As caixas guardam de tudo [croniquices, 7]

O que o espírito pretende alcançar é o seu próprio conceito;
mas ele mesmo a si o oculta, é orgulhoso
e sente plena fruição nesta alienação de si próprio.
(Georg Wilhelm Friedrich Hegel)

Por Vanessa Henriques

Outro dia, o comichão para voltar a estudar atacou com tudo. Pior, veio acompanhado de ação, e eu me aventurei num curso online. Fiz todas as atividades que estavam disponíveis em pouco tempo, e depois comecei a pensar no que precisava retomar.

Tenho sempre a vívida sensação de que, apesar de ter estudado por anos a fio certos assuntos, eu não absorvi nada daquilo, e preciso retomar, relembrar e até mesmo reaprender. 

Por um lado isso é verdade, já que nossa memória RAM é finita e não precisa ficar guardando detalhes da revolução francesa. Mas não deixa também de ser uma manifestação da minha insegurança achar que eu não absorvi absolutamente nada do que aprendi.

Quando fui fuçar em alguns materiais de física a sensação foi mais desesperadora. Agora eu estaria indo ao encontro dos meus amigos íntimos, Marx, Weber, Kant e até mesmo Hegel. Tudo ficaria bem.

Eu disse Hegel?! Sim, eu disse Hegel. Resolvi começar revendo uma das matérias mais difíceis que cursei na faculdade. Eram páginas e páginas de anotações sobre o espírito humano, a dialética, o senhor é escravo e senhor, o escravo é senhor e escravo — e acho que posso parar por aqui.

Um texto, muitas leituras (Foto: Vanessa Henriques)

Claramente 4 anos de faculdade e mais uns 8 de formada não foram suficientes para entender Hegel. Sinto que preciso rever o a priori kantiano e sua crítica à razão pura, e recorro a um daqueles manuais genéricos da história da filosofia. 

Ao folhear o índice, bate a certeza de que realmente eu esqueci o pouco que aprendi, e tem todo um rol de autores que eu nem sequer tive a curiosidade de jogar na Wikipédia. David Hume sei que nunca li. Erasmo de Roterdã no máximo uma xerox de um capítulo do Elogio da Loucura (me parece familiar agora). John Locke era personagem do Lost, não? O primeiro nome do Hegel é Georg??? 

Essa é toda a beleza e a perversidade do conhecimento. Quanto mais se estuda, mais se tem de estudar. Quanto mais tempo ficou parado, mais há a recuperar. Devo me encher de esperança? Ou desistir diante da tarefa que, a cada ano que passa, parece mais hercúlea? E tome dialética!

As caixas ou pastas guardaram tudo que eu achei que era importante, que aprendi ou que deveria ter aprendido. Mais do que deixá-las num cantinho, de vez em quando vale o choque de reabri-las e descobrir o que partiu e o que ficou. 

Quem se revisita, aprende toda vez. Ou só é muito sádico, vai saber. Já diria um conhecido meu que o espírito é uma luta dura contra si mesmo. 

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“Consegui o espaço que queria, a custa de algum desapego e muitas recordações. Construí um mosaico de aulas, professores, trabalhos e provas que, de alguma maneira, me formaram como pessoa. Dizem que os anos de faculdade são os melhores de nossas vidas. Eu discordo, respeitosamente. Os anos em si não são tão gloriosos quanto se pode pensar, mas o que realmente fica conosco é puro ouro.” Entre caixas e beijos, 9 de abril de 2014

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[croniquices, 7] Este texto integra as comemorações dos 7 anos do blog

A vida é um moinho, dizem. Aperta e afrouxa, sossega e desinquieta.

Por isso selecionei alguns textos que me tocaram nessa volta ao passado e resolvi dar uma cara de futuro para eles. A inspiração vem em trechos, o presente vem completo. Espero que apreciem e se reencontrem também.

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Sem compromisso

Por Vanessa Henriques

Hoje é dia 11, e eu ainda não tenho uma agenda de 2019. Eu tentei, eu juro, mas está complicado. Eu tenho alguns requisitos, confesso, mas não acho que sejam inatingíveis. Eu exijo que ela seja pequena, leve, e que tenha um espacinho para cada dia. Fora, isso, tudo vale, nem preço baixo mais eu tô exigindo.  

Em um momento de desespero, pensei em adquirir uma agenda gigante do ursinho Pooh (ex-Puff), que pesaria uns 3kg a mais na minha bolsa, mas me controlei. Em um impulso contrário, quase comprei no camelô uma agenda universal com uma capa de couro vagabunda e um ‘Agenda’ em dourado berrante na capa. Consegui resistir.

Aí eu fui ser digital, moderna. Já ando com a porcaria do celular na mão o dia todo mesmo, que diferença faz? Já que o Google já sabe tudo da minha vida mesmo, o que custa dizer para ele qual o horário da minha depilação na virilha? O problema é que só tenho dois modos: ou eu esqueço de olhar a agenda eletrônica, ou eu me irrito com os horários aleatórios que ela resolve apitar para me avisar de algum compromisso.

Lembra das papelarias? Aqueles lugares organizados, coloridos, um sonho de infância, com cheiro de papel e de borrachas de plástico (aquelas japonesas, que não borram nada e dão uma dó danada de usar). Elas estão cada vez mais raras. Muitas faliram, outras diminuíram, e o fato é que de cada 5 visitas à papelaria, 4 são malsucedidas.

Vamos então aos lugares que faliram as papelarias: lojas enormes de departamento ou papelarias desproporcionais — na qual não há um balcão com um tiozinho simpático que vende lápis separadamente e ainda embrulha em papel rosado. Há todas as versões da agenda do ursinho Pooh (com glitter, com adesivos, com cheiro de mel), e nada mais simples que isso. Era só um caderninho, pessoal. Não era para ser tão difícil.

O algoritmo do Google, que já sacou que eu tô procurando uma agenda para comprar, me sugere o “método bullet journal”. Percebo que todos à minha volta faziam BuJo (pros íntimos), e só eu não sabia. O método seria usado para “acompanhar o passado, organizar o presente e planejar o futuro”, e só exigiria um caderno e uma caneta. Seria minha salvação?

Não exatamente. Descobri que o método é um pouco mais complicado que isso, e a coisa do papel e caneta não condiz com as imagens: cadernos afrescurados, com uma caligrafia saída de lousa de cafeteria hipster, cheio de listas de tarefas, metas a serem cumpridas no dia, mês, ano. Olha, a época de resoluções de Ano Novo já foi, e não tô atrás de mais assunto para a terapia não, obrigada. Era só um lugar para anotar o horário do pilates.

Por isso peço a todos encarecidamente que não me chamem para nenhum aniversário, almoço ou batizado, não me peçam para ajudar na mudança ou para ir conhecer a casa nova e, principalmente, não me recordem que eu preciso marcar dentista, ginecologista e pedicure. É provisório. Eu acho. Nos falamos em dezembro — se eu me lembrar.  

S = S0 + vt

Por Vanessa Henriques

Tirei o fim de semana para estudar Física. Sim, aquela mesma, a matéria odiada por 9 em cada 10 alunos, cheia de corpos se movendo a velocidades constantes, com ou sem atrito, liberando uma energia calculada em Joules (ou qualquer dia no metrô da linha vermelha).

A última vez que encarei esse desafio foi em 2006, enquanto estudava para o vestibular. Lá se vão 12 anos sem me deparar com as leis de Newton. Minha vida mudou muito nesse período, mas eu ainda tenho dificuldade de entender o que puxa a maçã da macieira para o chão.

Eu não aprendi a gostar de Física, então ela se tornou uma barreira. Foi, de longe, a coisa que mais estudei no ensino médio, dada a minha óbvia dificuldade. Ela roubou meu tempo de estudo de História, Geografia e Português, matérias com as quais sempre tive mais afinidade. Ela me fez perder muitas tardes resolvendo exercícios quase impossíveis de vetores e polias.

Até que, a partir de 2007, a Física saiu da minha vida para nunca mais voltar. Tive que ocupar esse espaço desagradável com outros afazeres (trabalhar, passar roupa, ir para a academia, passar mais de 1 hora no metrô todo dia e… esta lista não tem fim). Olhando assim, não me parece que fosse tão ruim gastar um tempo calculando o calor específico da água.

A partir do momento que fiz uma escolha (olá, Humanas), boa parte deste conhecimento escolar ficou para trás. Ou, ao menos, adormecido, como um esporo (contei que também estudei Biologia?).

Você deve estar se perguntando o motivo de tudo isso. Bem, lá vamos nós em mais uma aventura em busca de realização profissional®, que exige voltar para trás para ir para frente. Mas eu sinto que estou indo mais é pela tangente mesmo, da qual eu não faço ideia como calcular o cosseno.

As portas que a escola parecia abrir foram se fechando ao longo dos anos, nenhuma novidade nisso. Virou mais é uma porta dos desesperados, com alguns monstros saindo detrás delas, outras com alguns prêmios bestas como recompensa (“Playstation! Playstation!”). Saudade desse tempo em que tudo parecia possível, as consequências não eram pesadas em balança de precisão milimétrica e o risco não era calculado em ábaco.

A equação desbalanceou, ainda que eu saiba que a mesma massa que entra é a que sai. Eu devo ser ainda a mesma, transfigurada após alguns reagentes que corroeram minhas expectativas mas com o bônus de ter ganhado experiência (com a liberação de água pelo canal lacrimal, mas isso é praxe).

De que adiantaria ser adolescente sabendo tudo que te espera pela frente? De que vale ser adulto sem criar as mesmas expectativas juvenis a cada novo ciclo? O distanciamento histórico não garante análise fria, nem nos livra de ser anacrônicos.

Ao menos uma constante permanece inalterada nas condições normais de temperatura e pressão: a redação ainda é a parte mais fácil de qualquer prova que venha pela frente.

Debatendo-se

Por Vanessa Henriques

Casa cheia, coffee break no capricho, aglomeração no cafézinho. Crachá no pescoço, bloquinho e caneta na mão. Abrem as portas. Cada um escolhe o melhor lugar — do lado da saída, dos amigos, do ar condicionado. Um atrasinho regulamentar. Quinze minutos, talvez vinte.

O moderador vem galante, como pede a ocasião. Dá bons-dias, boas-tardes, a palavrinha dos patrocinadores, agradece aos palestrantes e os apresenta com uma leitura extensa de currículo invejável. Os espectadores se encolhem na cadeira diante de tanta experiência. E anuncia as regras do jogo:

— Gostaria de deixar claro, desde já, como será o funcionamento deste debate. Darei dez minutos para cada palestrante falar. Todos vão estourar pelo menos 5 minutinhos, então já são 15. Como são quatro integrantes da mesa, a próxima hora será deles.

O público presta atenção, resignado.

— Nesta primeira hora, cada debatedor vai fazer mesuras aos demais componentes da mesa. Vão fazer piadas como “o fulano já disse o que eu queria falar”, para disfarçar o desconforto. A grande verdade é que todos aqui se conhecem, já trabalharam juntos algum dia, e não teremos embates ideológicos marcantes. Estão todos do mesmo lado.

O público estranhou, cochichou, mas continuou atento.

— Aí eu vou incentivar que todos enviem suas perguntas, quanto mais perguntas, melhor, queremos um debate intenso, com vários pontos de vista. Mas a verdade é que só vai restar menos de meia hora para o debate em si. Vou me afundar em um mar de papeizinhos, fazer cara de preocupação, e pedirei mil desculpas à participativa plateia por este incômodo.

O público se mexeu na cadeira, uns com raiva, outros espantados, outros no celular.

— Os sortudos que tiverem suas perguntas contempladas vão ser obrigados a ouvir as respostas dos quatro integrantes da mesa que, como disse, não discordam entre si. Talvez aproveitem para inserir algum comentário sobre sua carreira atual, o livro que está lançando, o próximo debate na agenda.

O público desconfortável, se ajeitando no assento, surpreso e até um tanto ultrajado.

— Tudo isso não será um problema, pois até lá metade já estará no Facebook, um quarto terá marcado presença e ido embora e o restante aguardará ansioso o fim do debate para comer mais pãezinhos de queijo.

O público um pouco mais calmo, metade já no celular, outros planejando a fuga. Os debatedores se entreolhavam, com sorriso amarelo e bochechas rosadas, esquecendo a fala inicial praticada no banheiro.

Bem-humorado, o moderador declarou aberto o debate. Uma parte do público bateu palmas fervorosamente. O melhor debatedor já havia feito sua introdução — em menos de dez minutos.

صباح الخير

Por Vanessa Henriques

Em um ponto da minha vida, eu soube árabe. Claro que não saía por aí falando fluentemente, mas tive noção de letras, sons e algumas expressões que me garantiriam pedir um café com leite ou um quibe. Além de falar bom dia.

Apesar de ter estudado por um ano, a falta de estudo e de contato com a língua fez com que eu esquecesse grande parte do que aprendi. Sabe aquela faxina que de vez em quando fazemos nas gavetas? Pois bem, numa dessas faxinas, meu cérebro jogou o árabe fora, sem nem me consultar.  Sobrou só o bom dia.

Seria possível relembrar algumas coisas, pensei comigo, afinal foram aulas e mais aulas anotadas no caderno, além das apostilas, CDs e livrinhos guardados. Seria possível se não fosse impossível, já que emprestei meu caderno e apostila para uma colega que jamais me devolveu. Cobrei uma, duas, três vezes e nada. Ficou de passar na minha casa pra devolver. Depois de passar no meu trabalho. No fim eu já tinha entendido que não voltaria a vê-los.  Quem mandou emprestar?

Lá estava eu, sem meu caderno e apostila rabiscada, nos quais depositei toda minha fé de que guardariam o meu árabe, me prevenindo das faxinas indesejadas. Olho com desdém pro material que me sobrou, que não supre a falta dos demais. “Esse não tem os verbos!”. “Esse não tem a parte de conversação!”.

Mas não sei se é justo colocar a culpa toda no caderno ou em sua ausência. Recuperar o caderno não significaria recuperar automaticamente o que, na verdade, eu esqueci. Desaprendi. O árabe continuaria distante de mim, lá no Golfo Pérsico, e as anotações serviriam provavelmente apenas para matar as saudades.

Talvez a ausência do caderno doa mais por ser uma ausência de mim mesma, daquela Vanessa que achava que poderia aprender uma língua cujo alfabeto parece rabiscos à primeira vista e no qual há pelo menos cinco tipos de sons de erre. Será que hoje teria a mesma coragem para (re)começar?

Por uma coincidência do destino, acabei recuperando contato com meu professor, e talvez tenha como reaver a apostila. Quem sabe ela me anime a retomar de onde parei, ou simplesmente traga o Golfo para mais perto de mim. As minhas anotações não irão voltar, terei que arranjar novas. Cadernos, há muitos no mundo. E os melhores costumam ser aqueles em branco, cheios de esperança.