Bem-vindo ao lado negro

Por Vanessa Henriques

— Nossa, como isso está devagar!

E foi assim, com uma inocente constatação, que eu descobri que tinha mudado de lado. Eu, a garota analógica, que ainda compra CDs e se confunde na hora de acertar o relógio do micro-ondas, pra quem rede é lugar de descanso de varanda e que jamais conseguiu entender como funciona o torrent, estava inconformada com a lerdeza de meu celular.

Tudo aconteceu em um dia desses normais e chatos, no qual escrevia uma mensagem de texto no celular, tocando a tela freneticamente. Só que o ritmo de meus dedos não foi acompanhado pela pobre tela sensível ao toque, que agonizava tentando entender o que eu queria dizer com uma sequência ilógica de letras e símbolos.

Lembrei-me da primeira vez que toquei numa tela dessas. Achei as teclas muito sensíveis, e muito pequenas para os meus dedos — aliás, a melhor definição que já ouvi até hoje era que essas teclas só podiam ser tocadas por duendes, e não por dedos adultos. Isso que meu celular só responde ao toque, não faz movimento circular, de pinça nem nada do tipo!

Mas nunca escondi minhas raízes de geração Y (com um pezinho na X), então achava graça dessa minha incapacidade tecnológica. Antes de usar computador, eu fiz muita pesquisa na Barsa, cortei figura de revista para fazer colagem e, pasmem, usei (e ainda uso) dicionário se tenho alguma dúvida de ortografia, afinal ainda não inventaram o sublinhado vermelho do Word (que no momento desconhece a palavra ‘Barsa’) para o papel.

E ainda vejo com desconfiança a quantidade de “facilidades” que o Google tenta empurrar para mim (primeiro ele oferece, depois ele coloca à força), traçando cada vez mais o meu perfil de consumo e coletando dados que eu realmente não tenho o menor interesse em tornar públicos.

Quanto ao incidente do celular… Bom, eu que me orgulhava de ter tido apenas três celulares na vida — e o principal uso do primeiro era para jogar aquele jogo da cobrinha, confesso —fui pega pela febre da rapidez, do tudo para agora neste momento. Vi em mim o que considero o efeito mais deletério de tanta tecnologia: perder a paciência. Passei madrugadas da minha adolescência batendo papos profundos via ICQ, com um computador que travava a cada dez minutos. E pensa que eu ligava?

Não há motivo para pânico, afinal a indústria fonográfica ainda levará muitos centavos de meu bolso, e a todo horário de verão vou sofrer para acertar todos os relógios dos aparelhos eletrônicos. Esse incidente provavelmente foi só um comecinho da minha experiência ao lado dos modernos, e provou que se eu deixar de ser preguiçosa (e impaciente), tenho capacidade para virar também uma moderninha.

Quanto à paciência, tentarei realocá-la: ao invés de ficar esperando o Internet Explorer voltar a responder, vou esperar um bolo crescer no forno. Meu estômago e minha sanidade mental agradecem!

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