Valsa

Por Vanessa Henriques

Gosto de escrever

justificado.

Tenho essa mania de me justificar até para as palavras.

Acho que fica mais organizado

menos caótico

apesar do conteúdo ter pouco sentido.

 

Já os poemas não

eles não tem lado.

Ficam à esquerda

Ou à direita

porque devem ser assim.

São genuínos

e já nascem caóticos

apesar de o conteúdo, esse sim

sempre fazer sentido.

 

Por isso que por mais que pareça pouco poético

gosto de escrever poemas no computador.

E ficar dançando com os versos

de um lado

para o outro.

 

Sei que parece fácil

dar cara de poema

por cortar

e jogar

 os versos.

Mas não é que é divertido?

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Monte

Por Vanessa Henriques

O homem varre a praça

todos os dias

todas as folhas

todas as flores.

 

O homem amontoa

todas as folhas e as flores.

Com a certeza de que amanhã

fará o mesmo.

 

Afinal as flores e folhas não param de cair

e ele sabe disso.

Ele fala a língua das flores

o dialeto das folhas

ouve o tititi das sementes

em meio às buzinas dos carros.

 

Ele sabe que lugar de folha é na terra

de flor é no alto

e no cabelo da moça.

Mas pediram que ele varresse

e ele varre

não sem conversar.

Deveras

Por Vanessa Henriques

Cheguei.

Não tinha ninguém.

Ficamos eu e as luzes e o barulhento ar condicionado.

 

Deveras

 

Hoje não era dia de trabalhar

Era dia de enrolar nas cobertas

de comer pão de queijo

de abraçar mais um pouco.

 

Hoje não era dia de trabalhar

Era dia de ouvir o barulho da chuva

escorrendo pelo vidro

o barulho do vento

balançando a janela

a cortina.

 

Hoje não era dia de trabalhar

Era dia de sonhar

com a vida que queria

com a vida que podia

e não com aquela que te esperava no escritório do ar condicionado barulhento.

 

O sapato de salto

a poça no asfalto

o guarda-chuva no alto

e o coração longe longe.

 

Não acho

Por Vanessa Henriques

Procuro

                     decisões

Procuro

                     definições

Procuro

                     orações

Procuro

                     diversões

Procuro

                     visões

Procuro

                     corações

Procuro            

                      ações

Procuro

                     procurações.

                     Procuro

Clichê

Por Vanessa Henriques

Ontem acordei

sete e cinco

Saí para trabalhar

oito e meia

Almocei

uma e dez

Cheguei em casa

sete e vinte.

 

Hoje resolvi fazer diferente

Acordei

sete e doze

Saí para trabalhar

oito e vinte sete

Almocei

uma e vinte dois

Cheguei

seis e cinquenta e nove.

 

Hoje resolvi

me livrar dos números redondos

e também dos múltiplos de cinco.

 

Hoje eu quis

os números quebrados

fracionados

pares

e ímpares também.

 

As contas mais difíceis

A riqueza dos minutos

A aflição dos segundos

Tudo coube em mim.

 

Hoje eu resolvi

que os clichês não eram para mim

e que agora

eu viveria sempre em horas quebradas.

Ou melhor:

sem relógio.

Eu vou pra Minas

Por Ana Maria Vargas*

Eu vou pra Minas.
Lá eu dispo a minha armadura,
Deponho as armas,
Refaço o caminho e o enfeito de sempre-vivas.

Eu vou pra Minas.
Subir as montanhas, prosear com o vento
(conversas antigas),
esquecer o tempo num pé de jabuticaba sabará.
Quem sabe ainda encontro guabiroba por lá!

Eu vou pra Minas.
E num galho de arruda
Vou me livrar do quebranto e do mal-olhado,
Espinhela caída e “vento virado”.

Eu vou pra Minas.
Lá há uma casa com ladrilhos,
Ora-pro-nóbis no quintal, terra vermelha,
madeira lustrada com óleo de peroba.

Vou buscar um terço pra rezar,
Vou trazer mais saudade e
Muita história pra te contar.

* Ana Maria é servidora pública, mas não escreve apenas memorandos. Sugiro a leitura de seu blog, Café no Alpendre.

Ismália

Por Vanessa Henriques

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…

Não sei quem colocou esses versos nas paredes cinza do metrô. Seja quem for, saiba por estas linhas que fez uma pessoa muito feliz. Não há um dia que eu suba a escada que o ladeia e não pare para pensar em Ismália.

Os poetas simbolistas nunca foram meus preferidos. Acredito que a obrigação escolar em identificar seus tipos de rimas e alguns decassílabos irritantemente regulares me afastou de seus escritos. Mas a poesia é maior que preferências juvenis, e por fim me apaixonei por Ismália.

Queria a lua do céu,

Queria a lua do mar…

 Mas se Ismália vivesse, digo, morresse, nos dias de hoje, não teria originado um poema tão bonito. Quem consegue ver a lua refletida em meio a tanto concreto? E, mais importante, teria sua alma chegado ao destino correto em meio a tantos arranha-céus?

Se vivesse no tempo de Manuel Bandeira, teria virado notícia de jornal. No de Augusto de Campos, um belo poema concretista, traçando o caminho da alma e do corpo de Ismália no papel. No de Clarice, acompanharíamos todos os passos que levaram essa pobre alma feminina ao desespero de seus atos.

Sua alma subiu ao céu,

Seu corpo desceu ao mar…

E se Ismália vivesse em São Paulo hoje, passaria por essa mesma estação de metrô, insuportavelmente quente e lotada, aguardaria impaciente o próximo trem, afinal não teria conseguido embarcar nos outros três que o antecederam. Chegaria exausta em sua casa para, poucas horas depois, retomar o trajeto contrário.

Não veria lua nem mar, mas sua alma chegaria ao céu da mesma forma.