Bem casados

Por Vanessa Henriques

 

Tudo vazio e dois pequenos.

Paredes cinzas

quanto espaço

quanto espelho.

 

Livro pra todo canto.

Armário: pra você só um tanto…

Mesa: toda sua, eu me arranjo.

 

A cozinha não dava conta de tanto mimo

de vó, de mãe, de irmãos, de amigos

Pano de prato ainda tem estoque

e tigela não tem mais onde bote!

 

Veio mesa, sofá, estante

e até o velho rádio com vitrola

aquela pedra que você roubou do Varvito

E debaixo da cadeira um pó meio esquisito

 

Um vaso de planta

dois

três

contei hoje: são 17 vasos

desconta os dois que já estavam no apartamento

e soma aqueles que vão vingar

(tipo aquele coqueiro que você insiste em dizer que não é um coqueiro)

 

Pássaros na cortina

e na varanda.

Dois pratos de comida que voaram com o vento

uma samambaia que se jogou ao relento.

 

Muitos santos

nesse templo.

Quantas velas será que acendemos neste tempo (nos bons e maus momentos)?

De falta de luz foram poucas

De alegria foram muitas

 

“Codo a codo somos mucho más que dos”

diz o poema que a gente adora.

Criamos um mundo em 50m²

E eu o amo com todas as forças.

 

Isso foi casa.

Comigo.

Diz que sim?

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Seja você quem for

Por Vanessa Henriques

Bloco lotado, calor arretado, cerveja pra-que-te-quero. Estava decidido a esquecer a ex, a anterior a ela e as tantas outras que nunca chegaram a ser ex-es. Tanta gente na rua, tanta folia, eu hei de esquecê-las, pensou — ainda que soubesse que só esse pensar já era, na verdade, um retrocesso.

Tudo ia bem, os amigos por perto, algumas meninas por quem tinha se interessado, até que a viu passar. Não era uma ex. Nem uma paixão platônica, dessas que ele colecionava. Não era uma amiga. Quem era ela? A peruca rosa black power com certeza não ajudava, mas ele conhecia aquele rosto, conheceria em qualquer lugar.

Não é possível que não se lembrasse. Pulava desritimado, tentando encontrar olho com olho, na esperança de que a memória ajudasse. Foi cerveja demais, pensamento demais, eu devo estar vendo coisas, constatou — ainda que soubesse que esse era mais um pensamento.

Vou me aproximar. Quem sabe mais de perto chego a alguma conclusão. Foi cambaleando pela rua, num disfarce que mais chamava a atenção. Olhou para as amigas que a rodeavam. Nenhum rosto familiar. Repassou todas as possibilidades de a ter conhecido: colega de faculdade, colega de trabalho, trabalha no mercadinho perto de casa, me deu aula de inglês, atriz famosa, irmã do amigo do amigo, baterista daquela banda, minha irmã. Nada.

Eu devo estar muito louco mesmo, essa cerveja é das boas, e o esquenta na casa do Pedrão ajudou a fazer estrago. Vamos analisar os fatos friamente: ela é bonita, tem um sorriso bem feito, não está com nenhum cara e eu estou bêbado a ponto de esquecer. Vou falar com ela.

Chegou meio calmo, meio agitado, cortando a roda em que ela estava. Abriu um grande sorriso, e foi correspondido. Quando viu, já estavam se beijando. Não lembrava do beijo, então definitivamente não era uma ex. O rosto ainda era um enigma, mesmo assim tão perto.

Criou coragem e perguntou.

— Desculpa, mas eu tenho a impressão de que te conheço de algum lugar.

Ela o olhou detidamente, ao menos o quanto seu olhar ébrio permitiu, e disparou:

— É, também tenho essa impressão.

De repente, como se tivesse levado um banho de água fria, ela se desvencilhou de seus braços num pulo:

— Se eu te conheço de algum lugar, e é carnaval, isso não pode ser coisa boa. Você deve ser um ex ou um amigo de amigo com quem já fiquei… e eu vim para esquecer todos eles.

Embrenhou-se na multidão, e logo o esqueceu nos braços de outro que passava, desta vez nada familiar. Ele ganhou mais uma ex para esquecer. É melhor seguir o cordão.