Bytes bandidos

Por Vanessa Henriques

Essa crônica demorou uma meia hora para começar a ser escrita. Não que seja um recorde, elas geralmente ficam passeando pela minha cabeça por bem mais tempo que isso. Mas a partir do momento que eu pensei “hum, vou sentar e escrever”, já se passaram 34 minutos.

Tudo isso aconteceu porque meu computador, esse ser eletrônico e inanimado, tem muitos sentimentos. Confesso que não ia sentar para escrever sobre isso, mas ele se impôs. E achei também que poderia ser uma homenagem justa a quem já me acompanha há mais de 4 declarações de imposto de renda, um casamento, anos de crônicas e uma monografia.

Meu computador, essa belezinha feita pela Hewlett-Packard, também tem sentimentos. Vivo uma vida poligâmica: passo mais de 8 horas na frente do computador do trabalho. Tenho um celular. Meu marido tem um tablet (e um celular com o jogo da cobrinha… vai entender) e outro notebook. Isso significa dizer que não nos encontramos muito – ele é o amante nº 4 da minha lista de romance eletrônico.

Mas como um bom e fiel companheiro, ele quer que eu o ligue, batuque nas suas teclas com delicadeza, talvez o conecte na fonte, para dar uma esquentada no nosso relacionamento. E eu, indiferente, passo dias, às vezes semanas, sem nem tirar o pó de suas entranhas. Ele vai se enterrando no fim de uma lista de papeis até que eu me lembre (leia-se precise) de sua existência.

E quando eu me lembro, bem, é preciso fazer um agrado ao amante ferido. Ele não liga – eu conecto o cabo da fonte. Ele demora, diz que tem configurações para atualizar – eu espero paciente. Ele congela na foto de um peixe estranho – e não naquela da montanha que eu gosto mais. Tudo bem. Não carrega os ícones dos programas que quero usar, mas eu relevo, afinal sei onde eles ficam normalmente.

E aí, passada meia hora de reconciliação, lá estamos nós aqui novamente. Olho para a área de trabalho, e vejo o acúmulo desordenado de pastas e arquivos (que podem bem ser uma metáfora de como anda a minha existência). Faz realmente muito tempo que não paro para organizar “a vida”: os comprovantes de aluguel perdidos em pastas sem sentido (foram enviados para a imobiliária?). As fotos que estão na máquina, no HD externo e aqui, por um desnecessário pavor de perdê-las – e sem nunca parar para revê-las. Um arquivo chamado “carinha Aziz.jpeg”, com um recorte da cara do Aziz Ab’Saber para usar em convites de festinhas (piada de geógrafos e de seus cônjuges, perdão).

Só de olhar para esta bagunça dá um pequeno desespero. Por isso que o celular, muito esperto, não permite salvar um arquivo na área de trabalho. Ou mandar WhatsApp para você mesmo. Ele sabe que se o seu celular ficar que nem o seu notebook, você também vai deixá-lo num canto da casa para acumular poeira.

carinha aziz.jpeg

Vamos combinar uma coisa, meu querido computador: assim como te dói a minha ausência, também me dói a sua presença caótica, me lembrando de todos os projetos começados e jamais terminados. Eu preciso desse tempo e dos meus outros parceiros tecnológicos para ir tocando a vida. Mas também preciso voltar para você, ainda que depois de um tempo longo, para lembrar do que ficou pela metade.

Tal qual amante arrependido, eu volto para ele implorando perdão, fazendo juras de fidelidade e promessas de “botar a vida nos eixos”. Ele acredita, me aquece o colinho, se deixa batucar suas teclinhas, posterga as atualizações. Um pouco depois que desligo seu botão, a coisa esfria.

 

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À procura dos gigas perdidos

Por Vanessa Henriques

Ultimamente tenho andado preocupada com meu tamanho – e não me refiro aqui à minha silhueta nem à minha altura (esta, não tem jeito). É o meu tamanho digital que anda dando dor de cabeça.

Estou sofrendo de falência múltipla de plataformas: atingi, de uma só vez, meu limite de espaço de armazenamento do celular, do e-mail e da nuvem. Dá para desconfiar de uma conspiração das grandes corporações, claro, mas eu também sou displicente no uso das minhas gavetas digitais.

O celular está mais fácil de resolver, creio eu. Basta apagar alguns memes (apaixonada pelo canarinho pistola, confesso) e fotos inúteis recebidas pelo celular – “olha, tô mandando uma foto da minha frieira!”. E não baixar mais aplicativos de jornais.

Os outros dois está mais complicado. Eu nunca criei o hábito de apagar meus e-mails, já que o Google sempre me prometeu mais espaço. Cada vez que chegava próximo ao limite, ele anunciava que eu havia ganhado mais alguns gigas de presente.

Diante desta abundância, quem vai se ligar que não é muito bom não apagar todos os e-mails do Peixe Urbano? Ou os milhões de e-mails para mim mesma, com links para ler depois, ideias desconexas de crônicas ou lembretes como COMPRAR PÃO?

E a nuvem? Ela surgiu para resolver os problemas desta vida de hardware que sempre levamos. Esqueça disquete, memória RAM, pendrive ou HD externo. Coloque na nuvem. Ainda por cima era lúdica, a desgraçada. Não é lindo imaginar todos os seus arquivos felizes, numa nuvem de dados, talvez banhados por um arco-íris?

É lindo, só faltou lembrar que neste céu Deus é onipresente e está de olho em todas as saliências das suas nuvenzinhas, um ótimo produto para vender ao Diabo. “Psiu, ela gosta de viajar. Oferece promoção de passagem para ela, é batata”. Além disso, a vista do céu é privilegiada e a especulação imobiliária está bombando. Logo, vamos começar a pagar pelo seu pedacinho de paraíso, que eu te dou uns gigazinhos de lambuja.

E para piorar, eu sei que esses não são os únicos lugares no qual salvamos todas as nossas tralhas digitais. Tem o computador de casa. Os vários pendrives espalhados por gavetas. O HD externo com backups de computadores que nem tenho mais. As fotos, meu Deus, as fotos. Estão na máquina fotográfica, no celular e espalhadas por pastas em todos os cantos.

É preciso reunir. Eu adoro uma arrumação de armário, mas devo dizer que a arrumação digital não me anima muito. Sei que levarei dias para juntar todos os arquivos num único lugar. Nem sei se vou conseguir, mas o que importa é a sensação de que estou no controle da minha vida virtual (não estou, claramente).

Eis que chega o momento de decidir. Apelo para a tangibilidade dos arquivos físicos? Ou pela praticidade da nuvem? Vendo minha vida para a Google ou para a Microsoft? É fato que o Bill Gates já está com a minha vida há mais tempo. Mas o Google nunca me fez chorar porque o computador não colaborou, a impressora pifou, e a atualização do Windows travou o notebook. Ele só vendeu meus dados sem minha permissão (ou com, quem lê as letras miúdas?), mas quem não fez isso nos últimos tempos?

O páreo foi duro, mas acabei comprando um HD externo de 2 terabytes — o novo prefixo me deu um certo conforto. Não é etéreo, mas é bonitinho e bem mais leve que uma gaveta real cheia de fotos, arquivos, livros e outras tralhas digitais. Resta saber se minha vida é deste tamanho ou se vou ter que encarar um regime.