la com voos rasantes.

Gosto de pensar que a chuva, assim como nós, tem humor. (…) Somos impermeáveis à água, mas permeáveis às sensações. Qual o humor da chuva de hoje?

Fui eu que escrevi isso, lá nos idos de 2013. Nos últimos anos, não fui capaz de escrever nada nesta linha. Porque eu esqueci da chuva, perdi a habilidade de olhar para ela e acho tudo que foi escrito sobre a chuva é melhor do que eu possa fazer. Cronista impermeável não serve de nada.

E agora, o que resta? A lembrança de tempos melhores e um objetivo. Voltar para trás para ir em frente. Mais um ano para continuar tentando. Falemos em junho.

Enquanto há chuva, há motivos para furá-la com voos rasantes (Foto: Carlos Oliveira)

Prosperidade*

Por Vanessa Henriques

Há um sentimento dúbio que os netos de imigrantes compartilham. Eles se orgulham das histórias incríveis dos seus familiares, que deixaram seus países fugindo de guerras, de fome, de dificuldades que nem sonhamos ter. Parecem que essas vidas foram vividas em outros séculos, tamanhas as peripécias, as dificuldades e, o mais impressionante, como tudo ficou bem – não só pra eles, mas para duas gerações adiante. Eles cruzaram oceanos para chegar aqui, trabalharam exaustivamente, construíram um patrimônio econômico e afetivo sólido.

E a nós, o que sobra? Podemos, claro, continuar contando as histórias de nossos avós e bisavós, e também de nossos pais. Mas se elas são distantes para nós, imagina para nossos filhos? (Nem mesmo sabemos se queremos ter filhos…)

Podemos também trabalhar para que o legado deles continue. Só não podemos nos enganar: absolutamente tudo mudou. Não sofremos ameaça de guerra e de miséria em nosso convívio abastado. Não temos nem sequer grandes planos. Nem grandes problemas, se pararmos pra pensar (chego a ficar vermelha só de pensar a cara que minha vó faria se soubesse por cada bobagem que eu choro!)

Isso quer dizer que não temos nenhum legado a passar? Só porque não temos histórias épicas? Eu não sei a resposta para essas perguntas. Essa é a chave quando se fala de legado: ninguém se dá conta de que está construindo um a todo momento.

Tenho me lembrado do sermão que ouvi na última Páscoa. O padre nos aconselhou a viver uma vida de abundância, de dar inveja (no bom sentido). Viver a vida que você invejaria nos outros: uma vida com muitas alegrias, amores, risadas, viagens, vinhos. Uma vida com muito de tudo que você considera importante. Assim, vamos construindo nossas raízes nesta terra que um dia há de nos comer.

Isso só pode ser Prosperidade.

*Este texto foi escrito na encantadora Prosperidade, distrito de Vargem Alta (ES). Agradeço ao amigo Douglas Scaramussa, também neto de imigrante e com um coração maior que o legado imenso de sua família, pelo convite. Agradeço também a companhia dos amigos que nos lembram todo dia como nossa vida é próspera e como há muito pelo que ser grato.

Namastê

Por Vanessa Henriques

Li outro dia uma extensa reportagem sobre meditação. Crianças, adultos, idosos e o Prem Baba fazem e adoram. É a conexão do corpo com a mente, melhora a concentração, reduz a ansiedade, ajuda no desempenho no trabalho ou na escola. Sem contraindicações.

Tudo é muito bonito, pena que pareça tão distante. Comecemos pelas indicações da reportagem:

Escolha um ambiente confortável e silencioso” — ora, todos sabemos que essas condições são excludentes. Minha cama é confortável, mas tem o barulho da janela. A sala é espaçosa, mas tem a TV. É uma grande análise combinatória essa vida.

Escolha um cômodo tranquilo, de preferência à meia luz” — essa tá fácil, já que a luz da sala queimou faz algumas semanas e até agora não tomei coragem de trocá-la…

Use roupa confortável; dispense qualquer roupa que aperte, incomode ou prenda” — Ganha um doce com o rostinho do Dalai Lama quem encontrar uma roupa feminina que tenha todos esses requisitos.

Coloque uma almofada sob o bumbum [risos] para a apoiar a região sacrococcígea. Em seguida, sente em uma posição bem confortável” — Desafio 2: pedir para alguém com escoliose moderada encontrar uma posição confortável sentado numa almofadinha no chão.

Mantenha os olhos bem fechados” YES, essa eu consigo!! “A coluna deve ficar ereta durante todo o exercício” Foi por pouco…

O meu preferido, para finalizar: “Não medite logo após as refeições nem com o estômago vazio”. Senta aqui, querido repórter. Esto no ecxiste (leia com voz de padre Quevedo). Ou eu medito ao acordar (barriga vazia) ou depois do café (barriga cheia) ou depois do trabalho (barriga vazia) ou depois da academia (barriga vazia) ou depois da janta (barriga cheia). Não consigo me lembrar da última vez que alcancei esse estágio intermediário que você diz existir.

Antes que perguntem, não tenho nada contra a meditação. Já frequentei umas boas aulinhas de yoga, com tempo para meditação no final. É uma delícia, recomendo a todos.

Minha revolta tem uma origem mais, digamos, estrutural. É muito fácil recomendar meditação quando todo mundo anda nervoso, ansioso e à beira de um ataque de nervos. Parece até bacana falar isso.

Mas não é bem por aí. Somos cada vez mais exigidos no trabalho, o bendito celular nas mãos o tempo todo (para a vida e para o trabalho), a ridícula necessidade de viajar e tirar fotinhos bonitas para postar nas redes sociais, a Rita Lobo falando para cortar os ultraprocessados, o instrutor da academia te olhando torto ao ver seu pneuzinho ressurgindo, e eu poderia continuar nesta lista por alguns dias.

Sabe quando você está tiririca da vida e alguém fala com a maior tranquilidade “Fica caaaaalma”? É isso que estão fazendo conosco. Opa, vocês estão ansiosos, sobrecarregados, precisam tomar whey, ser bem-sucedidos, transar muito, ser ricos,  culpa de vocês, vão fazer uma meditaçãozinha para relaxar.

Quer saber? Eu acho que tá todo mundo relaxado demais. Quem passa o dia encostando a região sacrococcígea numa cadeira de escritório não devia ficar assim tão calmo. Tá faltando mais revolta antes da gente chegar ao estado de mindfullness — ou cabeça cheia de vazio, em tradução livre e jocosa. Meditar no caos não resolve nada, só nos torna um pouquinho mais dóceis.

Ainda assim, recomendo a meditação — seja lá qual forem as condições possíveis. É preciso estar preparado e equilibrado para melhorar todo o resto. Ou para, pelo menos, estar mais zen quando seu chefe insinuar que você poderia ficar mais calminha.

Namastê! A irritadinha que habita em mim, saúda a irritadinha que habita em você!

 

Aquecida e repetitiva

Por Vanessa Henriques

Manhã fria, vó doente, e lá vai a neta levá-la no hospital. Saí cedo, de café tomado e olho meio aberto, colocando o primeiro casaco que encontrei. Vento frio na rua, ‘precisava de um cachecol’ pensei, já dobrando a esquina e sem chance de voltar para casa.

Lógico que a minha vó percebeu logo de cara que eu estava desagasalhada. Aliás, sempre estamos desagasalhadas ao olhar das mães, avós, bisas, etc. Às vezes é exagero, às vezes é verdade — neste caso, era verdade.

Ela sacou um cachecol mostarda do armário e intimou: “coloca que tá frio”. A cor chamou logo a atenção, mas eu estava com muito sono e frio para negar. Mas ficou a dúvida: por que diabos ela tricotou um cachecol dessa cor?

Na volta para casa, ela insistiu que eu ficasse com ele. Levei sem relutar, ainda que fizesse mais de 25ºC e eu não estivesse com frio nenhum. No dia seguinte fez mais frio ainda, e a nova intimação veio por telefone: leva o meu cachecol. Sabe como é praga de vó, melhor não contrariar…

Eis que o cachecol caiu nas minhas graças. Ele combinava com todas as minhas roupas (estranhamente tenho muitas roupas azuis, e mostarda combina com isso), e era de fato muito quentinho. Usei ele algumas vezes até devolver à dona, que só aceitou porque a temperatura já superava os 30ºC.

Já tinha percebido há algum tempo que eu já tenho pares pré-combinados de roupa: esta camisa com aquela calça; este sapato com este vestido; e até mesmo este batom com esta blusa. Podem até ser boas combinações, mas jamais as únicas.

Por comodidade, preguiça e talvez até falta de criatividade, percebi que usava sempre as mesmas combinações — e sei que não estou sozinha nessa. Por que será que é tão difícil sair do piloto automático? Estão faltando mais cachecóis mostarda nessa vida besta.

Inspirada pelo episódio, comecei a tricotar um cachecol para mim. Talvez já seja verão quando ficar pronto — se depender da minha boa vontade e habilidade. E a cor não é tão moderna assim. Sabe como é, vó, nem todo mundo é tão pra frente quanto você.