Caiu na rede…

Por Vanessa Henriques

É sexta-feira. Recosto-me no sofá, concedendo a mim mesmo um prêmio por uma semana inteira de trabalho duro. Abro o jornal, folheio as notícias sem interesse. Algo maior me chama:

– Amor, o que tem pra jantar?

Já franzia a testa diante da possibilidade de encarar aquela carne cozida que me acompanhava desde terça-feira – e que desde quarta-feira tinha aparência e odor não muito convidativos.

– Hoje nós vamos comer fora.

Perfeito! Eu me livrava da carne e ainda melhorava meu prêmio. Não podia haver resposta melhor!

– Aonde vamos?

– Temos aquele cupom, lembra? Vence no final de semana.

Foram bons 3 segundos de alegria. Lembrei da última vez que usamos um desses cupons que viraram febre na Internet. Naturalmente, também deixamos para utilizá-lo alguns dias do vencimento. Filas enormes, pessoas reclamando, funcionários estressados – não poderiam estar de outra maneira, achei que estavam até calminhos diante das bobagens que ouviam -, crianças chorando e a fome apertando.

Não tinha a menor vontade de passar por isso novamente, mas… o cupom estava pago! Tentei lembrar da minha cara – de idiota, muito provavelmente – quando comprei esse cupom. “Um rodízio + uma caipirinha + uma cestinha de pão + sobremesa por apenas R$9,99! Eu preciso comprar!”. Tanto não precisava, como agora me encontrava com esse nó entalado na garganta pela urgência de se livrar do cupom.

A bobagem tinha sido feita. Agora não adiantava reclamar. Aliás, a chave era manter o bom humor, como comentou oportunamente minha esposa. Chegamos ao local, não precisamos nem checar o número: um aglomerado de pessoas se acotovelava na estreita calçada. Às 18h30 da tarde. Sim, porque a essa altura o restaurante já não aceitava reservas, portanto o que valia era a lei das selvas, mais conhecida como ordem de chegada.

Estacionamos o carro, informamos nossos nomes e a quantidade de pessoas na mesa. Tempo de espera? Sem previsão. Gotas de chuva começam a cair, como que tirando sarro da cara daquelas pessoas que aguardavam espremidas embaixo do único toldo próximo ao restaurante – que, como bem observou um casal ao nosso lado, era o único que não possuía toldo.

Pessoas que passavam pela calçada não entendiam nada. “Seria um restaurante da moda?” “Estavam dando comida de graça?” Não era o caso. Mas era quase isso, portanto todos apresentavam uma força de vontade incrível, como se os R$9,99 pagos fossem uma quantia irrecuperável.

Os primeiros conflitos aparecem. Uma moça revoltada afirma que é a 3ª vez nessa semana que tenta utilizar o cupom e não consegue. Tremo na base pensando que talvez isso não fosse o fim, que precisaria voltar ao infame local. Irritada, ela agarra o celular e liga para um amigo. Fala o mais alto possível que isso é um absurdo e que ela se recusava a esperar na fila, como faziam todos os outros pobres mortais à sua volta.

Algum tempo depois, nos acercamos da porta. Estamos quase lá. Por incrível que pareça, o funcionário responsável pela lista de espera, que não tinha esboçado nada que lembrasse um sorriso o tempo todo que estivemos lá, começa a rir. Começamos a prestar atenção: ele ri sozinho contando algumas anedotas sobre duas garçonetes que discutiam sempre. De repente, ouvimos: “Roberto, 2 pessoas”.

Entramos e reencontramos nossos velhos amigos, que nos acompanharam por boa parte da saga. Comida boa, atendimento bom, tudo corre com uma tranqüilidade inesperada. Na hora de pagar a conta, tudo parece valer a pena:

– Foram 2 sucos, correto?

– Correto.

– Então fica R$8,50.

Saímos com cara de vencedores, como se houvessem esquecido de cobrar pela refeição completa. Eis toda a graça de usar o cupom, você deu prejuízo ao restaurante, e ainda saiu ileso pagando apenas as bebidas. Enfim, liberdade! Não há mais cobrança, na próxima vez como no restaurante que quiser, pensei.

Olhamos com dó aqueles que ainda aguardam lá fora. “Ao menos a fila diminuiu”, comenta minha esposa. Começo a divagar sobre essa sensação de liberdade, digo que na próxima semana vamos àquele restaurante perto de casa, que prepara um feijão divino:

– Semana que vem não dá, temos aquele outro cupom, lembra…?

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3 thoughts on “Caiu na rede…

  1. Parabéns pelo blog ki! Está ótimo (e esse texto de abertura é o melhor)! E cadê os desenhosss??? Beijoss

  2. […] afinal as minhas preferidas também são as preferidas de outros! Rs Tenho muito carinho por ‘Caiu na Rede’, ‘Retina’ e ‘Fechado para balanço’. Gosto bastante também de uma crônica sobre […]

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