Aqui tá quente, aqui tá frio

Por Vanessa Henriques

Sempre comento com meu marido que gostaria de viver num desses países gelados, com nevascas terríveis capazes de cancelar a ida ao trabalho e à escola. Como uma boa espectadora de filmes hollywoodianos água-com-açúcar, me imagino numa casa com calefação, comendo marshmallows e tomando chocolate quente enquanto vejo Vídeo Show.

Meu marido sempre rebate, com seu desespero tropical, minha visão idílica, lembrando que a neve traz sujeira, transtornos, correntes nos pneus dos carros e — o que para ele seria a visão do apocalipse — ela só cai em dias de muito frio. Ou seja, ele desliga sem dó minha calefação e muda a TV para a GloboNews.

Apesar do nosso Natal ser cheio de neve e patinação no gelo de regata, a realidade é comer peru no calor de 25ºC à meia-noite (para os sortudos) e já engatar um janeiro de manhãs ensolaradas e chuvas torrenciais no fim da tarde. Nada de errado quando se está na praia, na fazenda ou numa casinha de sapê.

Mas é claro que nós estamos no escritório, no metrô ou, no pior dos cenários, num ônibus sem ar-condicionado às 3 da tarde. Um céu azul despontou hoje logo cedo, depois de um fim de semana chuvoso, convidando para atividades aquático-sociais imperdíveis. Só que tivemos que dizer não ao sol, à piscina, à praia, para vir trabalhar (no ar-condicionado, se você for sortudo).

Ora, me parece óbvio que, assim como os dias de nevasca, deveríamos ter mais reverência com o solão de rachar o coco®. Não é direito trabalhar em dias assim. Botar uma calça (argh), uma brusinha de trabalho e uma bolsa a tiracolo (e não um cooler de cerveja) é realmente ir contra a nossa natureza.

Lógico que teríamos que fazer uma equação para isso funcionar, já que dias ensolarados abundam abaixo do Equador. Mas um diazinho só por mês, que tal? No Japão eles param para ver as cerejeiras, por que nós não podemos tirar uma folguinha para apreciar nossos rios, mares e piscinas infláveis?

Só não vamos demorar demais, afinal o verão logo logo acaba e teremos de enfrentar nevascas de 21ºC. Preparem as correntes.

 

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Choveu

Por Vanessa Henriques

Faz quatro dias que não chove.

Não que não tenha chovido

mas chuva eu não vi.

 

Vi vento uivando

janela batendo

trovão lá no alto

nuvem preta.

 

Gota d´água, não vi.

Vi na poça

na sarjeta

mas nenhuma molhou meu rosto.

 

O tempo abafado

a alma estafada

mas a chuva teimou em me abandonar.

 

Já ouço novamente os trovões

de hoje não passa:

ou chove ela,

ou chove eu.

Deveras

Por Vanessa Henriques

Cheguei.

Não tinha ninguém.

Ficamos eu e as luzes e o barulhento ar condicionado.

 

Deveras

 

Hoje não era dia de trabalhar

Era dia de enrolar nas cobertas

de comer pão de queijo

de abraçar mais um pouco.

 

Hoje não era dia de trabalhar

Era dia de ouvir o barulho da chuva

escorrendo pelo vidro

o barulho do vento

balançando a janela

a cortina.

 

Hoje não era dia de trabalhar

Era dia de sonhar

com a vida que queria

com a vida que podia

e não com aquela que te esperava no escritório do ar condicionado barulhento.

 

O sapato de salto

a poça no asfalto

o guarda-chuva no alto

e o coração longe longe.

 

Por favor, chuva ruim

Por Vanessa Henriques

Estamos no meio do inverno, faz um calor de 25 graus lá fora e não há previsão de chuva tão cedo. No entanto, como boa paulistana que sou, não deixei de carregar minha sombrinha na mochila um dia sequer na semana. Paranoia? Mistificação? Não sei, mas a doutrina da minha mãe começou cedo e foi das boas.

Não consigo me lembrar de quando comecei a carregar sombrinhas comigo. Deve ter sido nos tempos de escola, provavelmente. Só para não pegar chuva do portão até o carro da minha mãe, provavelmente. Só sei que desde então não parei: já tive sombrinhas coloridas, estampadas, pretas, azuis, arco-íris, de alumínio, de ferro, de todos os tipos.

Item essencial na terra da garoa, alguns dirão. Concordo. Item de moda dirão outros. Não tem como negar. É só apontar uma nuvem negra no céu que aparece um camelô vendendo guarda-chuva: dos maiores, dos menores, com bolinhas, sem bolinhas. Há um certo estilo paulistano nisso — rebatendo aqueles que acham que só tem cinza por essas terras.

O fato é que eu ando sempre com o meu. Porque eu tenho pavor de tomar chuva? De estragar a chapinha? Não exatamente. Pelo mesmo motivo pelo qual as meninas do Leblon não olham mais para mim: eu uso óculos. E não tem coisa mais chata para um míope do que ficar com as lentes todas ensebadas com pingos de chuva (ainda mais quando eles se misturam com o suor do rosto e embaçam).

Tudo bem que se a chuva for de vento, ou vier assim meio de lado, não há guarda-chuva que segure a barra. E, desgraçadamente, tem sido assim nas últimas vezes: quantos dias não me vi com o rosto completamente molhado mesmo estando debaixo do abrigo do ponto do ônibus e com a sombrinha aberta?

Sem contar a novela do guarda-chuva grande. Eu ando com a sombrinha sempre na bolsa, mas tem dias que já amanhece chovendo, certo? Ou então a moça do tempo diz que tem 90% de chance de chover. Já saio de bota e com o maior guarda-chuva que tenho a tiracolo, mas tenho uma certeza: não vai chover. É sempre assim, quanto maior a preparação para o dilúvio, maior o sol que racha.

Há também sempre a questão do esquecimento. Sombrinhas são feitas para serem esquecidas em mesas de bares, porta de lojas, casas de conhecidos. Tanto é que tenho amigos que se recusam a gastar mais do que R$5 numa sombrinha, pois sabem que mais dia, menos dia, ela terá escapado pelas dobras do espaço-tempo — junto com todos os grampos e elásticos de cabelo.

Não costumo perder sombrinhas, mas a última que tive perdi num vulcão. Sim, você leu direito, no vulcão. Tá certo que ela não foi exatamente engolida por um mar de lava, mas houve toques de drama. Tive tempo de visitar um vulcão durante uma viagem a trabalho, mas claramente não estava preparada para isso. Coloquei uma calça e uma blusa de moletom, agarrei minha sombrinha, e fui feliz e contente para lá.

Chegando lá chovia e ventava muito (mas muito mesmo!), e a sombrinha tava lá, firme e forte fazendo o seu papel. Mas foi demais até para ela: as varetas entortaram todas, e ele ficou tristinho, meio cabisbaixo. Era o fim para ele.

Comprei outro e segui em frente. Não sei se o novo terá uma grande história para contar, como o último, mas espero que ele esteja à mão quando eu precisar — nem que seja para trazer o conforto de saber que não ficarei na mão. O último não viu o vulcão, quem sabe ele tem mais sorte?