Mastigue bem e…

Por Vanessa Henriques

Vem vindo um prato. Lindo, cheiroso, suculento. Passei 10 minutos esperando — 8 deles invejando a comida do vizinho —, já deve ser o meu. Nossa, que fome! Devia ter vindo almoçar mais cedo. Será que fiz bem em escolher o contrafilé? O frango empanado da moça ali do lado tá com uma cara tão bonita… Ah, agora sim, o garçom tá me olhando!

De repente, um branco! Entre o momento em que o prato pousou na mesa, até eu cruzar os talheres, se passaram espantosos 5 minutos. Aí vem a culpa. Não que eu seja uma dessas moças com distúrbios alimentares, que se acham gordas pesando menos de 50 kg. Mas não nego a possibilidade de um probleminha… eu não como a comida, eu inalo, já diria minha não tão paciente mãe.

De quem, aliás, herdei esse hábito nefasto. Ela só se livra da bronca porque começa a comer depois de todo mundo, já que antes ela tem que arrumar a sobremesa, pegar o garfo que faltou, fritar mais um bife, etc etc, e enquanto isso já estou terminando meu prato.

Já fui reprimida pelas mais diversas criaturas. Amigos, parentes, médicos na TV. Elas têm razão, eu só abaixo a cabeça e concordo. Desta vez tenho que levar a sério reduzir o ritmo.  Mas só depois desse almoço que, aliás, já está muito feliz em meu estômago nesse momento.

Escolho o dia ideal: segunda-feira. Melhor que esse não tem. Começo pelo café da manhã. Pão, bolo, café com leite. Tudo em câmera lenta. Dou uma espiada no relógio. Penso com os meus botões: “essa história de comer devagar vai me obrigar a levantar mais cedo”!

Na hora do almoço, uma fila quilométrica me espera no restaurante por quilo. A fome aperta. Hum, tem peixe hoje. E farofa! Finalmente me sirvo, e pego mais uma fila para pesar. Nada que um bom paulistano não esteja acostumado.

Encaro o prato como um desafio. Dou uma garfada, mastigo até a comida perder o gosto — como sugerem os especialistas — e mais uma vez. Recomeço. Vou nessa toada até esvaziar o prato. Espio o relógio e chego à conclusão de que não vai dar tempo de passar no banco pra pagar aquela conta.

No meio da tarde, festa de aniversário de um colega. Bolo, refrigerante, brigadeiro, tudo com muita paciência. Alguns colegas olham disfarçadamente, sem entender o motivo de tanta frescura. “Deve tá de dieta”. Retorno à minha mesa e descubro, com espanto, que já passam das cinco da tarde.

Para minha tortura, tenho que passar no mercado. Maçã, estimula a mastigação (e ainda limpa os dentes!). Torrone, gruda nos dentes e exercita a paciência. Rapadura, dispensa apresentações. A atendente de caixa me olha de soslaio, tentando disfarçar.

Chego a minha casa e, surpresa, encontro minha mãe de avental em minha cozinha. Já estaria delirando?? “Oi filha, o porteiro me deixou subir, vim fazer uma surpresa”. Ah bom, ainda não perdi o juízo.

Mas perdi as estribeiras. Peixe empanado, couve picadinha, feijão, mandioca frita. Não durou lá muito tempo na mesa. Olho para minha mãe e solto um sonoro: “já sei o que você vai dizer”. Saímos da cozinha e me deito no sofá satisfeita.

Amanhã recomeço.

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