Varandas e desvarios

Por Vanessa Henriques

Sempre gostei de morar em casa, afinal a ideia de me empoleirar em cima de mais uma porção de famílias nunca me agradou muito. Mas o mundo dá voltas e cá me encontro não só morando em um prédio, mas também cercada apenas por prédios à minha volta.

No começo isso me angustiava, parecia que não tinha privacidade, que por todos os lados havia uma janela a me observar. Com o tempo descobri que isso não só era verdade, como também passei a ser uma ávida observadora de janelas e varandas.

E por falar em varandas, você tem visto muitas por ai? Pelo que andei reparando, a maioria das pessoas já a consideram uma extensão natural da sala de estar, basta cercar o único cômodo aberto da casa com vidro e voilà! Adeus contato com o mundo externo! Aquela ideia de varanda com rede e plantinhas está totalmente por fora, caso você ainda não tenha percebido.

Até aí, tudo bem. Mas o que mais chamou minha atenção durante minhas tardes de observação varandística é perceber como as pessoas usam essa área de formas, no mínimo, curiosas. A primeira que chamou minha atenção foi uma moça jovem que costumava ir à varanda para falar ao telefone e, como uma boa fumante, aproveitava o momento para acender um cigarro e relaxar. Antes de acendê-lo, porém, ela vestiu um casaco que já se encontrava na varanda. Fez sua ligação, fumou o cigarro. Quando terminou, tirou o casaco, deixou-o ali, em uma cadeira, e entrou novamente no apartamento. Detalhe: fazia um calor de 30ºC.

Longe de ser uma esquisitice momentânea, dessas que todo mundo tem. A cena se repetiu (e se repete até hoje) com uma frequência espantosa. A cada cigarro, a blusa entrava em cena, algo que nunca fez sentido para mim. O problema seria o cheiro? Não fumo, mas conheço fumantes e sei que o odor ao cigarro não está só no casaco, blusa ou vestido que vestem, mas sim em suas próprias mãos, no hálito e em seu carro ou casa. Jamais entendi a função do casaco.

De uma outra janela, consigo visualizar uma nova varanda. Por dias houve um reboliço tremendo nessa varanda, por sinal. Marceneiros, pedreiros, curandeiros. Sabia que ali sairia algo interessante! Depois de uma semana, percebi que estavam fazendo um móvel naquela pequena área. Um móvel que naturalmente ocupava todo o espaço disponível. E pra que serviria aquilo?

Um dia depois eu descobri: a dona da sacada era uma moça nova, loira e linda, e com muitos pertences. Sapatos, em especial. E bolsas. E cintos. E quem tem espaço no armário para armazenar tantos itens numa cidade com o m² mais caro do país? Pois a loirinha não teve dúvidas: fez uma sapateira a céu aberto. Guardou todos seus sapatos no móvel exposto, de forma que da minha janela eu poderia ajuda-la na escolha do pisante de cada dia. Pena que nunca a vi escolhendo um sapato daquela estante: minha impressão é que ela deixa dentro do quarto uns 3 ou 4 pares pra ir usando enquanto os outros pegam uma cor.

Por fim, um amigo riu sem parar quando avistou numa varanda, olhando desta vez da janela da minha cozinha, uma privada na sacada do prédio vizinho. Sim, você leu direito: um vaso sanitário, se preferir um eufemismo. E um senhor vaso: todo decorado em azul, parecendo que saiu dos aposentos reais de D. Pedro I. Há anos aquele vaso se encontra ali, observando a paisagem e esperando para ser novamente utilizado.

E na minha varanda? Atualmente não há nada, ainda estou buscando minha inspiração enquanto observo a criatividade alheia. Mas já tenho algumas ideias ousadas: um vaso de plantas e uma cadeira – ah, como é duro ser vanguarda…

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