Candidata perfeita

Por Vanessa Henriques

Eu não gosto de entrevistas de emprego. Não que eu conheça alguém que tenha dito que adora entrevistas, mas nos últimos anos isso se tornou um tipo de tortura para mim. O primeiro e mais odiado tipo, diga-se de passagem: toda vez que me sinto insatisfeita com meu trabalho, lembro pelo que vou ter que passar e adio minha saída. Pessimismo passageiro, isso passa.

Mas chega uma hora que não dá mais para adiar. Seja por necessidade ou porque é uma “oportunidade que não pode ser desperdiçada” (palavras do amigo que me indicou, não minhas), uma hora é preciso encarar o pesadelo. Envio currículos por e-mail. Centenas, para ser mais exata, afinal e-mail é gratuito e tudo que vier é lucro. Depois de algumas semanas de expectativa — não se engane, o único lugar no qual você realmente gostaria de trabalhar não vai nem acusar recebimento — chega a primeira resposta.

“Prezada Fulana,

Recebemos seu currículo e nos interessou seu perfil. Por favor nos informe sua disponibilidade para uma entrevista.

Att. “

Ok, agendo um horário. Já sinto os calafrios de uma nova entrevista. As perguntas sem sentido, seguidas por respostas circulares, muito nervosismo e pouca verdade. Afinal, se tem um momento no qual eu não sou eu mesma, esse momento é definitivamente em entrevistas de emprego. Todas as palavras soam tontas e mentirosas, e qualquer esforço maior é repreendido pela minha consciência (sempre alerta e pessimista): “Chega de falar, ninguém tá acreditando nisso”.

Chego ao local. Invejo a recepcionista e todos que estão num dia comum de trabalho e não na minha pele. Alguns até tomam um despretensioso cafezinho.  Surge meu entrevistador, um analista de RH muito simpático e solícito que me conduz até uma sala climatizada – estaria meu suor tão evidente?

Mal sento na cadeira, ele inicia o bombardeio: Quais são suas qualidades? E seus maiores defeitos? Onde se imagina daqui a 5 anos? Tem vontade de aprender? É pró-ativa? Tudo que consigo pensar é que esse simpático senhor está aproveitando esse momento para descarregar suas frustrações (amorosas, profissionais ou esportivas) em mim, suando na outra ponta da mesa.

Respondo tudo que ele quer ouvir, com todas as frases feitas que decorei de reportagens sobre “Como se destacar em uma entrevista”.  Pelo jeito, era isso mesmo que ele queria. No dia seguinte recebo por e-mail: “Sra. Fulana, você se encaixa perfeitamente no perfil procurado. A próxima fase é uma dinâmica de grupo, na próxima segunda, às 10hs”.

Não podia ser pior! Se fazer entrevista individual é ruim, mas nada se compara às dinâmicas de grupo. Coloque uma dúzia de pessoas competindo pela mesma vaga para fazer coisas estúpidas por uma tarde inteira. Não sei como nunca deu em tragédia.

Mas não posso negar que aprendi muito com esse sofrimento. Anoto tudo que jamais faria numa entrevista: mostrar-me a criatura mais pró-ativa do mundo (a custa de não sei que substância); levantar a mão antes de todos para mostrar minha brilhante opinião (nem preciso dizer que não é tão brilhante assim); mostrar meu domínio em idiomas ao utilizar termos que poderiam ser perfeitamente traduzidos para a língua mãe. E muitas outras pérolas, esse espaço seria muito pequeno se fosse listar todas.

Até a alma mais desesperada tem seus limites. E eu sorri, chacoalhei a mão do simpático senhor e saí, com o alívio da certeza de que não estaria nesse prédio às 10hs da próxima segunda-feira.

Eu posso ser a pessoa mais competente do mundo, e o mundo jamais saberá. Só descobrirão quão boa profissional eu sou aqueles que me contratarem (por falta de escolha, provavelmente), já que não vejo nenhuma revolução latente no sistema de contratações. Enquanto isso me conformo com meu emprego atual. Mas afinal, como foi que eu vim parar aqui?

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3 thoughts on “Candidata perfeita

  1. […] que rolou nesses dois anos. Poderia ficar com um monte desde a primeira, passando por algumas como Candidata perfeita, O que você vai ser?, Nó cego, Vontades, CPF na nota? e Palco, além da ótima Fiat tenebris, mas […]

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