Outra de coletivo

Por Vanessa Henriques

Era um dia como outro qualquer. O ônibus lotado como todos os dias, a sonolência irresistível dos minutos a menos de sono, um rádio alto tocando lá no fundo. O cobrador dormia profundamente — não queria estar na pele do pobre coitado que o acordasse para pagar a passagem.

E como todos os dias, o ônibus parou em um ponto pouco movimentado, subindo a bordo uma senhora já de idade. Esse fato não provocou nenhuma reação nas pessoas que sentavam na “parte da frente”, antes da catraca e lugar reconhecido para idosos, deficientes e crianças de colo.

Só não sei por quem é reconhecido, afinal o que eu vi foi uma sucessão de desculpas para ignorar a existência da velhinha: uns falavam ao celular, outros desviavam o olhar para a janela, e os mais espertos cochilavam com um fone de ouvido estrategicamente no último volume. O cobrador, como disse, também dormia.

Essas situações me deixam a flor da pele. Não tenho coragem de gritar para todos: “Não estão vendo a senhora de pé?”. Queria ter, mas não tenho. Lamento esse fato mais uma vez, encarando incrédula o que se passava ali do outro lado da catraca.

Tentei antecipar as reações possíveis: alguém poderia levantar a voz e dizer tudo que estava entalado na minha garganta, provocando uma discussão acalorada com um dos folgados. A própria velhinha podia engrossar, fazer cara feia e talvez conseguir um lugarzinho. Ou, na pior das hipóteses, ficaria em um cantinho, tentando não atrapalhar a vida daqueles que estão apressados, cansados e que vão trabalhar o dia inteiro e se sentem no direito de permanecer sentados.

Felizmente, nada disso aconteceu. Com muita calma e paciência, a senhora encostou ao lado de um moço e, sem posar de vítima nem levantar a voz, disse: “O senhor está sentado em um lugar reservado para idosos. Se incomodaria em levantar-se?” Tamanha foi sua delicadeza que ninguém se prestou muita atenção ao que se passava lá na frente.

Encabulado, ele se levantou sem dizer uma palavra. Ela agradeceu e, não satisfeita, abordou a passageira que se sentava ao lado, essa sim prestando atenção e temendo ter que abrir mão de sua regalia. Com o mesmo discurso e a mesma delicadeza, ela repetiu a frase. Mas a moça não se convenceria tão fácil. “A senhora já tem um lugar para sentar!”. Sem se alterar, ela replicou: “Mas aquela outra senhora ali no cantinho não tem. Não reparou que ela está aqui faz pelo menos uns 10 minutos?”.

Diante do olhar de, agora sim, algumas testemunhas, a moça se levantou e passou a catraca em direção ao outro lado. As duas senhoras se sentaram, a segunda muito agradecida pelo gesto da primeira. “Sabe como é, às vezes fico sem jeito”. Conversaram, trocaram uma receita de ponto de tricô e desceram, por coincidência, no mesmo ponto. E o cobrador, com um solavanco inesperado, se assustou, ajeitou-se na cadeira e continuou dormindo.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s