Nem luxo, nem lixo

Por Vanessa Henriques

Tenho um hábito estranho que há anos assusta minha família. De tempos em tempos, especialmente depois de me livrar de alguma pendência, ou sair de um período atribulado, gosto de fazer arrumações. Armários, gavetas, prateleiras, nada escapa do meu surto de organização.

Às vezes começa devagar. Penso: “há tempos estou prometendo organizar o armário do banheiro, hoje vou fazer isso!”. E tem vezes que começo no banheiro e só paro quando coloquei a casa toda abaixo.

Você deve estar se perguntando: e o que tem tanto pra arrumar? É bem verdade que não sou uma bagunceira homérica, daquelas que chega em casa e empilha as roupas no sofá até chegar ao ponto de ninguém ver o sofá! Mas, confesso, tenho uma mania peculiar: guardo muita bobagem. E, portanto, periodicamente tenho que filtrar o conteúdo de algumas gavetas.

O que eu considero bobagem? Bom, se eu contar que encontrei um envelope com todos os holerites do meu primeiro estágio, você acreditaria em mim? E todos os papéis de abertura de conta em banco que já encerrei há uns 5 anos? Tem também aquela cartinha inesquecível de uma colega de classe da 4ª série (da qual nem me recordo o rosto!!) falando que queria brincar comigo no recreio.

E isso se torna cada vez mais difícil nesse mundo de apartamentos tipo studio com 30 m². Sempre me lembro do armário da minha antiga casa, no qual eu entrava e passava horas conversando ao telefone com minhas amigas. Hoje em dia não caberia nem meu braço nesses armários tão rasos!

Enquanto a maioria das pessoas considera fazer arrumação uma atividade completamente entediante, confesso que me divirto bem acima da média. Coloco o som no último volume e começo a me refestelar com as lembranças que um dia eu fiz questão de guardar. Ao fim, aquela gostosa sensação de dever cumprido, de limpeza espiritual que só uma faxina material pode proporcionar.

Quem vasculha depois o saco de lixo (na verdade começou com uma pequena sacolinha de supermercado, mas sabe como é…) morre de rir com as coisas que guardo. Minha mãe é a primeira a dizer que sou muito apegada às coisas materiais. Posso até ser, mas francamente, eu só me apego a objetos materiais sem valor algum!

Sempre que me dizem isso me lembro de uma reportagem que vi há tempos na TV. Uma velhinha foi denunciada pelos vizinhos à polícia porque guardava em sua garagem uma quantidade descomunal de lixo, o que atraía ratos e baratas para o entorno. Lixo, dizia a reportagem. Mas ao se defender a velhinha não titubeou em dizer que aquilo não era lixo.

E o que era? Não sei o que era, mas sempre que me lembro dessa notícia penso que é hora de fazer outra arrumação. Vou até a lavanderia e pego um saco de lixo. Melhor já levar dois, por precaução!

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