Entre seda e cropped

Por Vanessa Henriques

Este ano faço 30 anos. Longe de começar aqui a desfiar o rosário esperado das balzaquianas, com direito a choros, frustrações e saídas hollywoodianas para beber até cair. Mas também não vou ser hipócrita e dizer que não há nenhuma reflexão na minha cabeça neste momento, que esta seria apenas uma primavera como todas as outras. Não cola.

Comecemos por um tópico mais leve. Atingir os 30 (e mesmo antes disso) implica em uma dificuldade prática de comprar roupas. Você se vê ali na loja de departamento espremida entre a parte de “jovens” — roupas coloridas, blusas cropped (que mostram a barriga), vestidos curtos — e a de “mães de escritório” —  camisas de seda, saias em ‘A’, casaquinhos de lã. Mas você não se identifica com nenhuma das duas coisas…

Aí começa a diversão. Para quem vê o copo meio cheio, você pode pular entre os dois galhos e escolher, antropofagicamente, aquilo que lhe agrada, descartando o que não dá mais (ou não dá ainda). Para os mais pessimistas, isso significa estar sempre fora do que é estabelecido e esperado para sua idade.

Agora embarcamos nas discussões mais profundas. Eu tenho uma mania, obsessão alguns diriam, de pensar sobre isso. Gasto mais tempo do que deveria fazendo conjecturas, projetando um futuro distante, sofrendo com o presente imediato, culpando o passado pelos sufocos. É um exercício que me acompanhou nestas quase três décadas e que não tem dado mostras de que vai sumir nos próximos anos.

Nesta toada, acabo levando amigos para as mesmas discussões, que geralmente levam a conclusões parecidas. “O trabalho está ruim, os chefes são limitados, o salário não é aquela coisa”. Eu sei. “Aquele projeto de mestrado tá na gaveta, pensei em virar youtuber, desisti, resolvi começar uma horta”. Eu também. “Quero ter filhos, mas não agora, mas também não muito depois, entende?” Entendo. “Não aguento mais a pressão para fazer algo incrível, extraordinário, quando na verdade eu não sou tudo isso que eu pensava.” Ô se sei.

Há muitas reflexões a se fazer e, sem cuidado, podemos ficar soterrados nelas sem conseguir partir para a ação. Aliás, precisa ter ação? Uma amiga comentou outro dia, em meio a uma série de emails desencontrados sobre projetos começados, largados e imaginados: “Será que a gente tem sempre que fazer coisas? Não se pode ter uma existência normal no mundo?”.

Lógico que ninguém precisa fazer nada. Mas também não sei mais dizer o que seria a existência “normal” dos balzaquianos. Estabilidade no emprego, bater ponto, viajar uma vez por ano, casa e consórcio de carro, tudo isso ficou para trás. Trabalhar com o que gosta, de casa, se render ao trabalho 24 horas e à instabilidade, sem convênio, sem SUS. Também não era para ser por aí.

Então vamos tentando o caminho do meio: checamos os emails do trabalho no celular, mas não sempre, ainda queremos carteira assinada, casa própria já desistimos, viagens são necessárias e devem ser publicizadas nas redes sociais, estamos cansados, não aprendemos a ser adultos, ninguém disse que seria tão difícil (mas será que era fácil antes?). Difícil conjugar a imagem dos nossos pais aos 30 anos com o que estamos vivendo na prática. As peças desse quebra-cabeça estão por todos os lados da sala, algumas embaixo do sofá e outras na barriga do cachorro. Não vai encaixar.

Por muito tempo achei que o que estamos vivendo é excepcional — e de alguma forma, é mesmo. Geração entre o analógico e o digital, já fomos promessa, hoje já somos uma pecinha incômoda no caminho dos verdadeiros precursores, que já vêm vindo, quebrando indústrias e criando novas necessidades.

Mas será que há algo de tão especial conosco? Ou isso também foi um grande mal entendido? Outras gerações já foram massacradas por nós antes. É só a nossa vez. Vida adulta é um saco, e a gente sabia, sim, só evitamos ao máximo pensar nela, até que não teve mais jeito. Não somos melhores que nossos pais, como quisemos (queremos?) acreditar. Só somos subsequentes.

Queremos demais? Mas deveríamos querer de menos? A resposta nunca será absoluta. Não dá mais para pensar de forma binária, mas sofremos para achar uma categoria que nos caiba em meio a tanta fragmentação.

O que espero para os trinta é que eu consiga andar pelos caminhos como quem anda por uma loja de roupas, à procura do que me agrada, independentemente da categoria que pertença. A maturidade, ainda bem, já está na sacola.

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Do que não falei, do que esqueci, do que perdi

Por Vanessa Henriques

Vocês devem ter percebido (digam que perceberam!!) que tenho tentado voltar ao ritmo de escrita desde que postei aquele vídeo do aniversário do blog. Este texto era para ter vindo logo na sequência, ou até antes, mas acabei me embolando sozinha com compromissos pré-férias e viagens. Eis que ele veio.

Todo mês de junho tem tom de dilema. Sempre lembro, lá pro meio do mês, que o blog completa X anos e meu deeeus eu preciso fazer algo sobre isso. Ou não preciso? – afinal, não posto faz meses. Ainda faz sentido manter o blog? Virou só obrigação (e, ainda por cima, obrigação não cumprida)?

Os anos passam e a dúvida continua. Embalada por algumas conversas da terapia, decidi dar mais uma chance para esse blog surrado. Entrei no painel do wordpress e comecei a reler comentários. Tinha bastante coisa boa ali: confissões profundas e engraçadas, pedidos por mais textos, ranking de identificação…

Tinham comentários emocionados sobre textos que eu nem lembrava de ter escrito. [Mari Kondo que me perdoe, mas avancei pro estágio proibido e comecei a ler os textos antigos no meio desse processo de quase-arrumação de casa.] Tinha coisa boa ali, agradável, que eu gostei de reler.

E quanto mais eu fuçava, menos motivos sobravam para deixar de postar aqui. Deu uma saudade de mim, de outros tempos de vida que eu já tinha me esquecido que existiram. Eu escrevia bonito. Eu escrevia poesia. Eu escrevia quase toda semana. Quanta coisa mudou.

Ninguém sabe apontar o momento certo que, opa, tudo mudou. É impossível. Mas sempre restam pistas. Durante esses seis anos de Croniquices, eu passei por quatro empregos, mudei de casa, viajei muito, fiz novos amigos, perdi alguns. Vivi também experiências que me fizeram questionar a minha escrita, algo que compartilhei com poucas pessoas.

No início de 2016 fui aceita no Clipe (curso de escrita de literária oferecido pela Casa das Rosas) e passei no trainee da Folha. Parecia que agora tudo ia deslanchar com relação à escrita, certo? Mas a verdade é que tudo isso me colocou numa baita insegurança.

No curso, eu não tinha uma escrita profunda, atropelada, cheia de metáforas, miniconto ou o quer que seja. Não tinha lido os clássicos e nem conhecia as promessas. Na Folha, eu não tinha o tino de repórter, o texto seco, desidratado de conjunções e de clichês. E eu não sabia o que eu tinha, pra melhorar a situação. Ao invés de aproveitar o que aprendi e me aprimorar, acabei ficando vazia depois dessas experiências. A canoa virou.

E escrever ficou cada vez mais difícil. Estava assombrada pela concorrência, desestimulada, perdida. Nem me dava mais ao trabalho de inserir um “escrever crônica” na minha lista semanal. Quando a inspiração vinha, eu batia um texto sem vontade e publicava, para cobrir os buracos de meses sem publicação.

Eis que depois de tudo isso, eu leio um texto lindo sobre a chuva:

[a chuva] só queria cair do céu, aliviada depois de um dia abafado, penetrar na terra, quem sabe ir parar num lençol. Nós atrapalhamos também o caminho dela, mas ela não se vinga de nós. Continua caindo, incólume, sob nossas cabeças.

As andorinhas, ao contrário, dançam e brincam, recepcionando a chuva que decidiu cair impiedosa. Molham as penas sem dó, sem pensar no estrago do dia seguinte. Enquanto há chuva, há motivos para furá-la com voos rasantes.

Gosto de pensar que a chuva, assim como nós, tem humor. (…) Somos impermeáveis à água, mas permeáveis às sensações. Qual o humor da chuva de hoje?

Fui eu que escrevi isso, lá nos idos de 2013. Nos últimos anos, não fui capaz de escrever nada nesta linha. Porque eu esqueci da chuva, perdi a habilidade de olhar para ela e acho tudo que foi escrito sobre a chuva é melhor do que eu possa fazer. Cronista impermeável não serve de nada.

E agora, o que resta? A lembrança de tempos melhores e um objetivo. Voltar para trás para ir em frente. Mais um ano para continuar tentando. Falemos em junho.

Enquanto há chuva, há motivos para furá-la com voos rasantes (Foto: Carlos Oliveira)

É HEXA!

Queridos leitores,

Junho é mês de comemoração neste blog! Na marca do pênalti e em clima de Copa vem a comemoração do hexa, digo, dos 6 anos do Croniquices!

Resolvi atacar de youtuber por uma boa causa. É que eu achei que tava passando vergonha demais sozinha aqui e queria companhia 🙂

Graças aos seus comentários tenho muita munição para colocá-los em maus lençóis… ou, ao menos, um material para dar algumas risadas!

Sem mais enrolação, vamos ao prato principal:

Deixem seus comentários, por favor, pois estou curiosa para lê-los!

Obrigada pela companhia de sempre.

Abraço,

Vanessa

Mais uma velinha

Mês de junho é sempre mês de festa (e não junina!) no croniquices. Este ano o blog completa 5 anos de existência. Ainda que não esteja na sua melhor fase, mantenho o croniquices como um norte e um compromisso, na esperança de dias mais leves e de boa escrita.

Pra não perder o costume, agradeço aos leitores cativos que se animam com novos textos, aos que entraram só pra dar uma olhadinha e pra quem nunca passou por aqui (bem-vindo!).

Como diz a sábia tatuagem de uma amiga, mar calmo nunca fez bom marinheiro. Por ora, comemoremos! 🙂

Grande abraço,

Vanessa

Tudo novo de novo

Queridos leitores,

É com muita alegria que anuncio duas grandes (e boas!) mudanças no croniquices.

A primeira delas é a nova logomarca, feita com muito carinho pelo @hey.francisco, que deu nova cara ao blog. E a segunda é que agora estamos hospedados no croniquices.com.br.

Essas ações eram pendências antigas minhas com esse projeto. No último mês de junho havia anunciado novidades em comemoração de aniversário, mas apenas em setembro foi possível colocá-las no ar. Ainda que com atraso, gostaria que marcassem a entrada no quinto ano de muitas histórias contadas por aqui, e que servissem de estímulo para novas crônicas.

Para não perder o costume, agradeço a leitura de quem passa sempre, de vez em quando ou só deu uma espiada no blog. Vocês são meu combustível.

Um grande abraço,

Vanessa

Inté!

oport

Como todo carnaval tem seu fim, queria agradecer a todos que prestigiaram essa semana de comemorações! Quem sugeriu temas, quem leu, quem comentou: são vocês que me impulsionam em direção ao quarto ano.

Espero que tenham gostado dos textos, e saibam que se tiverem alguma ideia de tema, vou adorar recebê-la!

Até a próxima!

Vanessa

Clichê

Por Vanessa Henriques

Ontem acordei

sete e cinco

Saí para trabalhar

oito e meia

Almocei

uma e dez

Cheguei em casa

sete e vinte.

 

Hoje resolvi fazer diferente

Acordei

sete e doze

Saí para trabalhar

oito e vinte sete

Almocei

uma e vinte dois

Cheguei

seis e cinquenta e nove.

 

Hoje resolvi

me livrar dos números redondos

e também dos múltiplos de cinco.

 

Hoje eu quis

os números quebrados

fracionados

pares

e ímpares também.

 

As contas mais difíceis

A riqueza dos minutos

A aflição dos segundos

Tudo coube em mim.

 

Hoje eu resolvi

que os clichês não eram para mim

e que agora

eu viveria sempre em horas quebradas.

Ou melhor:

sem relógio.