Deixando pegadas

Por Vanessa Henriques

Gosto de fazer trilhas. É uma paixão que descobri desde que comecei a namorar meu marido. No começo eu tinha receio, me embrenhar no mato, toda estabanada, meninona de apartamento, coisa boa não podia sair. Hoje sou só amores e coleciono histórias e trilhas preferidas.

Claro que não saio por aí de facão na mão e perneira abrindo caminhos. Costumo visitar parque estabelecidos, trilhas fáceis e médias, com ou sem guia. Já fiz trilhas memoráveis por bons e maus motivos. Mas algumas coisas são constantes: o ar puro e fresquinho, o deslumbre com a beleza da floresta — geralmente do pouco que nos resta da rica Mata Atlântica — e as botas sujas de terra.

Botas essas que já estão nos seus últimos passos. Foi por causa dela que comecei a pensar nesse texto. Comprei a minha deve fazer uns 7 anos, quando percebi que não era uma boa ideia sair pelo mato com tênis de corrida. Na primeira usada pisei numa poçona de lama — o que poderia ser um charme, afinal ela foi feita para isso e não entrou nada na minha meia. Mas a verdade é que segui por um lado da trilha enquanto todo mundo foi pelo outro, e chafurdei literalmente.

Depois da bota fui ficando mais paramentada: roupa comprida (é sempre a recomendação), meia longa, boné (odeio e sempre esqueço, mas também é bom), uma pochete (sim) extremamente útil, mochilinha de ataque. Acho que é isso.

Logo, quem me vê por aí só pode achar que sou uma trilheira raiz, descolada, fazedora de raftings e escaladas, saltadora de parapente, telespectadora do Discovery Channel. Curto a fama, mas ela não podia ser mais falsa. Não só pela minha parca experiência, mas justamente por causa dos EPIs que utilizo.

Nada mais raiz do que fazer trilha descalço, de chinelo havaiana, de crocs, de tênis liso de corrida, de all star branco, de calça jeans, de vestido, e até mesmo carregando uma bolsa de palha com um sousplat dentro (tenho testemunhas). Todas situações reais.

Isso é coisa de quem se joga no rolê sem saber bem o que vai acontecer e vai com tudo, não tá nem aí para as consequências. Que escolhe a roupa pelo humor, e não pelo programa. Quem consegue curtir o passeio apesar das péssimas condições em que se encontra. Eu sou muito nutella, não faria nada disso.

Mas devo confessar que um dia já fui mais raiz. Fui com meu marido a uma trilha desconhecida, que envolvia basicamente subir um morro, no melhor espírito ousadia e alegria. Todos diziam que lá não tinha banheiro nem água, era bom levar alimento e alguma bebida.

O que os dois malandros fizeram? Botaram um (repito, um) polenguinho e uma (repito, uma) garrafa de água na bolsa, eu de shortinho jeans e blusinha de algodão, ele de bermudão caqui e uma blusa de corrida (mandou bem) e fomos lá subir por 1 hora um morro interminável debaixo de sol. Ao menos fui com a bota.

Chegamos mortos de cansaço ao topo, suados, com fome, com sede, e sabíamos que ainda tinha a descida. Mas lá do alto, que vista. Dava para admirar todos os mares de morros possíveis e ainda espiar o litoral, para onde iríamos em seguida. Tudo tinha valido a pena.

Para desfrutar comendo um polenguinho! (Foto Vanessa Henriques)

Descemos (o que eu acho mais difícil que subir) e saímos desesperados por um gole de água. Paramos no primeiro restaurante. Só aceitava dinheiro. Compramos o que deu: duas garrafas de água e uma salada caprese. E desde então, ficamos cada vez mais nutella.

O detalhe é que já subimos este morro outras duas vezes. Talvez minhas raízes não estejam totalmente mortas.

Anúncios

Prosperidade*

Por Vanessa Henriques

Há um sentimento dúbio que os netos de imigrantes compartilham. Eles se orgulham das histórias incríveis dos seus familiares, que deixaram seus países fugindo de guerras, de fome, de dificuldades que nem sonhamos ter. Parecem que essas vidas foram vividas em outros séculos, tamanhas as peripécias, as dificuldades e, o mais impressionante, como tudo ficou bem – não só pra eles, mas para duas gerações adiante. Eles cruzaram oceanos para chegar aqui, trabalharam exaustivamente, construíram um patrimônio econômico e afetivo sólido.

E a nós, o que sobra? Podemos, claro, continuar contando as histórias de nossos avós e bisavós, e também de nossos pais. Mas se elas são distantes para nós, imagina para nossos filhos? (Nem mesmo sabemos se queremos ter filhos…)

Podemos também trabalhar para que o legado deles continue. Só não podemos nos enganar: absolutamente tudo mudou. Não sofremos ameaça de guerra e de miséria em nosso convívio abastado. Não temos nem sequer grandes planos. Nem grandes problemas, se pararmos pra pensar (chego a ficar vermelha só de pensar a cara que minha vó faria se soubesse por cada bobagem que eu choro!)

Isso quer dizer que não temos nenhum legado a passar? Só porque não temos histórias épicas? Eu não sei a resposta para essas perguntas. Essa é a chave quando se fala de legado: ninguém se dá conta de que está construindo um a todo momento.

Tenho me lembrado do sermão que ouvi na última Páscoa. O padre nos aconselhou a viver uma vida de abundância, de dar inveja (no bom sentido). Viver a vida que você invejaria nos outros: uma vida com muitas alegrias, amores, risadas, viagens, vinhos. Uma vida com muito de tudo que você considera importante. Assim, vamos construindo nossas raízes nesta terra que um dia há de nos comer.

Isso só pode ser Prosperidade.

*Este texto foi escrito na encantadora Prosperidade, distrito de Vargem Alta (ES). Agradeço ao amigo Douglas Scaramussa, também neto de imigrante e com um coração maior que o legado imenso de sua família, pelo convite. Agradeço também a companhia dos amigos que nos lembram todo dia como nossa vida é próspera e como há muito pelo que ser grato.