Procura-se o prefeito

Por Vanessa Henriques

Outro dia descobri que o prefeito estava se mudando para o meu bairro. Primeiro, fui tomada pela emoção — não sei bem por que — e contei a todos os conhecidos. Imagina só, uma pessoa importante dessas andando pelas mesmas ruas que eu, tendo a mesma vivência que eu? E não fui a única: todos comentavam o fato, acrescentavam as suas versões e floreavam de tudo quanto é maneira.

Havia algo diferente no ar: todos se olhavam, envaidecidos pela escolha do homem que comanda uma cidade com mais de 10 milhões de habitantes. E até a rotina se alterou: não se via mais a dona de casa, ainda sonolenta, passeando com seu cachorro de pijama. Ou o moço apressado, que acordou atrasado e teve que ir ao supermercado correndo. Gente gritando na rua então, nem pensar!

Entro na padaria, todos me olham e, como que decepcionados, retornam ao seu cafezinho. Não, não era ele. E repetem o mesmo gesto a cada pessoa que entra pela barulhenta porta. Nos corredores do mercado, todos andam como que a espreita, esperando fazer a curva em um dos corredores e dar de cara com o homem.

Começo a pensar melhor sobre o assunto. Será realmente motivo de orgulho o prefeito morar aqui? Uma cidade imensa dessas, com tantos problemas, tantas coisas a ser resolvidas, porque ele veio se abrigar aqui? Talvez por considerar um lugar tranquilo, no qual ninguém lhe encheria de perguntas. Ou porque considera que num bairro como esse não será perturbado. Ou talvez porque goste do cafezinho que serve naquela padaria da esquina.

Na verdade, acho que o prefeito deveria morar na cidade inteira. Passar temporadas nas suas diferentes regiões, sofrer diferentes pressões. Imagina você às 18hs da tarde, na Estação da Sé, e alguém pisa no seu pé. Você olha, enfurecido, e dá de cara com o homem. “Não tá fácil, né ‘Seu’ prefeito?”.

Já chegando ao seu destino, lá na Cidade Tiradentes, ele descobre que tá caindo o maior toró e que vai ter que esperar a água baixar. Espera por horas, caminha pela rua escura, sente o cheiro do esgoto no córrego. Tira seu terno, sua gravata, dorme por algumas horas. O despertador toca cedo, e ele só quer ficar debaixo das cobertas. Pensa em desistir, mas se pedir demissão já é difícil, imagina para o prefeito!

Chegando ao centro, onde ele e mais alguns milhões trabalham, vê o trânsito caótico, os mendigos com fome, os loucos pelas ruas. Vê também da janela de seu gabinete a camada escura de poluição que, como um véu, tira a beleza de um dia de céu de brigadeiro.

É, mas o prefeito mora por aqui. Ali, virando a esquina, duas quadras pra baixo. E eu nunca o vi na Sé, na rua, no mercado, ou em lugar algum que não fosse na TV.

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