Ex-pilota

Por Vanessa Henriques

Estive engajada nos últimos dias na árdua tarefa de levar meu marido, recém-habilitado, para dirigir. Ele já tem alguma noção do volante, então só levou algum tempo para pegar a manha da embreagem, o tamanho do carro, e já estava dirigindo por aí — por aí seriam ruas residenciais desertas, cruzamentos quase sem carros e algumas bolas de feno sendo desviadas com sucesso.

Depois passamos para desafios maiores: ruas mais movimentadas, avenidas caóticas, trocas de faixa nem sempre bem sucedidas. Umas buzinas merecidas, outras totalmente desnecessárias. Eu estava ali no banco do passageiro muito mais atenta do que normalmente fico quando estou dirigindo, afinal a responsabilidade não deixava de ser minha também.

Eu tirei minha carta há mais de 10 anos, quando tinha 18 anos. Queria a liberdade de sair sozinha, não ter que chamar meu pai para me buscar em baladas, ter mais facilidade do que o transporte público me proporcionava. Eu estava empolgada, ainda que totalmente assustada.

Dirigi bastante nos meus primeiros anos de habilitada. Usava o carro do meu pai para ir à faculdade, para sair à noite e para buscar minha avó em casa. Nisso treinei bastante, ganhei confiança, e conquistei um namorado fazendo uma baliza na frente do restaurante a bordo de uma Parati.

Me enfiei em buracos, em estradas de terra, em casas distantes de amigos (numa era pré-Waze, só com o guia de ruas na mão, veja só), na praia, no campo. Nunca senti prazer em dirigir, mas também não via um grande incômodo. Só me irritava com trânsito — minha sabedoria de passageira de ônibus não se aplica ao carro. A máxima: “na pior das hipóteses, vá a pé” não funciona quando você tem que levar 1 tonelada de aço na bolsa.

Quando saí de casa, botei na ponta do lápis o que eu gastaria com um carro. Meu marido não dirigia, nós morávamos relativamente perto do trabalho. Não compensava. Veio Uber, locadora de carro, greve dos caminhoneiros, gasolina a R$4 e insira aqui mais incentivos para não ter carro próprio.

Agora dirijo esporadicamente, quando alugo carro em viagens, ou quando pego o carro do meu pai emprestado. Ao invés de ficar mais fácil, ou mesmo sentir um prazer ao matar a saudade do volante, me sinto mais insegura. O coração palpita em pensar em pegar estrada de terra. Lembro de uma subida mais íngreme e penso “será que dou conta?”. Baliza só arrisco uma fácil, em rua sem movimento.

Ora, cadê a pilota que morava aqui? Não sei. Acho que perdi o costume, a frieza do motorista diário, e a óbvia conclusão de que poxa-nem-é-tão-difícil-assim.

Um lampejo de segurança reapareceu com a vida de instrutora de auto-escola. Justo agora que me aproximo de cobrar pelos nove anos de namoro em que eu fui a motorista da rodada. Eta estrada injusta.

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Aqui tá quente, aqui tá frio

Por Vanessa Henriques

Sempre comento com meu marido que gostaria de viver num desses países gelados, com nevascas terríveis capazes de cancelar a ida ao trabalho e à escola. Como uma boa espectadora de filmes hollywoodianos água-com-açúcar, me imagino numa casa com calefação, comendo marshmallows e tomando chocolate quente enquanto vejo Vídeo Show.

Meu marido sempre rebate, com seu desespero tropical, minha visão idílica, lembrando que a neve traz sujeira, transtornos, correntes nos pneus dos carros e — o que para ele seria a visão do apocalipse — ela só cai em dias de muito frio. Ou seja, ele desliga sem dó minha calefação e muda a TV para a GloboNews.

Apesar do nosso Natal ser cheio de neve e patinação no gelo de regata, a realidade é comer peru no calor de 25ºC à meia-noite (para os sortudos) e já engatar um janeiro de manhãs ensolaradas e chuvas torrenciais no fim da tarde. Nada de errado quando se está na praia, na fazenda ou numa casinha de sapê.

Mas é claro que nós estamos no escritório, no metrô ou, no pior dos cenários, num ônibus sem ar-condicionado às 3 da tarde. Um céu azul despontou hoje logo cedo, depois de um fim de semana chuvoso, convidando para atividades aquático-sociais imperdíveis. Só que tivemos que dizer não ao sol, à piscina, à praia, para vir trabalhar (no ar-condicionado, se você for sortudo).

Ora, me parece óbvio que, assim como os dias de nevasca, deveríamos ter mais reverência com o solão de rachar o coco®. Não é direito trabalhar em dias assim. Botar uma calça (argh), uma brusinha de trabalho e uma bolsa a tiracolo (e não um cooler de cerveja) é realmente ir contra a nossa natureza.

Lógico que teríamos que fazer uma equação para isso funcionar, já que dias ensolarados abundam abaixo do Equador. Mas um diazinho só por mês, que tal? No Japão eles param para ver as cerejeiras, por que nós não podemos tirar uma folguinha para apreciar nossos rios, mares e piscinas infláveis?

Só não vamos demorar demais, afinal o verão logo logo acaba e teremos de enfrentar nevascas de 21ºC. Preparem as correntes.

 

Refúgio na semana

Por Vanessa Henriques

Tive uma grata surpresa nas últimas semanas. Um colega veio me oferecer, de troça, um exemplar do novo livro de crônicas da Miriam Leitão, Refúgio no sábado. Sim, ela mesma, a jornalista, sempre na TV falando de economia, queria (e conseguiu) ser cronista.

Para surpresa dele e de outros que me questionaram, aceitei o desafio. Não tenho nada contra Miriam, mas também não acompanho suas análises. Sabia do seu passado com a ditadura. Nada muito além.

Em duas semanas, descobri que Miriam é mineira, mas foi para Vitória para ser cronista. Antes, virou jornalista, e tem mil histórias para contar, na ditadura e na democracia. Que ela tem uma reserva reflorestada de onde avista e lista passarinhos e outros animais. Que ela gosta do Drummond. E que, aos sábados, ela escreve crônicas.

Eu, muito diferente da Miriam, quase não me lembro de ter escrito aos sábados. Como ela mesmo diz, sábados são a transição entre a semana que foi e a que virá, e têm esse clima de proveito máximo. Costumo acordar já pensando na programação do dia, onde irei, o que precisa ser feito na casa, quem vou encontrar.

Sábado é dia de botar em prática o que a semana não permitiu. Um corte de cabelo, a limpeza da casa, passar roupa, a organização do escritório, visitar a avó. Vislumbro neste dia o que gostaria de ter durante a semana: mais tempo para mim e para quem eu amo. Menos metrô lotado, menos cansaço de fim de dia, mais disposição para cumprir estas outras tarefas, que são necessárias mas também não são de todo ruim.

E o dia de descanso? Bem… fica para o domingo. Que também é dia de fazer o que não deu tempo na semana e no sábado. Dia de feira. Dia de missa. Os dias estão completamente lotados. Pouco tempo para não fazer nada. Muita culpa para não fazer nada.

Onde vão se esconder as crônicas, então? É preciso uma mente relativamente vazia para arquitetá-las. É preciso essa paz dos sábados da Miriam Leitão, de frente para os passarinhos, com o cansaço da semana mas a certeza do descanso dali em diante.

Na falta desse cenário, elas se espreitam no ônibus, numa conversa rápida de WhatsApp, na troca de emails durante o expediente, no trajeto de todo dia, que sempre tem algo diferente. Vão sendo gestadas a conta-gotas, no pouco de tempo que resta para devaneios. E são escritas também na pressa. Mas são escritas.

Quando crescer, quero ser cronista com a calma da Miriam Leitão. Enquanto não cresço, me viro do meu jeito, e admiro quem já chegou lá.

Sem lenço, com documento

Por Vanessa Henriques

“Primeiramente de tudo, uma boa tarde a todos!”. E assim começa mais uma viagem alucinante no metrô de São Paulo. Há comércio variado nesta terra de trabalhadores: amendoins (na validade!), fones de ouvido (testa na hora), lente olho de peixe (pra não cortar ninguém na selfie) e, não menos importante, os queridos porta-documentos.

Quando vi o primeiro ambulante oferecendo porta-documentos, dei uma risada comigo mesma. Quem estaria chacoalhando no metrô, 6 horas da matina, e pararia para pensar: “caramba, não tenho um plastiquinho para o meu título eleitoral!!”.

É claro que eu estava errada. O comércio popular não falha e tem tino para os desequilíbrios de oferta e demanda. Já faz alguns meses que vejo consumidores satisfeitos adquirindo porta-documentos e encerrando uma vida desregrada.

Este é um produto que se vende sozinho. Só de ouvir o vendedor listar todos os documentos que temos que carregar por aí, o marketing está feito: RGCPFCNHTÍTULODEELEITORCERTIFICADODERESERVISTA.

E o comércio, assim como o metrô, não fica parado (só às vezes), e já evoluiu: hoje em dia é possível encontrar no shopping metrô “carteiras de couro sintético, costuradas por dentro e por fora, e com plásticos para você colocar todos os seus documentos”.

É a praticidade do porta-documento com a necessidade da carteira. É puro street style. E quem chama com R$5 não leva uma, mas duas! Preciso dizer que faz sucesso?

Há anos o metrô faz campanha contra o comércio ambulante. Mas o paulistano já se apegou demais a ele para denunciá-lo. Ele preza pela nossa fome, nosso entretenimento e, ultimamente, pelo nosso pertencimento cívico.

Tanto que outro dia ouvi um autoproclamado marreteiro pedindo dinheiro no vagão após o fiscal confiscar sua mercadoria. As pessoas contribuíram, complacentes, aguardando o retorno do pai de família ao vagão com novos produtos.

O porta-documento tem a vantagem de ser facilmente escondido do “rapa”: é leve, discreto, e cabe no bolso — o que já é uma propaganda do produto. O sucesso de vendas é garantido.

Só tem um probleminha. A TV do metrô anunciava, em letras garrafais: “Brasil terá documento único eletrônico até julho de 2018”.

Tudo bem, se tudo der errado, sempre nos restarão os amendoins.

 

 

 

 

 

O telefone tocou novamente

Por Vanessa Henriques

Turururururu… Turururururu…

Um dia, foi no metrô. O barulhinho abafado só podia vir do celular jogado na mochila. Fiz uma manobra ousada no vagão cheio para descobrir que não era o meu celular, e sim de uma moça sentada logo ali.

Turururururu… Turururururu…

Esse dia foi na rua, já voltando para casa. Rua relativamente vazia, hora avançada, podia ser minha mãe perguntando se eu tinha sido sequestrada (ela recebe telefonemas semanais do tipo), melhor olhar. Manobra da mochila, vasculho o bolso, e o barulho para. Era do segurança do prédio.

Turururururu… Turururururu…

Aquela outra vez foi no ônibus, dia de chuva, encostada-quase-caindo na sanfona. Já calejada, deixei tocar, se esgoelar. Devia de ser o celular do ambulante, ou do cobrador, ou minha mãe retornando pro ladrão com o dinheiro do meu resgate. Parou.

Toda a trama cheira ao clássico Pedrinho e o Lobo: um dia realmente será o meu celular a chacoalhar no bolso, com uma irrecusável proposta de emprego, um prêmio de promoção de supermercado ou quem sabe uma herança esquecida. Deixarei passar sem dó, com a bênção da ignorância.

Mas o que me irrita não é o infortúnio da ligação perdida ou a cara de besta de perceber que ninguém te ama, ninguém te quer (a parte de comer barata é opcional). O que incomoda é pensar que nos tornamos seres que andam com as mesmas duas marcas de celular no bolso — e a Apple e a Samsung claramente não ligam muito para toques de celular.

Nem sempre foi assim: num passado não muito longínquo toque de celular bacana era aquele ritmado, com a música do momento na sua versão polifônica. O ringtone foi sucesso absoluto e coroava a modernidade junto com o flip, a tela colorida e o fim das antenas.

Operadoras ofereciam ringtones variados, saídos das paradas do rádio. Eu mesma me lembro de ter instalado um toque da música do Queen (it´s a kind of magiiiic) que me acompanhou por um bom tempo. Havia um problema, como em toda tecnologia de ponta: as músicas demoram muito para chegar a um ponto conhecido (geralmente o refrão), e muitas vezes ninguém reconhecia seu ringtone escolhido com tanto esforço.

Mas havia o mais importante: diversidade. Por mais que muita gente gostasse da Ivete Sangalo, teria toda uma discografia para escolher. Hoje todos ouvimos a mesma música da Ivete (e uma mais ou menos, não exatamente um hit).

Por ora, decidi fazer uma intoxicação forçada: deixo o celular no silencioso, assim não corro mais o risco de ser enganada. Criei um código com minha mãe para quando o sequestro for real. Prefiro um celular mudo a um sem personalidade nenhuma! — brado com meu Samsung Android com capinha do Mickey na mão.

A volta

Por Vanessa Henriques

Era um dia qualquer, de cansaço qualquer, demora do ônibus qualquer, de só unzinho assento qualquer. Mas a companhia não era qualquer uma. Do meu futuro lado, meio risonho, meio malandro, um velhinho se acomodava confortavelmente ao lado da janela.

Acenei em respeito na hora que sentei, e ele assentiu de volta, como que divertido pela minha presença. O ônibus demorou a sair, mas saiu. Ao primeiro sinal de trânsito, o velhinho sacou um pacotão de bolacha da mochila.

Wafer, recheio triplo, e eu voltando do trabalho esfomeada. Ele me ofereceu gentil: quer uma? Eu sorri, mas recusei educadamente. Queria muito uma bolacha, muito mesmo, mas achei estranho aceitar (por que mesmo??).

Num solavanco lá se foi a bolacha, que parou nos meus pés. Que desperdício, pensei. Nada abalava o humor da criatura. Deu uma chutadinha de leve com os pés, sorriu malandramente e falou: opa, caiu.

O caminho era curto, mas hoje estava mais longo. Chuva, frio, e mais nada de novo no celular. As bolachas tinham acabado, e eu não tinha nenhum livro na bolsa pra me distrair.

Mas meu companheiro tinha um livro, e sacou com vontade da mochila, não resisti e passei o olho no título, em letras garrafais:  SEXO COMEÇA NA COZINHA.

Desviei rápido o olhar, na esperança de que ele não tivesse percebido minha bisbilhotice, mas ele pareceu gostar da situação, e não arrancou o sorriso largado do rosto. Dei sinal e fui embora, não sem antes lhe desejar uma boa viagem (em pensamento, claro).

A curiosidade, essa não foi embora. Mais tarde procurei o livro na internet, já criando na minha cabeça um velhinho sabedor das artes do kama sutra culinário. Quem sabe eu também aprendesse algo novo?

A busca retornou logo no primeiro resultado: best seller à venda na livraria mundo cristão. Eita. Será isso mesmo? A sinopse entregou:

Por que o sexo começa na cozinha? Kevin Leman pretende responder a essa questão levando o casal a rever sua postura e mostrando por meio de situações do cotidiano como o relacionamento do casal, ainda que em condições críticas, pode sofrer profundas transformações quando marido e esposa sintonizam suas atitudes através do compromisso de renovar o comportamento. O autor busca mostrar que é nas pequenas atitudes que a se confere se a pessoa que está ao lado compartilha dos sentimentos e pensamentos mais íntimos.

Um pouco decepcionada, fechei a busca. Aquele sorriso não me enganava, mas talvez o velhinho fosse muito bem casado e estivesse tentando melhorar a convivência com a patroa. Ou só tivesse pregando peças em passageiros como eu. Vai saber.

O que importa é que graças à ele me deu uma vontade danada de contar esse causo, depois de tanto tempo enferrujada. Se o sexo começa na cozinha, a crônica começa no ônibus. Olhares atentos, o próximo já vem vindo.

Kryptonita

Por Vanessa Henriques

Todo usuário de transporte público é um heroi. Não que ele saia por aí de capa (só faltava!), mas é imprescindível desenvolver certas habilidades para sobreviver aos combates diários nos combalidos coletivos.

A luta começa já na rua, antes mesmo de entrar. O ônibus faz seu caminho lentamente, o letreiro se aproxima como um bat-sinal, com letras totalmente irreconhecíveis. Os outros passageiros já se agitam: uns bufam por não ser o seu, outros já se acotovelam na ponta do ponto. Será possível que eles conseguem ler?

Em geral, não. Mas nem sempre é preciso: alguns ônibus possuem letreiros antigos, sem luz, outros com luzes mais amareladas, outros com aquelas bastante brancas. Em comum, o fato de que nem com visão de alto alcance ser possível enxergá-los. Resta apelar pras cores dos ônibus, os modelos dos letreiros, os passageiros conhecidos, e até mesmo para o número de sílabas: “Duas palavras, certeza que é Terminal Bandeira”. “Esse é picadinho, fácil, Term. Pq.  D. Pedro II”.

Não pense que a jornada começa aí, é preciso um teste antes. Reconheceu o letreiro? Agora há que pegá-lo. Quem nunca saiu em disparada em meio aos pedestres, tal qual Flash atrás do inimigo, acenando para que o motorista te espere? Com pernas treinadas e alguma sorte, é capaz que você consiga subir a bordo.

E não suba despreparado, ou vai ser rechaçado pelos companheiros de crime. Celular, bilhete único ou dinheiro (sempre trocado), tudo sempre à mão no cinto de utilidades. Resta agora encontrar um lugar, seja para sentar ou ficar de pé mesmo. Se for horário de pico, haja elasticidade para não atrapalhar ninguém, dar espaço para quem quer descer e ainda se segurar nas freadas mais bruscas.

Apesar dos pesares, a viagem sempre tem fim, e também um novo começo. Assim como Wolverine, o passageiro se renova, todos os dias, para uma nova jornada. Coloca seu traje a paisana e se mistura na multidão, que desconhece sua verdadeira identidade.