Sem compromisso

Por Vanessa Henriques

Hoje é dia 11, e eu ainda não tenho uma agenda de 2019. Eu tentei, eu juro, mas está complicado. Eu tenho alguns requisitos, confesso, mas não acho que sejam inatingíveis. Eu exijo que ela seja pequena, leve, e que tenha um espacinho para cada dia. Fora, isso, tudo vale, nem preço baixo mais eu tô exigindo.  

Em um momento de desespero, pensei em adquirir uma agenda gigante do ursinho Pooh (ex-Puff), que pesaria uns 3kg a mais na minha bolsa, mas me controlei. Em um impulso contrário, quase comprei no camelô uma agenda universal com uma capa de couro vagabunda e um ‘Agenda’ em dourado berrante na capa. Consegui resistir.

Aí eu fui ser digital, moderna. Já ando com a porcaria do celular na mão o dia todo mesmo, que diferença faz? Já que o Google já sabe tudo da minha vida mesmo, o que custa dizer para ele qual o horário da minha depilação na virilha? O problema é que só tenho dois modos: ou eu esqueço de olhar a agenda eletrônica, ou eu me irrito com os horários aleatórios que ela resolve apitar para me avisar de algum compromisso.

Lembra das papelarias? Aqueles lugares organizados, coloridos, um sonho de infância, com cheiro de papel e de borrachas de plástico (aquelas japonesas, que não borram nada e dão uma dó danada de usar). Elas estão cada vez mais raras. Muitas faliram, outras diminuíram, e o fato é que de cada 5 visitas à papelaria, 4 são malsucedidas.

Vamos então aos lugares que faliram as papelarias: lojas enormes de departamento ou papelarias desproporcionais — na qual não há um balcão com um tiozinho simpático que vende lápis separadamente e ainda embrulha em papel rosado. Há todas as versões da agenda do ursinho Pooh (com glitter, com adesivos, com cheiro de mel), e nada mais simples que isso. Era só um caderninho, pessoal. Não era para ser tão difícil.

O algoritmo do Google, que já sacou que eu tô procurando uma agenda para comprar, me sugere o “método bullet journal”. Percebo que todos à minha volta faziam BuJo (pros íntimos), e só eu não sabia. O método seria usado para “acompanhar o passado, organizar o presente e planejar o futuro”, e só exigiria um caderno e uma caneta. Seria minha salvação?

Não exatamente. Descobri que o método é um pouco mais complicado que isso, e a coisa do papel e caneta não condiz com as imagens: cadernos afrescurados, com uma caligrafia saída de lousa de cafeteria hipster, cheio de listas de tarefas, metas a serem cumpridas no dia, mês, ano. Olha, a época de resoluções de Ano Novo já foi, e não tô atrás de mais assunto para a terapia não, obrigada. Era só um lugar para anotar o horário do pilates.

Por isso peço a todos encarecidamente que não me chamem para nenhum aniversário, almoço ou batizado, não me peçam para ajudar na mudança ou para ir conhecer a casa nova e, principalmente, não me recordem que eu preciso marcar dentista, ginecologista e pedicure. É provisório. Eu acho. Nos falamos em dezembro — se eu me lembrar.  

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Aqui tá quente, aqui tá frio

Por Vanessa Henriques

Sempre comento com meu marido que gostaria de viver num desses países gelados, com nevascas terríveis capazes de cancelar a ida ao trabalho e à escola. Como uma boa espectadora de filmes hollywoodianos água-com-açúcar, me imagino numa casa com calefação, comendo marshmallows e tomando chocolate quente enquanto vejo Vídeo Show.

Meu marido sempre rebate, com seu desespero tropical, minha visão idílica, lembrando que a neve traz sujeira, transtornos, correntes nos pneus dos carros e — o que para ele seria a visão do apocalipse — ela só cai em dias de muito frio. Ou seja, ele desliga sem dó minha calefação e muda a TV para a GloboNews.

Apesar do nosso Natal ser cheio de neve e patinação no gelo de regata, a realidade é comer peru no calor de 25ºC à meia-noite (para os sortudos) e já engatar um janeiro de manhãs ensolaradas e chuvas torrenciais no fim da tarde. Nada de errado quando se está na praia, na fazenda ou numa casinha de sapê.

Mas é claro que nós estamos no escritório, no metrô ou, no pior dos cenários, num ônibus sem ar-condicionado às 3 da tarde. Um céu azul despontou hoje logo cedo, depois de um fim de semana chuvoso, convidando para atividades aquático-sociais imperdíveis. Só que tivemos que dizer não ao sol, à piscina, à praia, para vir trabalhar (no ar-condicionado, se você for sortudo).

Ora, me parece óbvio que, assim como os dias de nevasca, deveríamos ter mais reverência com o solão de rachar o coco®. Não é direito trabalhar em dias assim. Botar uma calça (argh), uma brusinha de trabalho e uma bolsa a tiracolo (e não um cooler de cerveja) é realmente ir contra a nossa natureza.

Lógico que teríamos que fazer uma equação para isso funcionar, já que dias ensolarados abundam abaixo do Equador. Mas um diazinho só por mês, que tal? No Japão eles param para ver as cerejeiras, por que nós não podemos tirar uma folguinha para apreciar nossos rios, mares e piscinas infláveis?

Só não vamos demorar demais, afinal o verão logo logo acaba e teremos de enfrentar nevascas de 21ºC. Preparem as correntes.

 

Trabalho doido

Por Vanessa Henriques

Nos últimos 2 meses estive envolvida com o que minha avó cunhou graciosamente de trabalho doido. Foram semanas de angústias, promessas vazias, trocas de função e de escala (quem dá plantão entende o drama) e nenhuma previsibilidade. Isso explica (mas não justifica) minha ausência por aqui.

Mas o comentário de minha velha não foi por causa de nada disso. Ela estava inconformada com meu horário, das 18 às 2h da madrugada. Eu levantei os ombros, resignada, como quem diz: que escolha me resta?

Eis que meu cunhado desferiu o golpe de mestre. “No tempo da feira, a que horas a senhora começava a trabalhar?”

Pois é. Essa mesma vozinha trabalhou anos em feira livre. Meu avô tinha uma banca de verduras e eles acordavam, segundo ela, “umas 3 da manhã”.

Estava aberta a porteira. Meu pai, que trabalhou a vida toda com comércio, quer coisa mais doida que isso? Trabalhar 363 dias por ano, e acordar às 4h da madrugada não configura trabalho doido? Eu penso que sim.

E minha mãe, que é dona de casa? Acorda cedo, providencia no mínimo 4 refeições por dia, limpa a casa toda, passa roupa, lembra todo mundo de tudo. Sem folga nem férias. Me parece bem doido.

Meu marido e muitos amigos professores trabalham manhã, tarde e noite, às vezes em escolas diferentes. Fazem e corrigem provas de madrugada. E todo mundo só reclama, com inveja descarada, dos 2 meses de férias deles. Isso é coisa que se faça?

Não preciso me alongar aqui, acho que já deu para entender o meu ponto.

O horário é horrível, não nego, mas eu fico no ar condicionado, sentadinha, e ainda volto de uber. O maldito trabalho intelectual desgraça a cabeça e o corpo, mas se você trabalhar das 9 às 18 horas, ninguém desconfia.

Então vamos combinar uma coisa? Trabalho deixa todo mundo doido mesmo. Quem tiver uma solução para os boletos, estamos aceitando sugestões. Só não demorem muito, por favor.

 

 

Pinta com o meu paint

Por Vanessa Henriques

Pude ver o brilho nos olhos do estagiário esmorecer diante da constatação: ele teria que usar o Paint, esse programa tão útil quanto inofensivo, para fazer seu trabalho. Mas já existem programas mais modernos, ele clamava. Eu não pude compartilhar de seu desespero, afinal sou uma admiradora do Paint desde que ele atendia por Paintbrush.

Se você é mais ou menos da minha época (algo me diz que você é), deve ter alguma lembrança tenra de infância usando e abusando do seu Windows 95 para fazer desenhos descolados no Paint. Tal qual Bansky, você escolhia a hora certa de usar o spray. Como um Romero Britto em formação, você forçava a barra para usar o máximo de cores que o programa oferecia. Mais habilidoso que um Vik Muniz, você era capaz de decifrar os garranchos que seus amigos faziam. Bons tempos.

Mas o Paintbrush cresceu e eu também. Ficou minimalista, perdeu a cara de editor de imagens da vovó, mas continuou esbanjando simpatia e funcionalidade (talvez como eu também?). Ele tinha tudo para cair no ostracismo junto com o Bloco de Notas e o Campo Minado, mas não foi bem isso que aconteceu.

Devo dizer que eu estava errada quando vacilei em rechear meu LinkedIn com a seguinte habilidade: Paint avançado. Ele já garantiu o meu diferencial em mais de um emprego.

No estágio eu comecei a brilhar simulando como deveriam ficar as telas do sistema que eu dava suporte (pasme, o Paint já ajudou e impressionou a TI da maior universidade deste país). Depois, ele me ajudava em pedidos de arte para designers (era sempre mais fácil já mandar o mais mastigado possível). Hoje eu uso como suporte para alterar imagens no WordPress.

Imagem cortada no Paint #inception

É claro que o estagiário estava certo: já existem mil programas melhores e mais completos que desempenham as mesmas funções que o Paint. Mas não deixei de ficar desconfortável com a absoluta falta de intimidade que ele exibia com um programa que tem, sei lá, umas cinco funções no máximo.

Foi irresistível não fazer a comparação com a minha situação. Eu nunca fui brilhante, ligada em novidades, habilidosa na vida (e na computação). Eu sou como o Paint: vou levando, dou para o gasto, me viro com o que tenho, mas claramente não sou o melhor que o mercado oferece.

Isso pode ser uma coisa boa ou ruim, tudo depende do referencial — no caso, o grau de habilidade computacional do seu chefe. Pouco adianta jogar ouro aos porcos, como sinto que acontecerá com o meu colega. Mas não deixa de ser triste porque ninguém te exige muito mais do que aquilo que você já sabe (e que é extremamente simples).

Depois de 32 anos, a Microsoft acabou com o Paint. Esta semana eu fiz 30. Substituída pelo estagiário eu já fui. Talvez seja bom ir atrás de um cursinho de Photoshop. Ou melhorar minhas habilidades com o Campo Minado. Para garantir.

 

 

Bytes bandidos

Por Vanessa Henriques

Essa crônica demorou uma meia hora para começar a ser escrita. Não que seja um recorde, elas geralmente ficam passeando pela minha cabeça por bem mais tempo que isso. Mas a partir do momento que eu pensei “hum, vou sentar e escrever”, já se passaram 34 minutos.

Tudo isso aconteceu porque meu computador, esse ser eletrônico e inanimado, tem muitos sentimentos. Confesso que não ia sentar para escrever sobre isso, mas ele se impôs. E achei também que poderia ser uma homenagem justa a quem já me acompanha há mais de 4 declarações de imposto de renda, um casamento, anos de crônicas e uma monografia.

Meu computador, essa belezinha feita pela Hewlett-Packard, também tem sentimentos. Vivo uma vida poligâmica: passo mais de 8 horas na frente do computador do trabalho. Tenho um celular. Meu marido tem um tablet (e um celular com o jogo da cobrinha… vai entender) e outro notebook. Isso significa dizer que não nos encontramos muito – ele é o amante nº 4 da minha lista de romance eletrônico.

Mas como um bom e fiel companheiro, ele quer que eu o ligue, batuque nas suas teclas com delicadeza, talvez o conecte na fonte, para dar uma esquentada no nosso relacionamento. E eu, indiferente, passo dias, às vezes semanas, sem nem tirar o pó de suas entranhas. Ele vai se enterrando no fim de uma lista de papeis até que eu me lembre (leia-se precise) de sua existência.

E quando eu me lembro, bem, é preciso fazer um agrado ao amante ferido. Ele não liga – eu conecto o cabo da fonte. Ele demora, diz que tem configurações para atualizar – eu espero paciente. Ele congela na foto de um peixe estranho – e não naquela da montanha que eu gosto mais. Tudo bem. Não carrega os ícones dos programas que quero usar, mas eu relevo, afinal sei onde eles ficam normalmente.

E aí, passada meia hora de reconciliação, lá estamos nós aqui novamente. Olho para a área de trabalho, e vejo o acúmulo desordenado de pastas e arquivos (que podem bem ser uma metáfora de como anda a minha existência). Faz realmente muito tempo que não paro para organizar “a vida”: os comprovantes de aluguel perdidos em pastas sem sentido (foram enviados para a imobiliária?). As fotos que estão na máquina, no HD externo e aqui, por um desnecessário pavor de perdê-las – e sem nunca parar para revê-las. Um arquivo chamado “carinha Aziz.jpeg”, com um recorte da cara do Aziz Ab’Saber para usar em convites de festinhas (piada de geógrafos e de seus cônjuges, perdão).

Só de olhar para esta bagunça dá um pequeno desespero. Por isso que o celular, muito esperto, não permite salvar um arquivo na área de trabalho. Ou mandar WhatsApp para você mesmo. Ele sabe que se o seu celular ficar que nem o seu notebook, você também vai deixá-lo num canto da casa para acumular poeira.

carinha aziz.jpeg

Vamos combinar uma coisa, meu querido computador: assim como te dói a minha ausência, também me dói a sua presença caótica, me lembrando de todos os projetos começados e jamais terminados. Eu preciso desse tempo e dos meus outros parceiros tecnológicos para ir tocando a vida. Mas também preciso voltar para você, ainda que depois de um tempo longo, para lembrar do que ficou pela metade.

Tal qual amante arrependido, eu volto para ele implorando perdão, fazendo juras de fidelidade e promessas de “botar a vida nos eixos”. Ele acredita, me aquece o colinho, se deixa batucar suas teclinhas, posterga as atualizações. Um pouco depois que desligo seu botão, a coisa esfria.

 

S = S0 + vt

Por Vanessa Henriques

Tirei o fim de semana para estudar Física. Sim, aquela mesma, a matéria odiada por 9 em cada 10 alunos, cheia de corpos se movendo a velocidades constantes, com ou sem atrito, liberando uma energia calculada em Joules (ou qualquer dia no metrô da linha vermelha).

A última vez que encarei esse desafio foi em 2006, enquanto estudava para o vestibular. Lá se vão 12 anos sem me deparar com as leis de Newton. Minha vida mudou muito nesse período, mas eu ainda tenho dificuldade de entender o que puxa a maçã da macieira para o chão.

Eu não aprendi a gostar de Física, então ela se tornou uma barreira. Foi, de longe, a coisa que mais estudei no ensino médio, dada a minha óbvia dificuldade. Ela roubou meu tempo de estudo de História, Geografia e Português, matérias com as quais sempre tive mais afinidade. Ela me fez perder muitas tardes resolvendo exercícios quase impossíveis de vetores e polias.

Até que, a partir de 2007, a Física saiu da minha vida para nunca mais voltar. Tive que ocupar esse espaço desagradável com outros afazeres (trabalhar, passar roupa, ir para a academia, passar mais de 1 hora no metrô todo dia e… esta lista não tem fim). Olhando assim, não me parece que fosse tão ruim gastar um tempo calculando o calor específico da água.

A partir do momento que fiz uma escolha (olá, Humanas), boa parte deste conhecimento escolar ficou para trás. Ou, ao menos, adormecido, como um esporo (contei que também estudei Biologia?).

Você deve estar se perguntando o motivo de tudo isso. Bem, lá vamos nós em mais uma aventura em busca de realização profissional®, que exige voltar para trás para ir para frente. Mas eu sinto que estou indo mais é pela tangente mesmo, da qual eu não faço ideia como calcular o cosseno.

As portas que a escola parecia abrir foram se fechando ao longo dos anos, nenhuma novidade nisso. Virou mais é uma porta dos desesperados, com alguns monstros saindo detrás delas, outras com alguns prêmios bestas como recompensa (“Playstation! Playstation!”). Saudade desse tempo em que tudo parecia possível, as consequências não eram pesadas em balança de precisão milimétrica e o risco não era calculado em ábaco.

A equação desbalanceou, ainda que eu saiba que a mesma massa que entra é a que sai. Eu devo ser ainda a mesma, transfigurada após alguns reagentes que corroeram minhas expectativas mas com o bônus de ter ganhado experiência (com a liberação de água pelo canal lacrimal, mas isso é praxe).

De que adiantaria ser adolescente sabendo tudo que te espera pela frente? De que vale ser adulto sem criar as mesmas expectativas juvenis a cada novo ciclo? O distanciamento histórico não garante análise fria, nem nos livra de ser anacrônicos.

Ao menos uma constante permanece inalterada nas condições normais de temperatura e pressão: a redação ainda é a parte mais fácil de qualquer prova que venha pela frente.