De cronista e louco, todo mundo tem um pouco

Por Vanessa Henriques

mafalda

Aniversários sempre nos fazem pensar. Mais um ano que passa, quantos vêm pela frente, o que se esperava ter feito até aqui e tantas outras questões passam pela nossa cabeça. Três anos e 136 postagens depois, cá estamos aqui, novamente refletindo sobre a nossa existência.

Escrever é muito menos glamouroso do que se pensa. Uma escrivaninha de canto, um computador e uma xícara de café são coisas que vêm à cabeça quando se diz “tenho um blog de crônicas”. Ter um blog de crônica significa muitas vezes sofrer por não ter assunto toda semana — apesar de não ter editor e nada nem ninguém que te obrigue a escrever —, escrever textos apressados no trabalho (intercalando planilhas de excel para não dar bandeira) e mesmo escrever à mão, no ônibus (tem lugar melhor pra se inspirar?), mensagens criptografadas que podem ou não ser entendidas mais tarde quando se estiver na frente do computador (sem café e sem escravinha charmosa).

Para além dos problemas, digamos, técnicos, como tempo e assunto, há uma outra gama de questões. Escrever sobre o cotidiano significa se expor imensamente: expor pensamentos, situações, expor até mesmo aqueles que convivem intensamente com você e se sujeitam a ser, vez ou outra, o assunto da vez. Todo cronista é exibido. Não porque queira, mas porque geralmente acaba buscando sua inspiração no que lhe acontece.

A crônica tem por pretensão ilustrar de forma bem-humorada o mundo caótico do cotidiano. Mas isso é feito sob a ótica de uma pessoa que tem suas visões de mundo e suas loucuras consolidadas — e a loucura à que me refiro aqui é aquela saudável, da que todo mundo tem um pouco junto com seus dons para medicina. E, por mais estranho que possa parecer (ou talvez nem tanto), os leitores se reconhecem nessas situações, nesses relatos. Ou reconhecem conhecidos. Ou talvez não se reconheçam, mas acham graça da forma como foi contado. Vai saber o que vocês leitores pensam e o que os fazem voltar aqui!

Mais do que a visão de escritor maduro, sensato, que se recolhe em seu canto com sua xícara de café, reconheço em mim o escritor caótico, que tem outro emprego para pagar as contas, que se inspira nas longas horas passadas no transporte público, e que vem à público compartilhar suas loucuras na busca de apoio.

Isso é privilégio do cronista? Nem pensar. Todos temos nossas doses de loucuras e vivemos em nosso manicômio particular. O que ele faz de diferente é colocar isso no papel (ou na tela), buscando trazer mais gente para sua loucura. É um louco manso, sociável, e que se entrega na primeira linha de conversa.

Não há receio em dizer que todos temos esquisitices, umas dignas de nota, outras nem tanto. E se todos vivemos em nossa loucura particular, é sempre bom visitar novos hospícios.

Anúncios

Tęsknię za Tobą

Por Vanessa Henriques

Engraçado essa coisa de aprender outro idioma. Muitos dizem que a gente tem que fazer isso, que ele abre portas no trabalho e nos estudos, ajuda a nos relacionar melhor, exercita nossa cabeça, ajuda em viagens. Não duvido de nada disso, e por experiência própria acho tudo isso verdade.

Há, no entanto, um bloqueio natural em se expressar em outra língua. Não importa o quanto você leu, o quanto estudou e até mesmo o quanto digam que você não está fazendo papel de bobo. Muda a entonação, a articulação e mesmo os gestos podem mudar — e por isso que é sempre uma surpresa ouvir seu professor de idioma falando outro idioma (que nem precisa ser o pátrio). Seria outra pessoa? Não exatamente. Arriscaria que é uma versão de si mesmo, tentando se fazer entender e entender outro mundo a sua volta.

E por falar em versões de si mesmo, há que se separar o joio do trigo. Depois de muitos anos estudando, adquirimos certa familiaridade com o idioma, passamos a ouvir melhor, compreender melhor e até mesmo pensar direto na língua, sem fazer aquela tradução simultânea mental. Nesse diálogo com si mesmo adquire-se uma fluência extraordinária, e até mesmo uma pequena arrogância. Pena que, na maior parte das vezes, ao abrir a boca o domínio da língua vai pro espaço — e o mundo jamais conhece nossa faceta poliglota.

Tenho a impressão de que sou extremamente bipolar em outros idiomas. Se em alguns dias consigo cravar uma pronúncia exemplar, com a leveza de um nativo, em outros retomo à turma do básico. É o famoso “esquecer em casa” — onde, aliás, eu falo sempre português, então nem sei se seria o caso — que, quando acomete o indivíduo, deixa um rastro de vergonha e insegurança.

Isso pode ser um problema considerando que ultimamente tenho usado muito outros idiomas no trabalho. Recebo e-mails que começam com “Hi, hola, olá”, nos quais latinos e anglo saxões em cópia se esforçam para entender a mensagem do interlocutor. Tenho reuniões frequentes em inglês e espanhol (e, mais vezes do que gostaria, em portunhol), nas quais geralmente consigo me virar, mas já passei pelo pânico de não entender nada do que a pessoa falava.

Tive também boas surpresas. Viajei a Moçambique no final do último ano onde se fala um lindo… português — um alívio depois de passar pelo inglês difícil de Johannesburgo. É engraçada a sensação de falar português em outro país. Parece que a sua cabeça já se prepara para pensar e falar de outro jeito, afinal você não está no Brasil. Arrisquei no começo um tímido português gringo, até me adaptar a continuar falando a minha própria língua (por mais estranho que isso possa parecer).

Não só as pessoas falavam português, como também carregavam uma certa empatia natural por você ao descobrir esse laço em comum. A língua tem esse poder, de unir mundos desconhecidos. E também o de manter-nos em contato com o que conhecemos, com o que nos identificamos.

Muitos quilômetros de distância me separam da amiga que inspirou esse texto. Tudo bem, o coração é infinito, ele chega até lá. Pela nossa língua nos comunicamos, trocamos mensagens no português que para ela soa como casa. E a saudade é o idioma nativo.

Tudo o que eu queria era uma estante

Por Carlos Augusto de Oliveira

Há muito tempo eu queria uma estante. Uma não. Na verdade eu queria várias estantes. Prateleiras e mais prateleiras que dessem conta dos livros que acumulei ao longo dos anos, os quais se encontravam empilhados ou acondicionados em caixas em um canto do meu quarto, além de diversos exemplares espalhados pelos mais diversos cômodos da casa.

Durante anos tive que conviver com a pressão familiar para eu me desfazer de meus livros, quando tudo que eu queria, na verdade, era um lugar para guardá-los com o devido carinho e respeito.

Acusavam-me de juntar muito papel, de que eu não lia aquilo tudo e de que o que eu já li não me seria mais útil. Muitos dizem que a maior parte dos livros que colecionamos com o passar dos anos vão passar incólumes por nossas vidas sem se quer terem sido folheados. É verdade que tenho bons candidatos a participarem desse processo, mas com certeza são uns poucos. A maior parte dos livros que tenho já li ou pretendo ler em breve, sendo difícil que eu não faça isso devido a uma necessidade dessas leituras para o exercício profissional, acadêmico ou mesmo a um grande interesse por seu teor.

Alguns desses livros já li mais de uma vez, e não foram poucos, embora poucos sejam os que reli mais de uma vez – ainda que os haja.

Assim sendo, não justifica que eu os atire no lixo ou numa pilha de fogo como se juntos não levassem uma parte de mim. Não, o que eu precisava não era me desfazer deles, mas ter um lugar para eles, inclusive para que ficassem à disposição e com fácil acesso para quem mais precisasse deles além de mim!

Diziam que ao me casar eu seria obrigado a me desfazer deles, mas não foi o que aconteceu. Minha noiva também tinha uma paixão pelas páginas e páginas encadernadas. Outros títulos, outros gêneros, mas a mesma necessidade que eu: estantes!

Foi assim que ao nos mudarmos para nossa nova casa elencamos as prioridades de nossos investimentos. Não somos pessoas com gostos muito complicados ou exigentes, de forma que poucas foram as coisas que fizemos questão na hora da compra. Na cama gastamos um pouco mais, pois uma coisa é dormirmos sozinhos, nos adaptando em cada vão do colchão por onde o estrado escapa, ou nos buracos que já tem o formato de nosso corpo; outra bem diferente é fazer o mesmo com alguém ao lado – melhor garantir o conforto e bem estar de todos!

Outro item a que demos vazão a nossos desejos foi ter uma mesa de jantar rústica com madeira de demolição. Não precisava ser grande, não precisava ser da melhor loja, não precisava ser cara. Nossa única exigência era que estivesse livre de pragas como brocas e cupins. Tudo devido ao fato de que ela partilharia o mesmo teto com os livros que já se proliferavam por conta própria e que não queríamos ver virando banquete para o paladar desses monstrinhos.

O último item de nossa lista eram as estantes. Queríamos uma (ou várias!) que fosse robusta, espaçosa, que tivesse uma presença legal. A primeira dificuldade, e que permaneceu em toda nossa busca, foi de encontrar estantes! Em um mundo pautado cada vez mais por uma virtualização ou digitalização, o material impresso parece vir perdendo espaço de fato que não há mais um móvel que lhe dê destaque. Antes as estantes ainda eram mais fáceis de serem encontradas porque serviam também para apoiar a televisão, mas com as novas TVs sendo afixadas diretamente na parede ou em móveis mais estreitos, a estante parece ter perdido sua utilidade…

As poucas estantes que encontramos tinham um ou os dois problemas dentre os seguintes: eram frágeis demais, de forma que dificilmente conseguiriam aguentar estar repletas de livro, e eram caras.

A busca foi ficando muito difícil de forma que resolvemos comprar pela internet um par de estantes de metal de fácil montagem. A ideia original, por terem sido bem baratas, era organizar os livros enquanto encontrávamos um “lar” apropriado para eles. O fato foi que após montadas e os livros dispostos em suas prateleiras, simpatizamos com as estantes.

Pela primeira vez em muitos anos os livros estavam um ao lado do outro, não em cima uns dos outros; estavam abertos, disponíveis, não fechados, confinados. As estantes, mais do que servir para guardá-los, serviu para dar acesso a eles. Suas prateleiras tornaram-se como que degraus que permitiam subir e descer entre um universo e outro, ou em sua horizontalidade, atravessar todo um mundo repleto de histórias.

Os livros nas estantes. Os sonhos nos livros.

Alexandria

Por Vanessa Henriques

 Quando decidimos nos mudar, fomos categóricos. Já que geralmente somos meio, digamos, apegados ao dinheiro, iríamos esbanjar nos itens que julgávamos mais importantes: uma cama confortável, um bom chuveiro e uma boa estante. Os dois primeiros se resolveram fácil, mas o último deu trabalho.

Imaginávamos uma estante bonita, espaçosa e resistente. Grande o suficiente para guardar livros, viagens, sonhos. Na casa em que me criei tinha uma dessas, na do meu avô também, seria natural ter uma dessas. Não só natural, mas necessário: ainda que não sejamos do tempo da Barsa, nossa coleção de livros não é exatamente pequena. E pesa, como pesa.

Andamos por lojas e lojas namorando modelos, anotando preços e analisando a resistência. Quando estávamos perto de nos decidir, vieram os sucessivos banhos de água fria. “Moça, você acha que aguenta muitos livros?” “Ih, moça, livro não tenho como garantir”. Mas gente, o que eu faria com uma estante tão grande se não fosse para colocar livros? Não há bibelôs no mundo suficientes para preencher tanta prateleira.

Veio a desconfiança: será que as pessoas ainda têm tantos livros impressos assim em casa? Temos computadores, e-readers, tablets, celulares e tantas parafernálias capazes de armazenar coleções inteiras ocupando pouquíssimo espaço. Por certo não tem a mesma graça do que folhear uma página bonita, sentir o cheiro das folhas ou ver, pela lateral, o quanto ainda resta por ler, mas com certeza ajuda na hora de tirar o pó!

Enquanto não encontrávamos a estante ideal, partimos pro improviso. Compramos duas estantes de metal, meio vagabundas, na promoção. Montamos uma: ficou bamba, só podia puxar o livro se empurrasse a estante para trás. Montamos a outra: estranhamente ficou mais firme que a primeira, e o peso dos livros e das duas estantes juntas ajudou a formar um poderoso megazord que por ora está funcionando bem. Um móvel doado (que aguenta livros, veja só) ajudou bastante na tarefa, e ficamos assim.

Fizemos uma promessa de dar um tempo nos livros mas, depois de uma última volta pelo shopping voltamos com dois novos. Um é de bolso, mas se os bolsos não são mais feitos para guardar livros, voltamos ao problema das estantes. O jeito é dar uma chance para a leitura virtual — que, por sinal, é o que sustenta este blog. Imagina se esses três anos de crônicas estivessem em papel?

A arte aromática da guerra

Por Alexandre Ortolani de Aquino*

Quem seriam meus exigentes leitores que sequer existem? Frente às excitantes possibilidades, destaca-se uma base amostral que, mais do que eventualmente ler o que escrevo, faz parte da minha rotina. Não se trata apenas de interferir no sinal da televisão. Um sentimento pouco nobre entre meus vizinhos despertou entre eles uma distinta e saborosa habilidade, que extrapola os limites da boa convivência.

Arrisco-me a afirmar que estou – literalmente – cercado de grands chefs de cuisine, para usar uma expressão do pequeno príncipe Ronnie Von. E como todo grand chef, meus leitores em potencial não abandonam suas extravagâncias. Dentre elas, uma que se destaca no ar: a inveja. Não me olhe assim, grand chef lecteur, a culpa de sua inveja é do laissez-faire imobiliário.

Meus afrancesados leitores ainda não sabem, mas o diretor Rob Minkoff, de Stuart Little, se inspirou na minha casa para adaptar a casa dos Little às telonas. Estou cercado por centenas de janelas, e mais algumas centenas vem aí, frutos de um vale-tudo especulativo para Anderson Silva nenhum botar defeito. Se no entanto esteticamente a adaptação de Minkoff ficou boa, a complexidade humana de um tal apinhamento urbano apenas é bem alcançada pela Janela Indiscreta de Hitchcock. São olhares curiosos todos os dias vigiando e contando meus atos e as acerolas que caem do pé. Indignados com tamanho privilégio em um mundo onde espaço útil é medido em centímetros – sim, eu tenho um quintal –, por décadas tive de conviver com o arremesso de objetos constrangedores sobre minha casa. Hoje em dia os tempos são outros. A revolta condominial conscientizou-se e os ataques, sofisticaram-se. Antes a motivação era a grosseria, hoje é a inveja.

As bitucas do cigarro libertário já não me estressam mais. Este, acreditem, é o menor dos problemas da sociedade pós-comerciais-de-cigarro-na-tevê. Difícil mesmo é conviver com centenas de rotinas diferentes: as pessoas cozinham 24h por dia. Um escândalo, diria minha tia do interior que às17h30 já lavou as panelas que preparou o jantar. Até de madrugada? Sim, bife acebolado.

Se as almas enjaneladas com as quais convivo já não se apegam mais à lida doméstica, estou certo, nunca cozinharam tanto. A culpa é do Clinton, sagaz lembrança, que proibiu a propaganda de cigarros na tevê. O jeito é anunciar utensílios de cozinha. Se as pessoas estão obesas, a culpa é do Clinton.

Mas como podem estas almas trabalhar tanto, fumar tanto e ainda assim cozinhar tanto? Eu também não sei, segredos da engenharia de alimentos que a Polishop guarda a sete chaves. O fato é que o fazem e com requintes aromáticos de crueldade.

Aromatormento para qualquer um, ainda bem que o brasileiro come menos peixe do que deveria. Basta o primeiro contato da sardinha com a frigideira para que todo um bairro – uma nação quiçá – sinta o mesmo gosto que você. Sardinha é arma de destruição em massa. Já o comuna feijão invade lares também com o popularesco hit “Tchá Tchá Tchá”, imortalizado nas vozes de Thaeme e Thiago. Procure no Youtube! Uma emocionante ode à panela de pressão.

Muito presente nas mesas de meus vizinhos também o bife acebolado desperta água na boca. Frigir da cebola aliado ao imaginário filet mal passado cujo aroma, esse sim muito real, é pura agressão àquele que precisa de concentração para trabalhar.

Especialidade da vizinha do 33 lado noroeste, a feijoada desperta atenção generalizada. Atenção essa comparável ao escondidinho de carne seca com o qual volta-e-meia a vil cidadã do 21 leste agrada seus rechonchudos netos.

Amarga – para não dizer irresistível – lembrança é o Fettuccine al Pesto di Rucola daquele cuja janela eu prefiro esquecer.

O inseguro Sr. de meia idade cuja identidade será preservada especializou-se na arte gastronômica para despertar a paixão de sua jovem esposa. Uma complexa trama aromática de temperos bem selecionados emana daquela janela que com eloquência nos lembra: aqui os congelados não tem vez. Jogo sujo.

Cheios de rancor, ataques generalizados em dias de jogo: é dia de pipoca. A invasão de cheiro ocorre por todos os flancos. Alguns espíritos pequenos chegam ao ponto de se debruçar na sacada, a latinha de Guaraná ao lado, para que aquela imagem cumpra o que o popular aroma talvez deixe a desejar.

Envoltos em alho e manjericão, os congelados aparentemente padecem entre meus pecadores vizinhos. Trata-se, sem dúvida, da arte gastronômica destinada a fins malignos. Afinal de contas – e os vizinhos do flanco norte sabem muito bem – eu também tenho minha janela e passo grande parte de meus dias em frente a ela, trabalhando. Neste momento cinquenta janelas vigilantes observam este que pode ser meu primeiro contra-ataque.

Tenho resistido com água na boca às deliciosamente cheirosas agressões perpetradas por uma clara política aromática que exala afrontas degustativas a um sem número de pactos gastronômicos internacionais. Em outras palavras, isso não se faz! Com mais algumas centenas de janelas conquistando o horizonte excessivamente próximo do meu lar, o flanco sul será em breve mais uma frente de ataque. Não me resta, frente às perspectivas, outra alternativa que não o contra-ataque: a churrasqueira. Por décadas abandonada nos escombros da falta de privacidade, vejo-me obrigado aplicar, com ela, a milenar técnica da nuvem de irresistível sabor que é, até hoje, a arma mais temida por todas as famintas cortes internacionais de direitos humanos. Arma de destruição em massa temida até por iraquianos, as janelas invejosas que me cercam conhecerão o poder dela, a nuvem de sabor do esfumaçante churrasquinho na laje.

Nesta busca por culpados e vingança, a laje, propriamente, será poupada. Penso que pagode e mulatas também são dispensáveis. Um ataque de tal monta costuma deixar sequelas a quem o faz. Quem sabe até a alegria dos amigos, a gozar 100m² de liberdade, seja poupada. Já a nuvem enchurrascada de sabor, meus vizinhos leitores terão de lidar com este terrível ataque com água na boca.

30 de junho de 2013

Nota

Este texto foi feito sob encomenda. Como poucos sabem, escrevo para ninguém. Melindrada, minha inspiração possui um único amigo: ninguém. No mais, é absolutamente avessa a cobranças. Mas o convite estimulou minha inspiração a dar o ar da graça para me ajudar a responder: não sendo mais ninguém, quem seria esse alguém?

* Alexandre é geógrafo, erudito e um ótimo escritor, ainda que refém de uma inspiração teimosa.

Nessa data querida

Por Andréia Henriques*

Nunca fui muito fã de aniversários e não sei bem o por quê. Procuro na infância para checar algum trauma e nada. Vejo fotos de comemorações compartilhadas com minha irmã mais velha, velas da Turma da Mônica, bexigas, fotos, festas na garagem de casa com pessoas da família que não sei nem o nome. Tudo dentro da normalidade, ou aquilo que se espera desses dias.

Fato é que meus aniversários sempre têm alguma coisinha para contar. Teve um, ainda no cursinho preparatório para o vestibular, em que uma amiga ficou com um menino que era o amor da vida de várias outras. Brigas, escândalos e babados na certa. Tudo no dia 22 de julho.

Em outro ano, mais recente, o namorado preparou uma festa surpresa, da qual fui avisada por e-mail por uma das ajudantes da organização, uma amiga estabanada, uma semana antes.

Não sei se porque a minha data cai no meio das férias escolares, minhas festas nunca foram lá muito populares ou lembradas, coisa que acontece até hoje, reflexo da falta de popularidade da aniversariante. Daí depois disso é tudo ladeira abaixo. Aquele constrangimento na hora do parabéns, não se sabe se batemos palma ou se olhamos pras fotos horrendas que ficarão para a posteridade.

O pior vem depois: se ninguém der uma de engraçadinho com o “com quem será”, certamente um familiar vai vir com aquela coisa mais que embaraçosa de dar o primeiro pedaço de bolo para quem, supostamente, você mais gosta. E aí? Dar para a sua avó? Madrinha? Mãe e pai? Ou a irmã com a qual você divide o quarto e a vida? Atualmente me faço de besta: corto o bolo e deixo o privilegiado primeiro pedaço ali do lado, na pequena área. Quem pegar, pegou e é gol. Pode se sentir o mais amado pela aniversariante.

Minha irmã conseguiu uma façanha do constrangimento das festinhas: ao receber um efusivo “parabéns” de um familiar, decerto achou que era Natal e mandou um “pra você também!”.

Comprar presente é o maior dos suplícios. Aquelas pessoas para quem eu nem ligo, encontro presentes sensacionais, perfeitos. Mas quanto mais eu gosto de alguém, mais difícil a coisa fica. Quero dar a coisa mais incrível, a nunca pensada antes, a pioneira, inovadora. A que vai fazer a pessoa se desmanchar em lágrimas. Mas isso é impossível, claro. E no fim só dou presentes inúteis, repetitivos e bobos. Alguns são clássicos.

O melhor é que tem pessoas iguais: minha irmã uma vez me deu uma blusa azul que, um dia antes, vi a dita cuja em uma vitrine e fiquei por horas falando como ela era horrível. O caso da blusinha azul serve até hoje como uma metáfora de presentes ruins.

A consequência disso tudo é que emprego a mesma displicência e negligência que tenho com meu aniversário nos dos outros. No mais recente, comprei o presente do meu namorado no mesmo dia do aniversário dele. Nada fora do comum: na época do cursinho, veja só, o aniversário da minha irmã caía no dia ou muito próximo à data da principal prova de São Paulo, a Fuvest. Solução: emendei dois presentes e entreguei no Natal. São tantas mancadas que nem lembro (e é melhor mesmo, para não despertar mágoas adormecidas).

Mas tenho um orgulho: a mais peculiar história de aniversários, ao menos na família, não é minha. A dona desse blog, também não a maior admiradora de festinhas, resolveu um belo ano fazer uma festa na nossa casa, coisa inédita. Chamou todo mundo da escola, coxinhas na mesa, sanduíches, videokê garantindo a cantoria. Comparecimento de algumas pessoas, não muitas, mas já um recorde que parecia mostrar que tudo ia correr bem. Só faltou lembrar que era na nossa família.

Nossa casa, bem antiga, havia sido faz tempo infestada por ratos. Isso mesmo, e eles resolveram aparecer para comemorar naquele dia, a noite, entre um “fio de cabelo” e “meu erro” no videokê. As meninas gritavam de medo, os meninos acharam o lugar onde ficavam as vassouras e os rodos e saíram à caça dos roedores. Os cachorros, presos, iam à loucura. Os meninos correndo de um lado pro outro (pensando bem, eles devem tem achado a festa o máximo… diferente, inusitada, selvagem! Eu acharia!), as meninas reféns dentro de casa e certamente responsáveis por depois espalhar o vexame por toda a escola. Bizarro no dia, engraçado hoje. Coisas de aniversários…

PS: Esse texto foi escrito muitos dias depois do requisitado, começado depois da meia noite, finalizado no saguão de um aeroporto e entregue com vários pedidos de desculpas. Porque assim como a compra dos presentes, tudo o mais na vida também deixo para a última hora. Mas a crônica, ou seja lá o que saiu isso, foi feita para comemorar um ano de um projeto da pessoa que, antes mesmo de nascer, já tinha um de seus presentes mais legais, uma casa do Meu Querido Pônei, afanada por mim.

 

* Andréia Henriques é jornalista, assessora e com quem divido meu quarto e minha vida.

Primeira

Por Vanessa Henriques

Às vezes me pego pensando na primeira vez que fiz alguma coisa, ou a primeira vez que entrei em algum lugar. Costumo me lembrar do trote na faculdade, do primeiro dia no meu emprego atual, e talvez em um anterior, e até mesmo o dia que saí pela primeira vez com o namorado — que, obviamente, não era namorado naquele momento.

Hoje quis lembrar a primeira vez que me dispus a escrever uma crônica. Adianto que não foi de caso pensado, apesar de ter alguma afinidade com as palavras. No dia anterior havia ocorrido uma situação engraçada, e eu decidi contá-la direto para o papel. Foi assim que saiu a primeira, ‘Caiu na rede’.

Essa foi a crônica mais fácil que eu escrevi, ou ao menos que eu me lembro de ter escrito. As palavras correram fácil, e em alguns minutos escrevi o texto. Gostei. Mostrei para o agora namorado e para minha irmã, e recebi um reconfortante apoio.

A partir daí, tudo ficou mais fácil. Assim como depois do primeiro telefonema atendido no trabalho, ou do primeiro beijo trocado. Não que tudo que eu escrevi depois tenha sido rápido, fluido, e me deixado completamente satisfeita. Muito pelo contrário!

Mas esse pontapé foi dado, e fiquei mais à vontade para continuar. Quando virou rotina, decidi que deveria publicar esses textos, afinal do que adianta guardá-los em uma gaveta? Seria muito mais fácil, me deixaria muito mais tranquila, mas também restaria aquela dúvida… E se eu tivesse tido coragem de levar essa ideia adiante?

Depois de muita insistência, resolvi levar essa história adiante, e assim nasceu o croniquices. Por algum tempo o blog vagou no vazio cibernético, pois não tinha coragem de divulgar o endereço. Finalmente venci esse bloqueio, e cá estamos.

Assim como as primeiras vezes de tantas coisas, esta é uma delas que eu recordo com carinho. E confesso que mantenho o frio na barriga dos primeiros dias toda vez que posto um novo texto. Será que eles vão gostar? Será que alguém vai ler? Comentar?

Proponho, portanto, um brinde às primeiras vezes e todas as suas faces atormentantes: o frio na barriga, o suor na palma das mãos, o rosado nas bochechas e o coração acelerado. Elas fazem nossa vida mais interessante e emocionante, mesmo que só nos demos conta disso depois que elas se foram.