Para aceitá-lo continue na linha após o sinal [croniquices, 7]

Que viva la telefonía
En todas sus variantes
(Jorge Drexler)

Por Vanessa Henriques

Meu marido tem um celular com jogo da cobrinha, que faz ligação e troca SMS, e olhe lá. Quando o conheci, ele não usava nem mesmo esse celular. No nosso primeiro encontro, o flagrei saindo de uma cabine de orelhão em frente ao shopping. Ou esse cara era muito especial ou ia dar trabalho. 

Em 2010, quando isso tudo começou, a vida era um tiquinho mais simples. Não tinha WhatsApp, smartphone em abundância ou Instagram. A gente se ligava, trocava uns SMS, tínhamos a sorte de trabalhar juntos, e tudo se acertou. 

Até hoje as pessoas me perguntam como é que nosso relacionamento funciona, como não trocamos mensagens a cada hora, como nós aguentamos guardar o que aconteceu no dia para contar mais tarde. E eu digo que sempre foi assim, e que tudo funciona bem — ainda que tenha me sentido idiota nas poucas vezes em que tirei uma foto, anexei e mandei por email e mandei um SMS dizendo “olhe seu email!”.

Na verdade o que eu deveria dizer é que essa é uma das melhores características do meu marido. Ele odeia celular na mesa enquanto comemos, e me faz lembrar o quanto estou sendo ridícula enquanto ando pela casa com o aparelho a tiracolo. Ele odeia o barulho de novas mensagens, ou aquela fatídica tremida do “silencioso”. Ele não recorre ao cacoete que todos nós desenvolvemos de ficar mexendo no celular quando se está no elevador, no metrô ou almoçando sozinho. 

Baseado em fatos reais (Foto: Vanessa Henriques)

E, o mais importante, ele parece muito mais livre do que eu e muitos à minha volta. Sem notificação de WhatsApp, sem push de notícia, sem curtida de rede social, sem essa tensão constante. 

Não é porque é meu marido não, mas é porque ele está certo. Você já reparou o quanto andamos meio ridículos? Essa cervical torta, os olhos esbugalhados, a constante falta de atenção aos que estão tentando conversar conosco e um estado de euforia e letargia que se alternam.

Minha irmã diz que ele é o verdadeiro hipster, já antecipando a moda do dumbphone (celular simples, oposto do smartphone) que tem tudo para voltar — tão hipster que nem se toca de sua vanguarda. Espero que ela tenha razão, e que possamos testemunhar uma era pós-smartphone.

Agora se essa era nova era significar que vamos usar mais relógios inteligentes, óculos com conexão à internet, geladeiras inteligentes ou qualquer outra parafernália que nos faça ficar mais vidrados, aí não vai ter jeito. Vamos andar tão abobalhados por aí que até os primatas vão tirar sarro de nós. 

E aos que me perguntam quando eu vou convencê-lo a usar um smartphone, só tenho uma resposta: prefiro um homem que anda com cartão telefônico na carteira.

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“Queria lembrar uma boa história, uma que combinasse com o enredo do livro e de nossas vidas. História que guardamos só para nós, em nossa caixinha de segredos, ou daquelas que contamos na mesa do jantar, entre risadas e goles de vinho.” A você, 2 de setembro de 2015

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[croniquices, 7] Este texto integra as comemorações dos 7 anos do blog

A vida é um moinho, dizem. Aperta e afrouxa, sossega e desinquieta.

Por isso selecionei alguns textos que me tocaram nessa volta ao passado e resolvi dar uma cara de futuro para eles. A inspiração vem em trechos, o presente vem completo. Espero que apreciem e se reencontrem também.

Virei tia(zona)

Por Vanessa Henriques

Há duas semanas minha irmã colocava no mundo um novo ser. Minha primeira sobrinha, Olívia, nasceu com mais de 3 quilos, um par de perninhas compridas e a carinha mais hipnotizante que eu já vi. Em plena sexta-feira santa, virei tia.

Graças a Deus!, eu exclamei, já me conformando com meu destino. Passei dos 30 anos e tenho uma sobrinha, logo posso ser a tia religiosa, que solta frases exultantes e acende velas pela casa. Já posso mandar benzer santinhos e trazer medalhinhas de toda igreja longínqua que visitar.

Neste mesmo mês, percebi que meu cacto estava produzindo uma nova haste (como se chama uma parte de cacto?). Acompanhei o crescimento, reguei mais do que deveria, mandei fotos para amigos e parentes e fiz questão de dizer que eu fui responsável pela recuperação daquele cactáceo, que estava abandonado no meu apartamento quando o aluguei.

Percebi que rapidamente já tinha virado também a tia da natureza, que sempre lembra como as coisas naturais são perfeitas, que visita jardim botânico e enche a timeline com 400 fotos de palmeiras, arbustos e vitórias-régias.

Mas também não descuidei dos meus exercícios, continuei firme nas aulas de pilates, o exercício nº 1 na preferência dos trintões. Saí, obviamente, recomendando a todos os amigos que adotem a prática, porque define o corpo, não lesa a coluna e não tem aquela agitação de um crossfit (quem tem idade?). Virei a tia do pilates, RPG e yoga, sempre preocupada com a postura e o tônus muscular alheio.

E entre uma gastrite e outra, aprimorei meu cardápio sem café, sem chocolate e com verduras cozidas. Descobri as maravilhas do chá e de uma vida sem tanto açúcar, sem bebidas com gás ou legumes fermentativos. Troquei receitas antirrefluxo e fiz ranking de antiácidos com colegas de trabalho. Virei a tia do problema de estômago, aquela sempre com um chá ou um conselho gástrico à mão.

E já que a saúde anda pedindo, passei a cozinhar meu almoço e janta todos os dias. Voltei a frequentar feiras, mercados e sacolões. Reclamei do preço do tomate e do feijão, e julguei os hábitos alimentares pouco saudáveis alheios, como uma boa tia Rita Lobo.

Eu poderia ser honesta, Olívia, e dizer que tudo isso foi resultado de um processo que já estava em curso, que a idade chega para todos e comigo não seria diferente. Mas prefiro dizer que fiz tudo isso porque, às 5 horas da manhã de uma sexta-feira, você nasceu.

Eu te perdoo por ter trazido toda essa mudança nos meus hábitos joviais de vida, com uma condição: que você nunca se canse dos meus conselhos sobre Deus, cactos, estômagos, tomates e tantas outras coisas que pretendo te mostrar sobre esse mundo. Combinado?

Bem casados

Por Vanessa Henriques

 

Tudo vazio e dois pequenos.

Paredes cinzas

quanto espaço

quanto espelho.

 

Livro pra todo canto.

Armário: pra você só um tanto…

Mesa: toda sua, eu me arranjo.

 

A cozinha não dava conta de tanto mimo

de vó, de mãe, de irmãos, de amigos

Pano de prato ainda tem estoque

e tigela não tem mais onde bote!

 

Veio mesa, sofá, estante

e até o velho rádio com vitrola

aquela pedra que você roubou do Varvito

E debaixo da cadeira um pó meio esquisito

 

Um vaso de planta

dois

três

contei hoje: são 17 vasos

desconta os dois que já estavam no apartamento

e soma aqueles que vão vingar

(tipo aquele coqueiro que você insiste em dizer que não é um coqueiro)

 

Pássaros na cortina

e na varanda.

Dois pratos de comida que voaram com o vento

uma samambaia que se jogou ao relento.

 

Muitos santos

nesse templo.

Quantas velas será que acendemos neste tempo (nos bons e maus momentos)?

De falta de luz foram poucas

De alegria foram muitas

 

“Codo a codo somos mucho más que dos”

diz o poema que a gente adora.

Criamos um mundo em 50m²

E eu o amo com todas as forças.

 

Isso foi casa.

Comigo.

Diz que sim?

A você

Por Vanessa Henriques

                Queria te escrever uma dedicatória. Dessas singelas e eternas, que combinam com o tom amarelados das folhas antigas, e que parecem saltar aos olhos de seu leitor. Dessas que parecem ter relevo, tatuagem negra na pele que perdeu seu viço.

                Queria lembrar uma boa história, uma que combinasse com o enredo do livro e de nossas vidas. História que guardamos só para nós, em nossa caixinha de segredos, ou daquelas que contamos na mesa do jantar, entre risadas e goles de vinho.

                Queria que fosse sóbria, mas sem deixar de mostrar meu carinho. Por isso escolhi minha melhor caneta, aquela que você cobiça em segredo (talvez não tão secreto assim). Caprichei na letra, treinei até, num pedacinho de papel que estava ali por perto.

                Imaginei o dia em que algum neto ou sobrinho abrisse essa página e se lembrasse de como nos amamos. A primeira vista não entenderiam nossos gracejos e piadas particulares. E demorarão muito para entender. Mas entenderão, se Deus permitir.

                Se você soubesse que tudo isso passou por minha cabeça antes de começar esta dedicatória, teria me olhado como só você sabe me olhar e dito que meu esforço já era suficiente. E me deixaria com os olhos marejados e satisfeitos por ter te encontrado.

Toda de branco

Por Vanessa Henriques

— Em pensar que nessa época eu era noiva. Noiva, acredita? É muito estranho dizer isso.

— Nossa, é péssimo.

Começou assim, a minha pontinha de dúvida. Ao ouvir esse diálogo, resolvi ficar quieta, afinal eu mesma, recém-noiva, ainda não me sentia confortável para usar esse termo. Aliás, na semana do pedido, zombava com uma amiga o fato de terem chamado meu namorado de “seu noivo”.

Qual é, afinal, o problema em dizer que está noiva? Tem o clássico medo de parecer pedante, o de parecer moça de família, o de parecer muito religiosa, o de parecer muito careta, o de parecer submissa, o de parecer aparecida, e por aí vai. Não sei se uma palavrinha só aguenta tanto peso — peso, aliás, que é nosso, só nosso, e que ela vai carregando pelas rodas de conversa por aí.

Para driblar o incômodo, eu e meu noivo decidimos adotar um novo vocábulo. Tinha o clássico ‘namorido’, mas que não tinha correspondente para o feminino. Acertamos em ficar com ‘namoiva/o’, mas o péssimo som da junção das palavras dificultou um pouco — sem contar que internalizei namovia e já não consigo saber se estou falando certo ou errado. Fomos alternando, sem perceber, entre namorada(o) e noiva(o), e já não estranhamos tanto quando nos tratam como se fossemos casados.

Mas voltando ao diálogo lá de cima, o que me incomodou é que o comentário foi feito por duas mulheres que se consideram progressistas, feministas, e quantos ‘istas’ você quiser acrescentar aqui. Aí é que a coisa ficou feia: será que é tão horrível dizer que você tem um compromisso com alguém que você ama, do lado de quem se imagina por muitos anos? Que tipo de conclusões se tira disso? (e, principalmente, eu ainda posso me considerar uma ‘ista’ também?)

Se ficou a dúvida, vamos lá então. Estar noiva de alguém não quer dizer manter uma relação submissa, querer casar virgem, assumir todas as tarefas de casa. Significa que estou noiva, e ando por aí com uma aliança na mão direita com muito orgulho. Penso em festas, penso em vestidos, mas penso principalmente na vida que vem por aí, com a calma de quem sabe o que está fazendo. Não há o que temer, é só uma palavra.

Escrevo esse texto como uma afirmação, para lavar a alma, pois eu já estive do lado delas. Mas agora estou do lado de quem acha um saco trocar o faça isso por faça aquilo. Faço se eu quiser, quando quiser, do jeito que quiser. Com quem, eu já sei.