Dormindo no Ponto

Por Vanessa Henriques

Adoro tirar cochilos em qualquer meio de transporte. Ônibus, metrô ou carro, costumo dizer que se tem um balancinho, estou dormindo. Tem gente que olha torto, acha que não é coisa pra se fazer longe do travesseiro. Outros, em solidariedade, desviam o olhar quando desperto, visivelmente descabelada, procurando saber se perdi meu ponto.

Eis que um dia, voltando apressada para casa depois do trabalho, entro no metrô e me sento ao lado de uma moça que dormia profundamente. Eu estava contente apenas por ter conseguido um lugar para sentar — coisa rara numa cidade superlotada como a nossa — quando me dei conta de um detalhe: entrei no trem na estação final, e dali ele começou a fazer o caminho inverso, com destino à outra ponta da linha.

E a moça dormia… Estaria dormindo desde quando? E, o mais importante, teria perdido a estação na qual desembarcaria? A partir daí, não tive sossego. Pensei em cutucá-la e dizer: “Licença, já estamos voltando… Você queria descer em qual estação?”. Mas imaginei que ela não poderia receber bem o meu atrevimento, achar que eu estava metendo o bedelho onde não tinha sido chamada.

O trem avança. Uma, duas estações e nada da moça acordar. A cada chacoalho ela levanta a cabeça, e eu crio esperanças de que abra os olhos. Nada feito, a cabeça voltava a pender para o peito, retornando ao seu local de origem.

Teria só eu percebido essa situação? Comecei a imaginar que os outros passageiros me olhavam, com reprovação, pensando: ela não vai avisá-la? Que maldade, não custava nada… Mas meus cúmplices não eram muitos, e eles também poderiam ter intercedido — e não o fizeram. Portanto, não podiam me fazer me sentir culpada.

Cinco estações depois sucumbo à pressão. Estico o olho, para ver se a minha amiga acordou, mas ela parece estar dormindo mais profundamente do que nunca. Levanto apressada, esbarro na dorminhoca com minha bolsa (providencialmente gigante) e saio sem olhar para trás, me perdendo entre a multidão.

Ela pode ter acordado, assustada, talvez um pouco irritada com a minha violência, e ter percebido que se afastava de seu destino. Pode ter me xingado, feito cara feia, e olhado para os lados como que pedindo aprovação das testemunhas do meu ato. Ou, pior, pode ter aberto os olhos, se aconchegado no duro assento, e voltado a cochilar.

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