Pobres gregos

Por Vanessa Henriques

A expressão presente de grego é antiga, mas até hoje traduz bem aquele sorriso amarelo, forçado, os olhos apertados e aquele “obrigado” que sai automaticamente diante de um presente inadequado, feio, desinteressante ou simplesmente batido. Todo mundo já recebeu um desses — e provavelmente já deu um também, mas nem sempre conseguiu perceber.

Sempre gostei de dar e receber presentes, mas tenho uma limitação grave: sou capaz de acertar em cheio uma lembrança para um colega de trabalho, um parente distante e até mesmo um ilustre desconhecido. “Como você sabia que eu amo jazz?” “Ah, intuição!” — leia-se: estava em promoção e eu não aguentava mais ficar pensando em alguma coisa para te dar.

Mas se é para uma amiga do peito, um irmão, um namorado, aí começa meu martírio. Busco incessantemente pela coisa mais maravilhosa do mundo, que fará a pessoa ficar boquiaberta, emocionada, e me agradecer aos prantos enquanto enxuga lágrimas de emoção. Não preciso dizer que é um item em falta, preciso?

E o drama continua por dias, até que sucumbo e compro algo interessante, que a pessoa até mesmo desejava, mas que não tem o efeito que eu espero. Paciência, quem sabe na próxima ocasião?

Comprar presente virou missão complicada nesses dias. Uma colega de trabalho me chama de canto, visivelmente nervosa, e começa a desabafar:

– Fui ao shopping esse sábado para comprar um presente para minha sobrinha. Sabia que ela queria uma sapatilha azul, mas não encontrei em lugar nenhum.

– Sapatilha azul? De onde ela tirou essa ideia?

– E eu vou saber! Mas foi o que minha irmã disse que ela queria.

– Tá, continua.

– Aí encontrei uma sandália ma-ra-vi-lho-sa em uma loja. Minha mãe achou linda. Minha filha queria uma para ela. Um espetáculo! Saí de lá realizada! Tinha resolvido logo isso e podia ir para casa.

– Deixa eu adivinhar: ela não gostou.

– Na mosca! Mas não gostar tudo bem, apesar da sandália ser uma gra-ci-nha, gosto não se discute. Só que o pior veio depois: minha irmã me liga aqui, no trabalho, e me fala que ela não vai usar, porque como era de salto, ela não sabia andar direito e blá blá blá. “Vou deixar na sua casa, depois você troca pra ela, tá?”

– Ah, quer dizer que agora você também faz a troca?

– Pois é!

Concordei com a irritação da minha colega. Ela falou tanto que a sandália era fan-tás-ti-ca, di-vi-na, que só fez aumentar minha raiva. Além de pedir o presente, agora ainda temos que trocar?

E pra trocar, boa sorte. Já cheguei a ir a uma loja de departamento para trocar uma blusa e ouvi da vendedora: “Trouxe a nota fiscal?” “Não tenho, ganhei de presente” “Sinto muito, sem a nota não há nada que eu possa fazer”. Será que eles acham realmente que eu gasto meu tempo reproduzindo a etiqueta da loja só para depois ir lá e trocar por outra blusa?

Se trocar é o problema, então vamos dizer exatamente o que queremos ganhar. Nos casamentos isso já acontece, e não faltam histórias de listas absurdas, com objetos de cristal e prataria de primeira. O que chamou minha atenção foi quando minha irmã disse que havia sido convidada para um chá de bebê, e a lista estava em uma loja famosa. Os noivos podem ter necessidades específicas, não precisar de alguns itens, mas um bebê também tem exigências??

Pensando em todas essas histórias, acho que todos os presentes hoje devem ser de grego, afinal tá difícil acertar! Bons tempos aqueles em que nós ganhávamos uma camiseta horrível daquela tia distante, tínhamos que provar para ela “ver se ficou boa”, e se estivesse tinha que usá-la toda vez que a senhora apontava na nossa porta.

Na minha humilde opinião, presente bom é aquele que vem sem pedido, sem hora, sem ocasião. Acompanhado de um “lembrei de você” e uma dedicatória, melhor ainda. O que nós queremos, podemos comprar nós mesmos, não?

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One thought on “Pobres gregos

  1. Pois é, eu compartilho do seu drama, só que no meu caso o pior é ter que esperar pela data para entregar o bendito presente. Geralmente eu fico tão ansioso que entrego antes da hora e depois acabo comprando outra lembrancinha pra entregar na ocasião correta…quem sabe um dia eu aprendo.

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