Vendeu-se

Por Vanessa Henriques

Alguém insiste: vamos lá na nossa rua

Eu vou

Mas na rua já não há mais nada de mim.

 

A rua da minha lembrança era ampla, com árvores, pouca gente

Era sem pressa, sem tempo, brincar de ver nuvens

Era um portão barulhento, uma porta pesada, e o alívio de estar protegida da chuva ou do perigo.

 

Agora vejo prédios altos, desajeitados na minha rua

Carros por todos os lados, subindo pelas paredes

Ela não foi feita para comportá-los.

 

E da casa, só sobrou uma fresta, um muro alto, nada mais se vê.

E de mim só sobrou essa, lembrança do que não se pode mais ser.

Para aceitá-lo continue na linha após o sinal [croniquices, 7]

Que viva la telefonía
En todas sus variantes
(Jorge Drexler)

Por Vanessa Henriques

Meu marido tem um celular com jogo da cobrinha, que faz ligação e troca SMS, e olhe lá. Quando o conheci, ele não usava nem mesmo esse celular. No nosso primeiro encontro, o flagrei saindo de uma cabine de orelhão em frente ao shopping. Ou esse cara era muito especial ou ia dar trabalho. 

Em 2010, quando isso tudo começou, a vida era um tiquinho mais simples. Não tinha WhatsApp, smartphone em abundância ou Instagram. A gente se ligava, trocava uns SMS, tínhamos a sorte de trabalhar juntos, e tudo se acertou. 

Até hoje as pessoas me perguntam como é que nosso relacionamento funciona, como não trocamos mensagens a cada hora, como nós aguentamos guardar o que aconteceu no dia para contar mais tarde. E eu digo que sempre foi assim, e que tudo funciona bem — ainda que tenha me sentido idiota nas poucas vezes em que tirei uma foto, anexei e mandei por email e mandei um SMS dizendo “olhe seu email!”.

Na verdade o que eu deveria dizer é que essa é uma das melhores características do meu marido. Ele odeia celular na mesa enquanto comemos, e me faz lembrar o quanto estou sendo ridícula enquanto ando pela casa com o aparelho a tiracolo. Ele odeia o barulho de novas mensagens, ou aquela fatídica tremida do “silencioso”. Ele não recorre ao cacoete que todos nós desenvolvemos de ficar mexendo no celular quando se está no elevador, no metrô ou almoçando sozinho. 

Baseado em fatos reais (Foto: Vanessa Henriques)

E, o mais importante, ele parece muito mais livre do que eu e muitos à minha volta. Sem notificação de WhatsApp, sem push de notícia, sem curtida de rede social, sem essa tensão constante. 

Não é porque é meu marido não, mas é porque ele está certo. Você já reparou o quanto andamos meio ridículos? Essa cervical torta, os olhos esbugalhados, a constante falta de atenção aos que estão tentando conversar conosco e um estado de euforia e letargia que se alternam.

Minha irmã diz que ele é o verdadeiro hipster, já antecipando a moda do dumbphone (celular simples, oposto do smartphone) que tem tudo para voltar — tão hipster que nem se toca de sua vanguarda. Espero que ela tenha razão, e que possamos testemunhar uma era pós-smartphone.

Agora se essa era nova era significar que vamos usar mais relógios inteligentes, óculos com conexão à internet, geladeiras inteligentes ou qualquer outra parafernália que nos faça ficar mais vidrados, aí não vai ter jeito. Vamos andar tão abobalhados por aí que até os primatas vão tirar sarro de nós. 

E aos que me perguntam quando eu vou convencê-lo a usar um smartphone, só tenho uma resposta: prefiro um homem que anda com cartão telefônico na carteira.

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“Queria lembrar uma boa história, uma que combinasse com o enredo do livro e de nossas vidas. História que guardamos só para nós, em nossa caixinha de segredos, ou daquelas que contamos na mesa do jantar, entre risadas e goles de vinho.” A você, 2 de setembro de 2015

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[croniquices, 7] Este texto integra as comemorações dos 7 anos do blog

A vida é um moinho, dizem. Aperta e afrouxa, sossega e desinquieta.

Por isso selecionei alguns textos que me tocaram nessa volta ao passado e resolvi dar uma cara de futuro para eles. A inspiração vem em trechos, o presente vem completo. Espero que apreciem e se reencontrem também.

Há tantas casas [croniquices, 7]

Quem disse que eu me mudei?
Não importa que a tenham demolido:
A gente continua morando na velha casa em que nasceu.
(Mario Quintana)

Por Vanessa Henriques

Na minha cabeça, nossa casa já existe. Ela tem o charme de um projeto assinado de arquiteto, a despretensão de perfis hipsters de decoração no Instagram e o acolhimento que a memória afetiva da infância almeja.

A estrutura é simples, o terreno é largo. Um janelão na frente, um belo jardim, uma porta veneziana, trepadeiras que já dominaram a cobertura da garagem. A sala é espaçosa, sem luxo. A cozinha é grande, e tem panelas até pela barra do teto. A mesa de jantar cabe bastante gente, e cabe só nós, se a ocasião pedir. 

O quintal é a melhor parte da casa, com a horta ladeando o terreno, um pomar modesto, uns bancos e redes para descansar. Um balanço para os pequenos, um comedouro para os penosos. Uma mesa de madeira para almoçar ou para algum jogo de tabuleiro.

Nela cabem todos os nossos sonhos, os nossos desejos e projeções. Mas ela não cabe no nosso bolso, na nossa cidade, na nossa vida. E todo dia ela fica ali no cantinho da mente, pedindo atenção. 

Às vezes eu acho que deveria desistir, botar logo o pé no chão, encarar que o que tenho pela frente, ao menos no futuro próximo, é um apartamento (que eu amo) alugado, uma poupança para vinhos e viagens, e está tudo bem. Não há nada de errado nisso, e eu consigo me sentir muito bem na nossa casa atual. 

Uma casa (Foto: Carlos Oliveira)

Só que a gente coloca o tênis, e começa a fazer uma caminhada longa pelo bairro, e a cabeça vai voando longe. Varanda! Cobogós! Um salgueiro na calçada! Um redário móvel! Um canteiro de temperos! Uma lareira! Um piso aquecido! (esse dia fez frio)

Eu não sei se um dia a casa sai da nossa cabeça e vem pro mundo real — e, se isso acontecer, o que vamos colocar no lugar dela. Eu sei que nós sonhamos bem, sonhamos bonito. Só que temos uma baita dificuldade de tirar as coisas do papel.

Talvez a casa continue sendo a fantasia última de felicidade, a panaceia perfeita para uma vida em comunidade que não desfrutamos, um lugar para depositar nossa esperança de trabalhar menos (ou de um escritório confortável feito por nós), de plantar mais, de desfrutar da nossa completa companhia, sem intermediários ou preocupações. 

E isso significa que a casa pode começar hoje, agora, se nós quisermos. Podemos balançar em redes imaginárias, esquentar fondues na boca do fogão, plantar mudas ao invés de árvores, mudar uns móveis de lugar, criar castelos debaixo de cobertores. A casa já tem alicerce, já pode ser habitada.

Só que fazer planos é sempre melhor (ou mais fácil) do que realizá-los. Eu quero transformar em ação os meus pensamentos — e eu tento, no meu ritmo, sempre devagar. Mas também não quero perder a vontade de projetar uma outra vida, um horizonte, uma casa quentinha capaz de receber todas as minhas ideias tolas. 

Então a casa é meu elefante, que eu construo todo dia e carrego comigo num mundo enfastiado que já não crê em casas. Tem dia que ela cresce, ocupa o terreno todo, se enche de flor. Em outros, vira uma miniatura, e se não tomo cuidado, alguém pode pisar. O poeta recomeçava todo dia. Eu, por ora, também.

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“Nem todos entenderiam o que queríamos daquela velha casa. Iriam nos chamar de loucos, inocentes, diriam que nós só quebraríamos a cara, que o mundo não funciona assim. Talvez por isso a casa fosse perfeita: ela era a personificação de tudo que acreditávamos.” A Casa, 30 de janeiro de 2014

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[croniquices, 7] Este texto integra as comemorações dos 7 anos do blog

A vida é um moinho, dizem. Aperta e afrouxa, sossega e desinquieta.

Por isso selecionei alguns textos que me tocaram nessa volta ao passado e resolvi dar uma cara de futuro para eles. A inspiração vem em trechos, o presente vem completo. Espero que apreciem e se reencontrem também.

Vi passarinho verde

Por Vanessa Henriques

Hoje fui surpreendida por um novo amigo. Fui tomar o meu café da manhã e, como de praxe, cortei um restinho do meu mamão para colocar no nosso comedouro — que é, sem rodeios, um prato de planta amarrado com um arame (pois antes era fita crepe e, obviamente, eles voavam) onde deixamos frutas para os passarinhos.

Lá da cozinha, ouvi um barulhinho diferente. Era um periquito-rico (que eu, como todo mundo, chamo de maritaca) bem à vontade, com um naco de mamão na boca e resmungando alguma coisa, como fazem os psitacídeos. Quando notou a minha presença, toda torta no sofá tentando focar a câmera horrível do celular, saiu voando.

No começo, os passarinhos não gostavam de tanto improviso. Veja bem, as condições eram ruins, a fita crepe vivia desgrudando, as frutas ficavam pretas (já que ninguém as comia) e se chovia ou ventava, corria-se o risco de sair voando com prato e tudo.

Demoraram para aparecer os primeiros penosos, curiosos e famintos. Mas eles apareceram. Um a um, fomos colecionando visitantes. Os cambacicas, pequeninos e abusados, tomando água de cabeça para baixo. Os sanhaços cinzentos, que sempre vêm em pares, para vigiar. Os sanhaços do coqueiro, maiores e falastrões, espantando que tivesse por ali. Os estalinhos dos beija-flores. O canto manjado do sabiá. A curiosidade e o piado forte, que sempre me assusta, do bem-te-vi.

Os periquitos, no entanto, nunca tinham se aventurado por ali. Há no meu prédio uma série de coqueiros plantados no jardim, e nós nos contentávamos em vê-los lá de cima, beliscando frutinhas e matraqueando. Eis que um descobriu o que as outras espécies já estão cansadas de saber: sempre tem um mamão, uma bananinha, às vezes outra fruta (que eles ignoram, os ingratos), geralmente de manhã, quando essa moça grande e estabanada do celular fica tentando te fotografar, ou de tarde, quando um barbudo fica imóvel no sofá tentando te espiar com um guia de aves na mão.

oi! (Foto: Vanessa Henriques)

Me divirto pensando em como eles encontram esse pratinho, na ponta de uma varanda no mar de prédio e de árvores desta vila. Pelo cheiro? Pela cor? Observando os outros penosos que param por ali?

E, depois de encontrado, o que fazer? Voltar sorrateiro, para ninguém perceber, e garantir o sua rodelinha de banana? Ou contar para a galera, trazer a passarada toda, fazer algazarra, e entrar de vez na lista de parasitas da nossa fruteira? São grandes reflexões para um corpo tão pequeno e tão pouca fruta.

Dá uma trabalheira manter os visitantes contentes. Quando eles ficam mais à vontade, não se envergonham de deixar seus cocôs de frutinha e sementes pela varanda. Nem de piar alto quando não tem nada para comer. Sem contar as brigas entre eles.

Mas é um charme tremendo dizer que acordou, em plena São Paulo, com o barulho dos penosos na janela. E vale a pena, para ficar em dias como esse, como quem vê passarinho verde.

 

Bem casados

Por Vanessa Henriques

 

Tudo vazio e dois pequenos.

Paredes cinzas

quanto espaço

quanto espelho.

 

Livro pra todo canto.

Armário: pra você só um tanto…

Mesa: toda sua, eu me arranjo.

 

A cozinha não dava conta de tanto mimo

de vó, de mãe, de irmãos, de amigos

Pano de prato ainda tem estoque

e tigela não tem mais onde bote!

 

Veio mesa, sofá, estante

e até o velho rádio com vitrola

aquela pedra que você roubou do Varvito

E debaixo da cadeira um pó meio esquisito

 

Um vaso de planta

dois

três

contei hoje: são 17 vasos

desconta os dois que já estavam no apartamento

e soma aqueles que vão vingar

(tipo aquele coqueiro que você insiste em dizer que não é um coqueiro)

 

Pássaros na cortina

e na varanda.

Dois pratos de comida que voaram com o vento

uma samambaia que se jogou ao relento.

 

Muitos santos

nesse templo.

Quantas velas será que acendemos neste tempo (nos bons e maus momentos)?

De falta de luz foram poucas

De alegria foram muitas

 

“Codo a codo somos mucho más que dos”

diz o poema que a gente adora.

Criamos um mundo em 50m²

E eu o amo com todas as forças.

 

Isso foi casa.

Comigo.

Diz que sim?