Peneira

Por Vanessa Henriques

Lá pelo segundo tempo de um Polônia e Nigéria, que eu acompanhava de orelhada, veio a constatação: a Copa é uma grande dinâmica de grupo. É triste chegar a essa conclusão, já eu que odeio com todas as minhas forças essa forma de t̶o̶r̶t̶u̶r̶a̶ seleção, mas adoro uma Copa.

Veja se você concorda comigo. Há, antes de mais nada, uma disputa prévia para entrar na lista de convocados. O currículo pesa muito nesta fase: como está seu rendimento, quais clubes jogou, como foi na última temporada. É preciso ter estilo: de jogo e de cabelo.

Passando dessa fase, você passa para a dinâmica em si, com pitadas de BBB: você passa a conviver com seus concorrentes. É obrigado a socializar com eles, manter o mínimo do diálogo, entrosamento. É também a hora de conhecer seus pontos fracos.

Pior, aí você percebe que ali, todo mundo fez intercâmbio: um joga em Barcelona, outro em Londres, outro em Paris. Você já começa a pegar ranço deles, mas não há o que fazer. É preciso ganhar no carisma, na habilidade, no quinto metatarso em pleno funcionamento. Se vira.

No fundo, todo mundo compete por uma vaga no topo. Uma exibição de gala, o reconhecimento de suas habilidades e, muito importante, um novo contrato quando tudo acabar.

Ainda não te convenci? Lembremos de algumas atividades que envolvem uma Copa.

É preciso mentir (“claaaaro eu tô ótimo daquela lesão”). É preciso fingir (“meu Deus chutaram minha canela mas doeu no pé acho que foi pênalti”). É preciso dar entrevista para Galvão Bueno e afins (“é a desmoralização do árbitro de vídeo mesmo, Galvão, cê tá certo”).

Talvez eu esteja influenciada pelo fuso horário russo, que bate exatamente com o expediente. Talvez eu esteja procurando desculpas prévias para o fracasso do hexa (“também, quem aguenta tanta dinâmica?”).

Por ora, vou acompanhando a seleção (entenda como quiser) com a tranquilidade de espectadora. Mas vou aproveitar para mandar uns currículos durante o intervalo. Quem sabe não uso algumas das técnicas aprendidas pela TV? Já aviso a concorrência que o espírito está meio cansado, mas o metatarso está tinindo

 

Anúncios

À procura dos gigas perdidos

Por Vanessa Henriques

Ultimamente tenho andado preocupada com meu tamanho – e não me refiro aqui à minha silhueta nem à minha altura (esta, não tem jeito). É o meu tamanho digital que anda dando dor de cabeça.

Estou sofrendo de falência múltipla de plataformas: atingi, de uma só vez, meu limite de espaço de armazenamento do celular, do e-mail e da nuvem. Dá para desconfiar de uma conspiração das grandes corporações, claro, mas eu também sou displicente no uso das minhas gavetas digitais.

O celular está mais fácil de resolver, creio eu. Basta apagar alguns memes (apaixonada pelo canarinho pistola, confesso) e fotos inúteis recebidas pelo celular – “olha, tô mandando uma foto da minha frieira!”. E não baixar mais aplicativos de jornais.

Os outros dois está mais complicado. Eu nunca criei o hábito de apagar meus e-mails, já que o Google sempre me prometeu mais espaço. Cada vez que chegava próximo ao limite, ele anunciava que eu havia ganhado mais alguns gigas de presente.

Diante desta abundância, quem vai se ligar que não é muito bom não apagar todos os e-mails do Peixe Urbano? Ou os milhões de e-mails para mim mesma, com links para ler depois, ideias desconexas de crônicas ou lembretes como COMPRAR PÃO?

E a nuvem? Ela surgiu para resolver os problemas desta vida de hardware que sempre levamos. Esqueça disquete, memória RAM, pendrive ou HD externo. Coloque na nuvem. Ainda por cima era lúdica, a desgraçada. Não é lindo imaginar todos os seus arquivos felizes, numa nuvem de dados, talvez banhados por um arco-íris?

É lindo, só faltou lembrar que neste céu Deus é onipresente e está de olho em todas as saliências das suas nuvenzinhas, um ótimo produto para vender ao Diabo. “Psiu, ela gosta de viajar. Oferece promoção de passagem para ela, é batata”. Além disso, a vista do céu é privilegiada e a especulação imobiliária está bombando. Logo, vamos começar a pagar pelo seu pedacinho de paraíso, que eu te dou uns gigazinhos de lambuja.

E para piorar, eu sei que esses não são os únicos lugares no qual salvamos todas as nossas tralhas digitais. Tem o computador de casa. Os vários pendrives espalhados por gavetas. O HD externo com backups de computadores que nem tenho mais. As fotos, meu Deus, as fotos. Estão na máquina fotográfica, no celular e espalhadas por pastas em todos os cantos.

É preciso reunir. Eu adoro uma arrumação de armário, mas devo dizer que a arrumação digital não me anima muito. Sei que levarei dias para juntar todos os arquivos num único lugar. Nem sei se vou conseguir, mas o que importa é a sensação de que estou no controle da minha vida virtual (não estou, claramente).

Eis que chega o momento de decidir. Apelo para a tangibilidade dos arquivos físicos? Ou pela praticidade da nuvem? Vendo minha vida para a Google ou para a Microsoft? É fato que o Bill Gates já está com a minha vida há mais tempo. Mas o Google nunca me fez chorar porque o computador não colaborou, a impressora pifou, e a atualização do Windows travou o notebook. Ele só vendeu meus dados sem minha permissão (ou com, quem lê as letras miúdas?), mas quem não fez isso nos últimos tempos?

O páreo foi duro, mas acabei comprando um HD externo de 2 terabytes — o novo prefixo me deu um certo conforto. Não é etéreo, mas é bonitinho e bem mais leve que uma gaveta real cheia de fotos, arquivos, livros e outras tralhas digitais. Resta saber se minha vida é deste tamanho ou se vou ter que encarar um regime.

 

Debatendo-se

Por Vanessa Henriques

Casa cheia, coffee break no capricho, aglomeração no cafézinho. Crachá no pescoço, bloquinho e caneta na mão. Abrem as portas. Cada um escolhe o melhor lugar — do lado da saída, dos amigos, do ar condicionado. Um atrasinho regulamentar. Quinze minutos, talvez vinte.

O moderador vem galante, como pede a ocasião. Dá bons-dias, boas-tardes, a palavrinha dos patrocinadores, agradece aos palestrantes e os apresenta com uma leitura extensa de currículo invejável. Os espectadores se encolhem na cadeira diante de tanta experiência. E anuncia as regras do jogo:

— Gostaria de deixar claro, desde já, como será o funcionamento deste debate. Darei dez minutos para cada palestrante falar. Todos vão estourar pelo menos 5 minutinhos, então já são 15. Como são quatro integrantes da mesa, a próxima hora será deles.

O público presta atenção, resignado.

— Nesta primeira hora, cada debatedor vai fazer mesuras aos demais componentes da mesa. Vão fazer piadas como “o fulano já disse o que eu queria falar”, para disfarçar o desconforto. A grande verdade é que todos aqui se conhecem, já trabalharam juntos algum dia, e não teremos embates ideológicos marcantes. Estão todos do mesmo lado.

O público estranhou, cochichou, mas continuou atento.

— Aí eu vou incentivar que todos enviem suas perguntas, quanto mais perguntas, melhor, queremos um debate intenso, com vários pontos de vista. Mas a verdade é que só vai restar menos de meia hora para o debate em si. Vou me afundar em um mar de papeizinhos, fazer cara de preocupação, e pedirei mil desculpas à participativa plateia por este incômodo.

O público se mexeu na cadeira, uns com raiva, outros espantados, outros no celular.

— Os sortudos que tiverem suas perguntas contempladas vão ser obrigados a ouvir as respostas dos quatro integrantes da mesa que, como disse, não discordam entre si. Talvez aproveitem para inserir algum comentário sobre sua carreira atual, o livro que está lançando, o próximo debate na agenda.

O público desconfortável, se ajeitando no assento, surpreso e até um tanto ultrajado.

— Tudo isso não será um problema, pois até lá metade já estará no Facebook, um quarto terá marcado presença e ido embora e o restante aguardará ansioso o fim do debate para comer mais pãezinhos de queijo.

O público um pouco mais calmo, metade já no celular, outros planejando a fuga. Os debatedores se entreolhavam, com sorriso amarelo e bochechas rosadas, esquecendo a fala inicial praticada no banheiro.

Bem-humorado, o moderador declarou aberto o debate. Uma parte do público bateu palmas fervorosamente. O melhor debatedor já havia feito sua introdução — em menos de dez minutos.

De pé, cansa

Por Vanessa Henriques

Já começo este texto pedindo desculpas pela prolongada ausência e pela frivolidade do tópico. No entanto, acredito que ele possa tocar os corações de leitores com escoliose, lordose, pico de papagaio ou, simplesmente, um chefe.

Escrevo estas linhas do alto (nem tanto) de uma cadeira do escritório. Ela é como todas as cadeiras de escritório: desconfortável, com regulação insuficiente e design sofrível. Cuidadosamente escolhida para o tamanho da bancada, ela me obriga a escolher entre apoiar os cotovelos em seu braço ou ficar a uma distância razoável do teclado.

O agravante fica por conta dos meus 1,75m e uso de salto (pequeno!), que me obriga a ficar com as pernas na mesma posição o dia inteiro. Some-se a isso uma escoliose e a obrigação de ficar sentada por 8h em frente a este computador. Tudo bem, a culpa foi minha, quem mandou ser de humanas?

Eis que, virando o pescoço (de leve, pra não piorar o quadro), vejo a cadeira do chefe. É alta, imponente, encosto que cobre toda a superfície das costas, um luxo. Tem regulagem de altura decente para maiores de 1,65m. Revestimento acolchoado. Até a cor é diferente. Afinal, ele é o chefe, e se suas atitudes não mostrarem isso, tudo bem, afinal a cadeira se encarregará do resto.

É realmente patética esta separação. Uns dirão que os chefes trabalham mais horas (tenho colegas com média de 12 horas diárias que desmentem), que são mais velhos, que já esquentaram muita cadeira ruim. Ok. Mas será que para ser chefe (além de ser homem) precisa desenvolver lordose?

Há algumas semanas, enquanto procurava uma cadeira para a minha casa, logo fui atraída por um exemplar vistoso, alto, com encosto confortável — ou seja, a típica cadeira que nunca terei no trabalho. Na etiqueta, o nome: ‘cadeira diretor’. As que eu estava acostumada a sentar no trabalho eram as ‘cadeiras giratórias pretas’. Tinha a ‘cadeira presidente’ também, mas achei muito espalhafatosa.

Resignada, comprei a cadeira de diretor com meu salário de peão para disfrutar de alguns bons momentos em casa. E, de repente, fiquei muito motivada a disputar um cargo de chefia. Minha plataforma? Cadeira diretor para todos!

Alçada à chefia, poderia desfrutar de conforto ortopédico e algum prestígio, afinal ninguém senta numa cadeira dessas à toa, não é mesmo? Se meu plano falhar, abro um estúdio de pilates, afinal uma coisa é certa: não vai faltar patrão e peão estropeado no futuro próximo.