Cozinha dos deuses

Por Vanessa Henriques

Quando bate aquela fome, aquela vontade de comer alguma coisa gostosa, que não se encontra pronto no mercado, é a ele que recorremos: o bom e velho livro de receitas. Há quem não precise dele, afinal cozinheira de mão cheia faz tudo “a olho” e não fica medindo xícaras e colheres de chá. Infelizmente, não me encaixo nessa categoria – quem sabe quando eu tiver netos?

E por falar em netos, minha vó não possui nenhum livro de receita. Sabe tudo de cor. Quando vou até sua casa, ela me conta a nova receita que viu na televisão. Como não sabe escrever, é capaz de decorar centenas delas em sua cabeça, do alto dos seus 80 e poucos anos. E cozinha como ninguém. Mas comida de vó é especial, não é pro dia-a-dia, e é uma categoria à parte! Aos meros mortais, sobra recorrer ao velho amigo para não fazer feio.

Cada livro tem uma história diferente para contar. Há quem recorra à maravilhosa cozinha da Ofélia, sucesso nas terras tupiniquins. Ou o livro da Dona Benta, quase uma instituição ao lado da ‘Vida do bebê’. E tem quem escreva seus próprios livros, esse amontoado de receitas que culmina em uma harmoniosa colcha de retalhos.

O da minha mãe não esconde a idade: tem a capa com uma estampa que remete claramente aos anos 80, folhas caindo e um monte de receita que jamais saiu do papel. E como todo bom exemplar, possui manchas de tudo quanto é ingrediente: clara de ovo, manteiga, farinha, chocolate… Dizem que mão de cozinheira é a mais limpa que tem, afinal é sempre lavada entre uma e outra mexidinha na panela, mas os livros de receita estão aí para discordar.

Mas o que mais me chama atenção é ver como tem um pouquinho da nossa história nesse livro – aliás, corrigindo, no caso é um caderno com receitas anotadas. No começo impera a caligrafia de minha mãe, por vezes confusa, porém sólida em todas as páginas. Depois aparecem as receitas com a letra de minha irmã mais velha: e vão da letrinha infantil saída dos livros de caligrafia até o traço firme do adulto, passando por uma série de períodos turbulentos e irreconhecíveis típicos da adolescência. O mesmo acontece comigo. E por fim temos a modernidade das receitas impressas – dessas, devo confessar, quase nenhuma foi realizada.

Em um mundo onde o google existe, e a coisa mais fácil do mundo é encontrar a receita de um irresistível bolo de chocolate, pode parecer excesso de saudosismo guardar uma coisa dessas. Já passamos o dia inteiro na frente do computador mesmo. Mas eu te desafio encontrar uma receita de bolo nega maluca decente na internet. Não existe. É segredo de família – ou de estado, se preferir – e portanto não deve navegar livremente pelos meios virtuais.

Por isso sonho com o dia em que terei o meu próprio livro, cheio de manchas,  recordações e receitas certeiras. Daqueles que fica guardado no armário lá do fundo e para o qual recorremos quando temos uma vontade fulminante de comer um doce ou de fazer uma receita infalível. Como não tenho um décimo do talento da minha vó, algo me diz que ele será enorme!

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