Olho por olho

Por Vanessa Henriques

Aguardo na sala de espera tranquilo. Já estive inúmeras vezes naquele consultório, e francamente oftalmologistas nunca me provocaram medo. O Dr. Luiz, meu velho amigo, ainda era jovem quando comecei a visita-lo, e eu também era bastante novo. Espero com minha esposa, que aproveitou a oportunidade para fazer um check-up nos seus lindos olhos castanhos — sem nenhum sinal de miopia ou astigmatismo.

Alguns exames, algumas letras na parede depois, a sentença:

— Não achei que esse dia chegaria nunca, diz um sorridente Dr. Luiz.

— Que dia?

— Sua miopia finalmente estabilizou. Já pode operar.

— Operar?? – indaguei surpreso. Não sei se estou pronto…

— Ah não! Não vai começar… – minha esposa demonstrava impaciência.

— Posso ao menos pensar no assunto?

— Claro, a decisão é sua.

No caminho de volta para casa minha esposa me encheu de perguntas: “Não era isso que você sempre quis? Quantas vezes você me disse que não aguentava mais usar óculos ou lente de contato, que tinha inveja de mim que não tenho nem um grau sequer de miopia? Que operaria assim que a miopia estabilizasse?”.

Tudo isso era verdade, já tinha dito mais de uma vez todas essas coisas. Mas agora era diferente. É fácil falar da boca para fora, quando se está na confortável situação de hipótese — difícil mesmo é ir adiante quando se torna real.

Tentei pesar prós e contras. Seria uma praticidade incrível não usar mais óculos, isso sem contar na quantidade de tempo que economizaria sem ter mais que buscar uma lente de contato que insiste em ficar grudada no olho! O dinheiro então, nem se fala! Um par de lentes gelatinosas, mais uma troca de armação a cada 5 anos, além dos colírios, soluções, caixinhas, lencinhos… Tudo isso teria fim.

Ao mesmo tempo, não poderia mais esbanjar meu charme intelectual — que não é real, apenas sugerido por minha elegante armação preta quadradinha, estilo Clark Kent — e nem ter sempre uma desculpa para sair mais cedo do trabalho (“sabe como é, visita de rotina ao oftalmologista…”).

Mais do que isso: em um mundo de aficionados por enxergar tudo nos mínimos detalhes, seja aquela estria na modelo teoricamente perfeita ou explodindo na sua cara com o efeito 3D, eu posso tirar meus óculos e ver um borrão de luzes que não tem sentido algum. Posso me refugiar da imagem da TV, da janela, e mesmo dos contornos reais nem que seja por um instante.

Feitas as ponderações, hora de comunicar ao Dr. Luiz minha decisão.

– Alô? Dr. Luiz? Aqui é o Fernando, estive aí hoje cedo…

– Sim, sim, diga Fernando. Pensou sobre a cirurgia?

– Pensei! Vou operar sim! Pensei na economia de dinheiro e de tempo que teria ao deixar de usar óculos.

– Ok, fico feliz que tenha tomado essa decisão!

– Pois é! Imagina só o que eu vou economizar com apenas um olho míope!

– Quê?

– Depois que decidir qual deles irei operar eu te ligo doutor! E obrigada por tudo!

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