As aves que aqui gorjeiam

Por Vanessa Henriques

Não sei se alguém reparou, mas os sabiás já estão cantando a toda hora. Não toda hora, mas nas madrugadas, cada vez mais cedo, como algum Globo Repórter da vida já noticiou. A história é conhecida: é primavera, os sabiás querem se reproduzir, para isso precisam cantar, mas competem com o som dos carros, buzinas, panelaços, britadeiras, o moço que vende geladiiinho naturaaaaal e outros sons típicos de uma cidade grande. 

Então eles passam a cantar na madrugada, quando reinam quase absolutos. Reinavam, já que cada dia se dorme mais tarde e se acorda mais cedo — sabia que o Hora Um começa às 4 horas da manhã? (O que me leva à próxima pergunta: a que horas a Monalisa Perrone acorda?). E aí que os sabiás deram de cantar à meia noite, às 2 horas, às 3 horas, ao meio-dia. 

Como eu sei de tudo isso? Bom, para começar, meu trabalho doido® me faz ficar no trabalho até 2 horas. Antes disso, meu marido vai dormir, lá para meia noite, e me diz aflito que os sabiás estão cantando. Minha irmã, que amamenta de madrugada minha sobrinha, manda um zap: cantaram às 3 horas. O que só me faz concluir que os sabiás continuam cantando até a Monalisa ficar prontinha para entrar no ar.

Quando eu tinha uma vida regrada, com horários considerados cristãos, o cantar dos sabiás me incomodava. Acordava de madrugada para ir ao banheiro e, ao voltar para a cama, me irritava com os ‘firu-fiu-fiu-fiu’ a plenos pulmões — ainda que eles nunca tenham me impedido de voltar a dormir.

Firu-fiu-fiu-fiu (Foto: Carlos Oliveira)

Hoje eu gosto de ouvir os sabiás, ainda que eles me tragam uma certa solidão. Eu também ando por aí solta na madrugada, na hora em que era para estar quietinha nas cobertas. Olho para as poucas janelas com luzes acesas e busco companheiros: não para acasalar, mas para perguntar por que você está acordado nessa hora tão boa de dormir? Fixo em um ponto, à espera de uma luz que se apague, ufa, foi só tomar uma água e voltou a dormir. 

Tenho vontade de acordar meu marido para falar sobre os sabiás. Mas ele dorme tão silenciosamente, como se fosse um passarinho… deixo-o em paz. Tenho vontade de conversar com a Lua, mas isso parece tão antiquado e juvenil. 

Então só me resta abrir a janela e conversar com o sabiá. Dizer que eu também me sinto cada vez mais espremida pela falta de silêncio. Que eu tento me convencer que está tudo bem em viver ao avesso do mundo, mas que cada dia me sinto mais do avesso. De como esse nó na garganta deveria desatar num canto como o dele.

Vamos combinar uma coisa, amigo? Leve a sua melodia mais bonita para a minha sobrinha, uma que faça a mãe dela também de você se lembrar. Depois, embale meu marido em sonhos com asas. E não se esqueça de ajudar a Monalisa a acordar. 

Conto com sua companhia ao menos nessa primavera, e espero que até você partir eu já esteja pronta para piar.

Unfollow

Por Vanessa Henriques

Ei, você, que está aí rolando o dedo sem propósito no feed no Instagram, do Twitter, Facebook ou LinkedIn. Desculpa atrapalhar, mas só queria deixar um recado: você está admirando as pessoas erradas.

Tudo bem, eu te acompanho nessa. Eu também ando me vendo com raiva/inveja de uma porção de gente por aí — conhecidos e desconhecidos também. Gente que sabe tirar selfie. Gente que transborda conhecimento. Gente que é engraçada. Gente que é feliz no emprego. Gente que vai para a praia toda a semana (e que posta as fotos da praia na quarta-feira, pra te pegar no pior momento de depressão de dia útil). Eu estou errada, e você também.

Toda vez que eu abro o Instagram, toca no fundo da minha cabeça o clássico do Lulu Santos “S.O.S. solidãooo”. É tanta pose, tanta selfie e tanto filtro que só pode ser falta de companhia. Sabe aquele rolê tão bom que ninguém lembra de tirar foto? É isso que eu quero.

Toda vez que eu abro o Twitter, toca no fundo da minha cabeça a minha música preferida do Raul Seixas, Ouro de Tolo, que ele só fala verdades como estas: “É você olhar no espelho e sentir um grandessíssimo idiota saber que é humano ridículo, limitado que só usa dez por cento de sua cabeça animal/E você ainda acredita que é um doutor padre ou policial que está contribuindo com sua parte para o nosso belo quadro social”.

Toda vez que eu abro o LinkedIn, logo me vem o Poema em Linha Reta, do Álvaro de Campos: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. (…) Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo? Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?”

Por sorte, eu não tenho Facebook.

O pior é que eu abro essas redes todos os dias. Mais de uma vez por dia. É vício, eu sei. É a tecnologia que te engolfa. É a economia, estúpido. E cada dia uma caraminhola nova entra na minha cabeça por causa dessas desgraçadas redes que se dizem sociais.

Eu me tornei uma pessoa invejosa, e eu odeio esse sentimento. Quero a selfie da fulana, o trabalho do sicrano, a inteligência do beltrano. Só que eu só tenho eu, poxa, que pena. Eu que não sei tirar selfie nem fazer story, eu que nunca ganhei mais do que 5 curtidas, eu que mando currículos toda semana há meses e não sou chamada para nenhuma entrevista.

Só faltou perguntar: desde quando alguma dessas coisas foi a minha meta de vida? Quando que eu quis tirar foto de biquíni e postar para todos os colegas do trabalho verem? Quando que eu quis posar de fodona desconstruída? Quando (meu Deus, quando??) eu quis ser a pessoa que ama o trabalho e compartilha fotos e textos sobre como ele é bacana?

Então a conclusão é que eu tô admirando as pessoas erradas. Não que elas estejam erradas, longe disso. Mas elas estão ali, mais expostas, e a um clique de distância e uma página sem fim para ficar rolando sem pensar em nada.

Vamos usar aqueles 10% da nossa cabeça e voltar a pensar? Vamos parar de cultuar semideuses? Não quero ficar ouvindo o som da minha própria voz a repetir um pedido de ajuda. Eu não tô precisando de S.O.S., tô é precisando de paz.

Sem compromisso

Por Vanessa Henriques

Hoje é dia 11, e eu ainda não tenho uma agenda de 2019. Eu tentei, eu juro, mas está complicado. Eu tenho alguns requisitos, confesso, mas não acho que sejam inatingíveis. Eu exijo que ela seja pequena, leve, e que tenha um espacinho para cada dia. Fora, isso, tudo vale, nem preço baixo mais eu tô exigindo.  

Em um momento de desespero, pensei em adquirir uma agenda gigante do ursinho Pooh (ex-Puff), que pesaria uns 3kg a mais na minha bolsa, mas me controlei. Em um impulso contrário, quase comprei no camelô uma agenda universal com uma capa de couro vagabunda e um ‘Agenda’ em dourado berrante na capa. Consegui resistir.

Aí eu fui ser digital, moderna. Já ando com a porcaria do celular na mão o dia todo mesmo, que diferença faz? Já que o Google já sabe tudo da minha vida mesmo, o que custa dizer para ele qual o horário da minha depilação na virilha? O problema é que só tenho dois modos: ou eu esqueço de olhar a agenda eletrônica, ou eu me irrito com os horários aleatórios que ela resolve apitar para me avisar de algum compromisso.

Lembra das papelarias? Aqueles lugares organizados, coloridos, um sonho de infância, com cheiro de papel e de borrachas de plástico (aquelas japonesas, que não borram nada e dão uma dó danada de usar). Elas estão cada vez mais raras. Muitas faliram, outras diminuíram, e o fato é que de cada 5 visitas à papelaria, 4 são malsucedidas.

Vamos então aos lugares que faliram as papelarias: lojas enormes de departamento ou papelarias desproporcionais — na qual não há um balcão com um tiozinho simpático que vende lápis separadamente e ainda embrulha em papel rosado. Há todas as versões da agenda do ursinho Pooh (com glitter, com adesivos, com cheiro de mel), e nada mais simples que isso. Era só um caderninho, pessoal. Não era para ser tão difícil.

O algoritmo do Google, que já sacou que eu tô procurando uma agenda para comprar, me sugere o “método bullet journal”. Percebo que todos à minha volta faziam BuJo (pros íntimos), e só eu não sabia. O método seria usado para “acompanhar o passado, organizar o presente e planejar o futuro”, e só exigiria um caderno e uma caneta. Seria minha salvação?

Não exatamente. Descobri que o método é um pouco mais complicado que isso, e a coisa do papel e caneta não condiz com as imagens: cadernos afrescurados, com uma caligrafia saída de lousa de cafeteria hipster, cheio de listas de tarefas, metas a serem cumpridas no dia, mês, ano. Olha, a época de resoluções de Ano Novo já foi, e não tô atrás de mais assunto para a terapia não, obrigada. Era só um lugar para anotar o horário do pilates.

Por isso peço a todos encarecidamente que não me chamem para nenhum aniversário, almoço ou batizado, não me peçam para ajudar na mudança ou para ir conhecer a casa nova e, principalmente, não me recordem que eu preciso marcar dentista, ginecologista e pedicure. É provisório. Eu acho. Nos falamos em dezembro — se eu me lembrar.  

S = S0 + vt

Por Vanessa Henriques

Tirei o fim de semana para estudar Física. Sim, aquela mesma, a matéria odiada por 9 em cada 10 alunos, cheia de corpos se movendo a velocidades constantes, com ou sem atrito, liberando uma energia calculada em Joules (ou qualquer dia no metrô da linha vermelha).

A última vez que encarei esse desafio foi em 2006, enquanto estudava para o vestibular. Lá se vão 12 anos sem me deparar com as leis de Newton. Minha vida mudou muito nesse período, mas eu ainda tenho dificuldade de entender o que puxa a maçã da macieira para o chão.

Eu não aprendi a gostar de Física, então ela se tornou uma barreira. Foi, de longe, a coisa que mais estudei no ensino médio, dada a minha óbvia dificuldade. Ela roubou meu tempo de estudo de História, Geografia e Português, matérias com as quais sempre tive mais afinidade. Ela me fez perder muitas tardes resolvendo exercícios quase impossíveis de vetores e polias.

Até que, a partir de 2007, a Física saiu da minha vida para nunca mais voltar. Tive que ocupar esse espaço desagradável com outros afazeres (trabalhar, passar roupa, ir para a academia, passar mais de 1 hora no metrô todo dia e… esta lista não tem fim). Olhando assim, não me parece que fosse tão ruim gastar um tempo calculando o calor específico da água.

A partir do momento que fiz uma escolha (olá, Humanas), boa parte deste conhecimento escolar ficou para trás. Ou, ao menos, adormecido, como um esporo (contei que também estudei Biologia?).

Você deve estar se perguntando o motivo de tudo isso. Bem, lá vamos nós em mais uma aventura em busca de realização profissional®, que exige voltar para trás para ir para frente. Mas eu sinto que estou indo mais é pela tangente mesmo, da qual eu não faço ideia como calcular o cosseno.

As portas que a escola parecia abrir foram se fechando ao longo dos anos, nenhuma novidade nisso. Virou mais é uma porta dos desesperados, com alguns monstros saindo detrás delas, outras com alguns prêmios bestas como recompensa (“Playstation! Playstation!”). Saudade desse tempo em que tudo parecia possível, as consequências não eram pesadas em balança de precisão milimétrica e o risco não era calculado em ábaco.

A equação desbalanceou, ainda que eu saiba que a mesma massa que entra é a que sai. Eu devo ser ainda a mesma, transfigurada após alguns reagentes que corroeram minhas expectativas mas com o bônus de ter ganhado experiência (com a liberação de água pelo canal lacrimal, mas isso é praxe).

De que adiantaria ser adolescente sabendo tudo que te espera pela frente? De que vale ser adulto sem criar as mesmas expectativas juvenis a cada novo ciclo? O distanciamento histórico não garante análise fria, nem nos livra de ser anacrônicos.

Ao menos uma constante permanece inalterada nas condições normais de temperatura e pressão: a redação ainda é a parte mais fácil de qualquer prova que venha pela frente.

Entre seda e cropped

Por Vanessa Henriques

Este ano faço 30 anos. Longe de começar aqui a desfiar o rosário esperado das balzaquianas, com direito a choros, frustrações e saídas hollywoodianas para beber até cair. Mas também não vou ser hipócrita e dizer que não há nenhuma reflexão na minha cabeça neste momento, que esta seria apenas uma primavera como todas as outras. Não cola.

Comecemos por um tópico mais leve. Atingir os 30 (e mesmo antes disso) implica em uma dificuldade prática de comprar roupas. Você se vê ali na loja de departamento espremida entre a parte de “jovens” — roupas coloridas, blusas cropped (que mostram a barriga), vestidos curtos — e a de “mães de escritório” —  camisas de seda, saias em ‘A’, casaquinhos de lã. Mas você não se identifica com nenhuma das duas coisas…

Aí começa a diversão. Para quem vê o copo meio cheio, você pode pular entre os dois galhos e escolher, antropofagicamente, aquilo que lhe agrada, descartando o que não dá mais (ou não dá ainda). Para os mais pessimistas, isso significa estar sempre fora do que é estabelecido e esperado para sua idade.

Agora embarcamos nas discussões mais profundas. Eu tenho uma mania, obsessão alguns diriam, de pensar sobre isso. Gasto mais tempo do que deveria fazendo conjecturas, projetando um futuro distante, sofrendo com o presente imediato, culpando o passado pelos sufocos. É um exercício que me acompanhou nestas quase três décadas e que não tem dado mostras de que vai sumir nos próximos anos.

Nesta toada, acabo levando amigos para as mesmas discussões, que geralmente levam a conclusões parecidas. “O trabalho está ruim, os chefes são limitados, o salário não é aquela coisa”. Eu sei. “Aquele projeto de mestrado tá na gaveta, pensei em virar youtuber, desisti, resolvi começar uma horta”. Eu também. “Quero ter filhos, mas não agora, mas também não muito depois, entende?” Entendo. “Não aguento mais a pressão para fazer algo incrível, extraordinário, quando na verdade eu não sou tudo isso que eu pensava.” Ô se sei.

Há muitas reflexões a se fazer e, sem cuidado, podemos ficar soterrados nelas sem conseguir partir para a ação. Aliás, precisa ter ação? Uma amiga comentou outro dia, em meio a uma série de emails desencontrados sobre projetos começados, largados e imaginados: “Será que a gente tem sempre que fazer coisas? Não se pode ter uma existência normal no mundo?”.

Lógico que ninguém precisa fazer nada. Mas também não sei mais dizer o que seria a existência “normal” dos balzaquianos. Estabilidade no emprego, bater ponto, viajar uma vez por ano, casa e consórcio de carro, tudo isso ficou para trás. Trabalhar com o que gosta, de casa, se render ao trabalho 24 horas e à instabilidade, sem convênio, sem SUS. Também não era para ser por aí.

Então vamos tentando o caminho do meio: checamos os emails do trabalho no celular, mas não sempre, ainda queremos carteira assinada, casa própria já desistimos, viagens são necessárias e devem ser publicizadas nas redes sociais, estamos cansados, não aprendemos a ser adultos, ninguém disse que seria tão difícil (mas será que era fácil antes?). Difícil conjugar a imagem dos nossos pais aos 30 anos com o que estamos vivendo na prática. As peças desse quebra-cabeça estão por todos os lados da sala, algumas embaixo do sofá e outras na barriga do cachorro. Não vai encaixar.

Por muito tempo achei que o que estamos vivendo é excepcional — e de alguma forma, é mesmo. Geração entre o analógico e o digital, já fomos promessa, hoje já somos uma pecinha incômoda no caminho dos verdadeiros precursores, que já vêm vindo, quebrando indústrias e criando novas necessidades.

Mas será que há algo de tão especial conosco? Ou isso também foi um grande mal entendido? Outras gerações já foram massacradas por nós antes. É só a nossa vez. Vida adulta é um saco, e a gente sabia, sim, só evitamos ao máximo pensar nela, até que não teve mais jeito. Não somos melhores que nossos pais, como quisemos (queremos?) acreditar. Só somos subsequentes.

Queremos demais? Mas deveríamos querer de menos? A resposta nunca será absoluta. Não dá mais para pensar de forma binária, mas sofremos para achar uma categoria que nos caiba em meio a tanta fragmentação.

O que espero para os trinta é que eu consiga andar pelos caminhos como quem anda por uma loja de roupas, à procura do que me agrada, independentemente da categoria que pertença. A maturidade, ainda bem, já está na sacola.

Do que não falei, do que esqueci, do que perdi

Por Vanessa Henriques

Vocês devem ter percebido (digam que perceberam!!) que tenho tentado voltar ao ritmo de escrita desde que postei aquele vídeo do aniversário do blog. Este texto era para ter vindo logo na sequência, ou até antes, mas acabei me embolando sozinha com compromissos pré-férias e viagens. Eis que ele veio.

Todo mês de junho tem tom de dilema. Sempre lembro, lá pro meio do mês, que o blog completa X anos e meu deeeus eu preciso fazer algo sobre isso. Ou não preciso? – afinal, não posto faz meses. Ainda faz sentido manter o blog? Virou só obrigação (e, ainda por cima, obrigação não cumprida)?

Os anos passam e a dúvida continua. Embalada por algumas conversas da terapia, decidi dar mais uma chance para esse blog surrado. Entrei no painel do wordpress e comecei a reler comentários. Tinha bastante coisa boa ali: confissões profundas e engraçadas, pedidos por mais textos, ranking de identificação…

Tinham comentários emocionados sobre textos que eu nem lembrava de ter escrito. [Mari Kondo que me perdoe, mas avancei pro estágio proibido e comecei a ler os textos antigos no meio desse processo de quase-arrumação de casa.] Tinha coisa boa ali, agradável, que eu gostei de reler.

E quanto mais eu fuçava, menos motivos sobravam para deixar de postar aqui. Deu uma saudade de mim, de outros tempos de vida que eu já tinha me esquecido que existiram. Eu escrevia bonito. Eu escrevia poesia. Eu escrevia quase toda semana. Quanta coisa mudou.

Ninguém sabe apontar o momento certo que, opa, tudo mudou. É impossível. Mas sempre restam pistas. Durante esses seis anos de Croniquices, eu passei por quatro empregos, mudei de casa, viajei muito, fiz novos amigos, perdi alguns. Vivi também experiências que me fizeram questionar a minha escrita, algo que compartilhei com poucas pessoas.

No início de 2016 fui aceita no Clipe (curso de escrita de literária oferecido pela Casa das Rosas) e passei no trainee da Folha. Parecia que agora tudo ia deslanchar com relação à escrita, certo? Mas a verdade é que tudo isso me colocou numa baita insegurança.

No curso, eu não tinha uma escrita profunda, atropelada, cheia de metáforas, miniconto ou o quer que seja. Não tinha lido os clássicos e nem conhecia as promessas. Na Folha, eu não tinha o tino de repórter, o texto seco, desidratado de conjunções e de clichês. E eu não sabia o que eu tinha, pra melhorar a situação. Ao invés de aproveitar o que aprendi e me aprimorar, acabei ficando vazia depois dessas experiências. A canoa virou.

E escrever ficou cada vez mais difícil. Estava assombrada pela concorrência, desestimulada, perdida. Nem me dava mais ao trabalho de inserir um “escrever crônica” na minha lista semanal. Quando a inspiração vinha, eu batia um texto sem vontade e publicava, para cobrir os buracos de meses sem publicação.

Eis que depois de tudo isso, eu leio um texto lindo sobre a chuva:

[a chuva] só queria cair do céu, aliviada depois de um dia abafado, penetrar na terra, quem sabe ir parar num lençol. Nós atrapalhamos também o caminho dela, mas ela não se vinga de nós. Continua caindo, incólume, sob nossas cabeças.

As andorinhas, ao contrário, dançam e brincam, recepcionando a chuva que decidiu cair impiedosa. Molham as penas sem dó, sem pensar no estrago do dia seguinte. Enquanto há chuva, há motivos para furá-la com voos rasantes.

Gosto de pensar que a chuva, assim como nós, tem humor. (…) Somos impermeáveis à água, mas permeáveis às sensações. Qual o humor da chuva de hoje?

Fui eu que escrevi isso, lá nos idos de 2013. Nos últimos anos, não fui capaz de escrever nada nesta linha. Porque eu esqueci da chuva, perdi a habilidade de olhar para ela e acho tudo que foi escrito sobre a chuva é melhor do que eu possa fazer. Cronista impermeável não serve de nada.

E agora, o que resta? A lembrança de tempos melhores e um objetivo. Voltar para trás para ir em frente. Mais um ano para continuar tentando. Falemos em junho.

Enquanto há chuva, há motivos para furá-la com voos rasantes (Foto: Carlos Oliveira)

É HEXA!

Queridos leitores,

Junho é mês de comemoração neste blog! Na marca do pênalti e em clima de Copa vem a comemoração do hexa, digo, dos 6 anos do Croniquices!

Resolvi atacar de youtuber por uma boa causa. É que eu achei que tava passando vergonha demais sozinha aqui e queria companhia 🙂

Graças aos seus comentários tenho muita munição para colocá-los em maus lençóis… ou, ao menos, um material para dar algumas risadas!

Sem mais enrolação, vamos ao prato principal:

Deixem seus comentários, por favor, pois estou curiosa para lê-los!

Obrigada pela companhia de sempre.

Abraço,

Vanessa