Refúgio na semana

Por Vanessa Henriques

Tive uma grata surpresa nas últimas semanas. Um colega veio me oferecer, de troça, um exemplar do novo livro de crônicas da Miriam Leitão, Refúgio no sábado. Sim, ela mesma, a jornalista, sempre na TV falando de economia, queria (e conseguiu) ser cronista.

Para surpresa dele e de outros que me questionaram, aceitei o desafio. Não tenho nada contra Miriam, mas também não acompanho suas análises. Sabia do seu passado com a ditadura. Nada muito além.

Em duas semanas, descobri que Miriam é mineira, mas foi para Vitória para ser cronista. Antes, virou jornalista, e tem mil histórias para contar, na ditadura e na democracia. Que ela tem uma reserva reflorestada de onde avista e lista passarinhos e outros animais. Que ela gosta do Drummond. E que, aos sábados, ela escreve crônicas.

Eu, muito diferente da Miriam, quase não me lembro de ter escrito aos sábados. Como ela mesmo diz, sábados são a transição entre a semana que foi e a que virá, e têm esse clima de proveito máximo. Costumo acordar já pensando na programação do dia, onde irei, o que precisa ser feito na casa, quem vou encontrar.

Sábado é dia de botar em prática o que a semana não permitiu. Um corte de cabelo, a limpeza da casa, passar roupa, a organização do escritório, visitar a avó. Vislumbro neste dia o que gostaria de ter durante a semana: mais tempo para mim e para quem eu amo. Menos metrô lotado, menos cansaço de fim de dia, mais disposição para cumprir estas outras tarefas, que são necessárias mas também não são de todo ruim.

E o dia de descanso? Bem… fica para o domingo. Que também é dia de fazer o que não deu tempo na semana e no sábado. Dia de feira. Dia de missa. Os dias estão completamente lotados. Pouco tempo para não fazer nada. Muita culpa para não fazer nada.

Onde vão se esconder as crônicas, então? É preciso uma mente relativamente vazia para arquitetá-las. É preciso essa paz dos sábados da Miriam Leitão, de frente para os passarinhos, com o cansaço da semana mas a certeza do descanso dali em diante.

Na falta desse cenário, elas se espreitam no ônibus, numa conversa rápida de WhatsApp, na troca de emails durante o expediente, no trajeto de todo dia, que sempre tem algo diferente. Vão sendo gestadas a conta-gotas, no pouco de tempo que resta para devaneios. E são escritas também na pressa. Mas são escritas.

Quando crescer, quero ser cronista com a calma da Miriam Leitão. Enquanto não cresço, me viro do meu jeito, e admiro quem já chegou lá.

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Sem lenço, com documento

Por Vanessa Henriques

“Primeiramente de tudo, uma boa tarde a todos!”. E assim começa mais uma viagem alucinante no metrô de São Paulo. Há comércio variado nesta terra de trabalhadores: amendoins (na validade!), fones de ouvido (testa na hora), lente olho de peixe (pra não cortar ninguém na selfie) e, não menos importante, os queridos porta-documentos.

Quando vi o primeiro ambulante oferecendo porta-documentos, dei uma risada comigo mesma. Quem estaria chacoalhando no metrô, 6 horas da matina, e pararia para pensar: “caramba, não tenho um plastiquinho para o meu título eleitoral!!”.

É claro que eu estava errada. O comércio popular não falha e tem tino para os desequilíbrios de oferta e demanda. Já faz alguns meses que vejo consumidores satisfeitos adquirindo porta-documentos e encerrando uma vida desregrada.

Este é um produto que se vende sozinho. Só de ouvir o vendedor listar todos os documentos que temos que carregar por aí, o marketing está feito: RGCPFCNHTÍTULODEELEITORCERTIFICADODERESERVISTA.

E o comércio, assim como o metrô, não fica parado (só às vezes), e já evoluiu: hoje em dia é possível encontrar no shopping metrô “carteiras de couro sintético, costuradas por dentro e por fora, e com plásticos para você colocar todos os seus documentos”.

É a praticidade do porta-documento com a necessidade da carteira. É puro street style. E quem chama com R$5 não leva uma, mas duas! Preciso dizer que faz sucesso?

Há anos o metrô faz campanha contra o comércio ambulante. Mas o paulistano já se apegou demais a ele para denunciá-lo. Ele preza pela nossa fome, nosso entretenimento e, ultimamente, pelo nosso pertencimento cívico.

Tanto que outro dia ouvi um autoproclamado marreteiro pedindo dinheiro no vagão após o fiscal confiscar sua mercadoria. As pessoas contribuíram, complacentes, aguardando o retorno do pai de família ao vagão com novos produtos.

O porta-documento tem a vantagem de ser facilmente escondido do “rapa”: é leve, discreto, e cabe no bolso — o que já é uma propaganda do produto. O sucesso de vendas é garantido.

Só tem um probleminha. A TV do metrô anunciava, em letras garrafais: “Brasil terá documento único eletrônico até julho de 2018”.

Tudo bem, se tudo der errado, sempre nos restarão os amendoins.

 

 

 

 

 

O telefone tocou novamente

Por Vanessa Henriques

Turururururu… Turururururu…

Um dia, foi no metrô. O barulhinho abafado só podia vir do celular jogado na mochila. Fiz uma manobra ousada no vagão cheio para descobrir que não era o meu celular, e sim de uma moça sentada logo ali.

Turururururu… Turururururu…

Esse dia foi na rua, já voltando para casa. Rua relativamente vazia, hora avançada, podia ser minha mãe perguntando se eu tinha sido sequestrada (ela recebe telefonemas semanais do tipo), melhor olhar. Manobra da mochila, vasculho o bolso, e o barulho para. Era do segurança do prédio.

Turururururu… Turururururu…

Aquela outra vez foi no ônibus, dia de chuva, encostada-quase-caindo na sanfona. Já calejada, deixei tocar, se esgoelar. Devia de ser o celular do ambulante, ou do cobrador, ou minha mãe retornando pro ladrão com o dinheiro do meu resgate. Parou.

Toda a trama cheira ao clássico Pedrinho e o Lobo: um dia realmente será o meu celular a chacoalhar no bolso, com uma irrecusável proposta de emprego, um prêmio de promoção de supermercado ou quem sabe uma herança esquecida. Deixarei passar sem dó, com a bênção da ignorância.

Mas o que me irrita não é o infortúnio da ligação perdida ou a cara de besta de perceber que ninguém te ama, ninguém te quer (a parte de comer barata é opcional). O que incomoda é pensar que nos tornamos seres que andam com as mesmas duas marcas de celular no bolso — e a Apple e a Samsung claramente não ligam muito para toques de celular.

Nem sempre foi assim: num passado não muito longínquo toque de celular bacana era aquele ritmado, com a música do momento na sua versão polifônica. O ringtone foi sucesso absoluto e coroava a modernidade junto com o flip, a tela colorida e o fim das antenas.

Operadoras ofereciam ringtones variados, saídos das paradas do rádio. Eu mesma me lembro de ter instalado um toque da música do Queen (it´s a kind of magiiiic) que me acompanhou por um bom tempo. Havia um problema, como em toda tecnologia de ponta: as músicas demoram muito para chegar a um ponto conhecido (geralmente o refrão), e muitas vezes ninguém reconhecia seu ringtone escolhido com tanto esforço.

Mas havia o mais importante: diversidade. Por mais que muita gente gostasse da Ivete Sangalo, teria toda uma discografia para escolher. Hoje todos ouvimos a mesma música da Ivete (e uma mais ou menos, não exatamente um hit).

Por ora, decidi fazer uma intoxicação forçada: deixo o celular no silencioso, assim não corro mais o risco de ser enganada. Criei um código com minha mãe para quando o sequestro for real. Prefiro um celular mudo a um sem personalidade nenhuma! — brado com meu Samsung Android com capinha do Mickey na mão.

A volta

Por Vanessa Henriques

Era um dia qualquer, de cansaço qualquer, demora do ônibus qualquer, de só unzinho assento qualquer. Mas a companhia não era qualquer uma. Do meu futuro lado, meio risonho, meio malandro, um velhinho se acomodava confortavelmente ao lado da janela.

Acenei em respeito na hora que sentei, e ele assentiu de volta, como que divertido pela minha presença. O ônibus demorou a sair, mas saiu. Ao primeiro sinal de trânsito, o velhinho sacou um pacotão de bolacha da mochila.

Wafer, recheio triplo, e eu voltando do trabalho esfomeada. Ele me ofereceu gentil: quer uma? Eu sorri, mas recusei educadamente. Queria muito uma bolacha, muito mesmo, mas achei estranho aceitar (por que mesmo??).

Num solavanco lá se foi a bolacha, que parou nos meus pés. Que desperdício, pensei. Nada abalava o humor da criatura. Deu uma chutadinha de leve com os pés, sorriu malandramente e falou: opa, caiu.

O caminho era curto, mas hoje estava mais longo. Chuva, frio, e mais nada de novo no celular. As bolachas tinham acabado, e eu não tinha nenhum livro na bolsa pra me distrair.

Mas meu companheiro tinha um livro, e sacou com vontade da mochila, não resisti e passei o olho no título, em letras garrafais:  SEXO COMEÇA NA COZINHA.

Desviei rápido o olhar, na esperança de que ele não tivesse percebido minha bisbilhotice, mas ele pareceu gostar da situação, e não arrancou o sorriso largado do rosto. Dei sinal e fui embora, não sem antes lhe desejar uma boa viagem (em pensamento, claro).

A curiosidade, essa não foi embora. Mais tarde procurei o livro na internet, já criando na minha cabeça um velhinho sabedor das artes do kama sutra culinário. Quem sabe eu também aprendesse algo novo?

A busca retornou logo no primeiro resultado: best seller à venda na livraria mundo cristão. Eita. Será isso mesmo? A sinopse entregou:

Por que o sexo começa na cozinha? Kevin Leman pretende responder a essa questão levando o casal a rever sua postura e mostrando por meio de situações do cotidiano como o relacionamento do casal, ainda que em condições críticas, pode sofrer profundas transformações quando marido e esposa sintonizam suas atitudes através do compromisso de renovar o comportamento. O autor busca mostrar que é nas pequenas atitudes que a se confere se a pessoa que está ao lado compartilha dos sentimentos e pensamentos mais íntimos.

Um pouco decepcionada, fechei a busca. Aquele sorriso não me enganava, mas talvez o velhinho fosse muito bem casado e estivesse tentando melhorar a convivência com a patroa. Ou só tivesse pregando peças em passageiros como eu. Vai saber.

O que importa é que graças à ele me deu uma vontade danada de contar esse causo, depois de tanto tempo enferrujada. Se o sexo começa na cozinha, a crônica começa no ônibus. Olhares atentos, o próximo já vem vindo.

Kryptonita

Por Vanessa Henriques

Todo usuário de transporte público é um heroi. Não que ele saia por aí de capa (só faltava!), mas é imprescindível desenvolver certas habilidades para sobreviver aos combates diários nos combalidos coletivos.

A luta começa já na rua, antes mesmo de entrar. O ônibus faz seu caminho lentamente, o letreiro se aproxima como um bat-sinal, com letras totalmente irreconhecíveis. Os outros passageiros já se agitam: uns bufam por não ser o seu, outros já se acotovelam na ponta do ponto. Será possível que eles conseguem ler?

Em geral, não. Mas nem sempre é preciso: alguns ônibus possuem letreiros antigos, sem luz, outros com luzes mais amareladas, outros com aquelas bastante brancas. Em comum, o fato de que nem com visão de alto alcance ser possível enxergá-los. Resta apelar pras cores dos ônibus, os modelos dos letreiros, os passageiros conhecidos, e até mesmo para o número de sílabas: “Duas palavras, certeza que é Terminal Bandeira”. “Esse é picadinho, fácil, Term. Pq.  D. Pedro II”.

Não pense que a jornada começa aí, é preciso um teste antes. Reconheceu o letreiro? Agora há que pegá-lo. Quem nunca saiu em disparada em meio aos pedestres, tal qual Flash atrás do inimigo, acenando para que o motorista te espere? Com pernas treinadas e alguma sorte, é capaz que você consiga subir a bordo.

E não suba despreparado, ou vai ser rechaçado pelos companheiros de crime. Celular, bilhete único ou dinheiro (sempre trocado), tudo sempre à mão no cinto de utilidades. Resta agora encontrar um lugar, seja para sentar ou ficar de pé mesmo. Se for horário de pico, haja elasticidade para não atrapalhar ninguém, dar espaço para quem quer descer e ainda se segurar nas freadas mais bruscas.

Apesar dos pesares, a viagem sempre tem fim, e também um novo começo. Assim como Wolverine, o passageiro se renova, todos os dias, para uma nova jornada. Coloca seu traje a paisana e se mistura na multidão, que desconhece sua verdadeira identidade.

Linha cruzada

Por Vanessa Henriques

 

Trem lotado de manhã. Todo mundo se acotovelando na plataforma pra garantir um espacinho próximo da faixa amarela. Trem chega, maioria entra. Fecham as portas. Entre fones de ouvido e o barulho da rua abafado pelo ar condicionado, ouço uma voz lá do outro lado do vagão:

— Oi, que bom que vocês me ligaram, porque eu tô a semana toda tentando resolver isso e não consigo.

— …

— Então, o que acontece é o seguinte, vocês ficam me ligando para dizer que eu tenho uma fatura pendente, mas eu não tenho. Eu já fiz o pagamento, me mandaram duas faturas em fevereiro e eu paguei a de maior valor, conforme orientação da atendente.

Há quem disfarce, mas não tem como resistir a ouvir a conversa. Nenhuma conversa supera em volume a da moça e, agora, todos querem saber o desfecho. Aliás, quem nunca passou por isso? Ontem mesmo saiu a notícia: teles lideram reclamações no Procon. Vamos ver no que dá.

— …

— Mas moça, eu não tenho nada pendente, já falei até com outra atendente, eu tenho o protocolo, dizendo que eu não tinha nenhuma pendência com vocês!

— …

— Olha, eu não tenho culpa se o sistema de vocês não funciona e as coisas não se conversam.

O vagão grita em uníssono silêncio: ié!

Moça, resolve isso logo que minha estação é a próxima. Será que ela vai pedir pra falar na ouvidoria? Eu pediria! Palhaçada o que eles fazem com a gente.

Silêncio. Estaria ela na espera, ouvindo músicas dos anos 90 em alto e bom som? Ou teria terminado, sem sucesso, essa ligação, e receberia mais tarde uma correspondência em casa, ou mesmo multa na próxima conta?

O barulho dos carros abafa todo o som, e já sigo resignada, sem saber o que aconteceu. Teria ela ao menos anotado o número do protocolo..?

Próxima parada

Por Vanessa Henriques

Estação Consolação

            Pediu licença e sentou-se ao meu lado. Eu estava distraída observando as pessoas que entravam no vagão, quando notei uma agitação. Do meu lado, uma moça anotava rapidamente algo em um caderno, como se não pudesse deixar para amanhã.

                A curiosidade, minha antiga companheira, permitiu que eu desse uma espiadela. Era um diálogo, talvez um fragmento de uma conversa tida há pouco tempo. Senti uma empatia imediata.

Estação Trianon

                O trem avançava, e as anotações também. Tentava disfarçar, mas não conseguia evitar. Não que ela tenha percebido ou se incomodado, afinal estava totalmente empenhada em sua tarefa. Finalmente consegui ver, de relance, alguns fragmentos:

Ela me disse:

— Tá tudo tão líquido.

(…)

— Onda é líquido, mas bate e foge.

Estação Brigadeiro

                Apaixonei-me por aquele diálogo — ou talvez pelo pequeno fragmento que pude espiar. Pensei em falar com ela, dizer que também gostava de escrever e carregava comigo um caderninho para momentos de inspiração. Ofereceria minha ajuda para terminar esse diálogo à la Bauman.

                Mas… o que eu estou falando? Eu detesto que se intrometam em meus textos, mais ainda quando estou tão inspirada! Nessa fase inicial então, quando o texto é apenas um zigoto que irá se multiplicar e se complexificar nos próximos segundos, seria um pecado. Teria que me contentar com o papel de espectadora.

Estação Paraíso

                   Inferno! Quero saber como isso termina!

                Eis que ela virou a página. Não parecia a continuação daquele diálogo que não pude ler por inteiro, mas sim uma segunda tentativa. Uma música? Um poema? Os versos eram de fato mais curtos…

                Não pude descobrir. O sinal avisava que esta viagem havia chegado ao fim. Busquei com o mesmo afã de minha colega o meu caderninho. Lembrei-me que o havia deixado em casa justo naquele dia. Abri, meio atrapalhada, o nunca antes utilizado bloco de notas do celular (horrível, caso estejam se perguntando). Anotei as ideias principais, com receio de esquecer o que tinha acabado de ver — mesmo sabendo que não esqueceria assim tão fácil. Sabem como é, as coisas andam meio líquidas…