Pelo cano


“Nunca me acertei bem com os padres, os críticos e os canudinhos de refresco”

Mario Quintana

Por Vanessa Henriques

Sei que estou atrasada, mas não gostaria de me furtar à grande questão que anda chacoalhando esse século 21. Não me refiro à ascensão da direita, à insatisfação dos millennials ou ao surrupio de todos os direitos trabalhistas e previdenciários conhecidos. Falo, claro, do canudo de plástico.

Para quem esteve em Marte nos últimos meses, resumo. Os canudos plásticos foram condenados no tribunal ambiental como o lixo plástico mais danoso dos sete mares. Seriam responsáveis por toda a porcaria que vemos boiando em cursos d’água por aí e — a acusação mais grave — seriam potenciais assassinos de tartarugas.

Eu sempre achei canudo uma grande inutilidade. Sua maior função, para mim, é agir como mexedor de sucos mais espumosos (como de abacaxi). É um capricho tolo e sem sentido na maior parte do tempo. Mas daí a condenar o canudo como o principal (e único!) culpado de todos os crimes ambientais é demais para mim.

Só que não precisamos apelar à razão para entrar nesse debate. Basta pensar na natureza da humanidade — porca e preguiçosa — e já teremos uma ideia dos rumos da coisa.

Há muitas pessoas que amam canudos, não conseguem abrir mão deles. Tudo bem. Elas podem optar por canudos de inox, de uso pessoal e intransferível, acompanhado por um charmoso estojo e uma escova para higienizá-lo.

Parece ótimo, um canudo individual, lavável, que você leva contigo, dura a vida toda, sem contraindicação. Exceto que é um canudo individual, que depende unicamente de você para ficar limpo e disponível para novos bebericos.

Pensa só: você vai a um convescote, pede um suco de laranja, tira seu canudo inox do estojo, vira sensação entre os comensais. Pega um guardanapo, dá uma secada no canudo, e joga na bolsa. Daqui a uns dias, você vai na feira e bate aquela vontade de tomar um caldo de cana. É óbvio que você não se lembrou de tirar o canudo da bolsa. Ele está lá, com resquícios de baba e suco de laranja. Você pensa: “é tudo meu mesmo!” e vai adiante.

Repita a operação quantas vezes for necessário até tomar vergonha na cara e lavar o canudo — e não pode esquecer de deixar secando e colocar de volta na bolsa.

Meu ponto é muito simples: o ser humano não tem maturidade para cuidar do canudo próprio. Nossas casas estão cheias de coisas a fazer, as bolsas lotadas de comprovantes de débito e a nossa mente cheia de problemas (lembra da previdência?). Quem quer adicionar à sua lista de pendências a obrigação de lavar um canudo com uma escovinha?

Restam então algumas opções. A tendência natural, que já podemos ver por aí, é começar a acreditar nos canudos de papel, biodegradáveis, feitos de casca de mamão, que se decompõem antes mesmo do garçom chegar à lixeira (depois você se explica sobre os eucaliptais).

Mas eu tenho uma sugestão para salvar o canudo de inox. A única motivação de um adulto saudável é transformar um ato rotineiro e extremamente desagradável em um stories no Instagram. Influencers de limpeza de canudos precisam começar a trabalhar já pela glamourização da escovinha. Aguardo ansiosa pelas lives na pia da cozinha mostrando o melhor detergente biodegradável para a função.

Só assim as tartarugas terão alguma chance. Aí só vão precisar desviar das garrafas PET, do esgoto, da espuma e todas as outras delícias que moram no mar.

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Aquecida e repetitiva

Por Vanessa Henriques

Manhã fria, vó doente, e lá vai a neta levá-la no hospital. Saí cedo, de café tomado e olho meio aberto, colocando o primeiro casaco que encontrei. Vento frio na rua, ‘precisava de um cachecol’ pensei, já dobrando a esquina e sem chance de voltar para casa.

Lógico que a minha vó percebeu logo de cara que eu estava desagasalhada. Aliás, sempre estamos desagasalhadas ao olhar das mães, avós, bisas, etc. Às vezes é exagero, às vezes é verdade — neste caso, era verdade.

Ela sacou um cachecol mostarda do armário e intimou: “coloca que tá frio”. A cor chamou logo a atenção, mas eu estava com muito sono e frio para negar. Mas ficou a dúvida: por que diabos ela tricotou um cachecol dessa cor?

Na volta para casa, ela insistiu que eu ficasse com ele. Levei sem relutar, ainda que fizesse mais de 25ºC e eu não estivesse com frio nenhum. No dia seguinte fez mais frio ainda, e a nova intimação veio por telefone: leva o meu cachecol. Sabe como é praga de vó, melhor não contrariar…

Eis que o cachecol caiu nas minhas graças. Ele combinava com todas as minhas roupas (estranhamente tenho muitas roupas azuis, e mostarda combina com isso), e era de fato muito quentinho. Usei ele algumas vezes até devolver à dona, que só aceitou porque a temperatura já superava os 30ºC.

Já tinha percebido há algum tempo que eu já tenho pares pré-combinados de roupa: esta camisa com aquela calça; este sapato com este vestido; e até mesmo este batom com esta blusa. Podem até ser boas combinações, mas jamais as únicas.

Por comodidade, preguiça e talvez até falta de criatividade, percebi que usava sempre as mesmas combinações — e sei que não estou sozinha nessa. Por que será que é tão difícil sair do piloto automático? Estão faltando mais cachecóis mostarda nessa vida besta.

Inspirada pelo episódio, comecei a tricotar um cachecol para mim. Talvez já seja verão quando ficar pronto — se depender da minha boa vontade e habilidade. E a cor não é tão moderna assim. Sabe como é, vó, nem todo mundo é tão pra frente quanto você.