Respeitável Público

Por Vanessa Henriques

Já tinha visto aquele número algumas vezes, mas aguardava ansioso seu início. Sua mãe, sentada ao seu lado, se deliciava com o rosto do menino, fascinado e apreensivo, aguardando o auge do espetáculo.

As luzes vermelhas anunciavam a chegada da estrela. Era o mágico mais famoso dos arredores, que decidiu apresentar-se com o circo da cidade. Acompanhado de sua bela assistente, foi recebido na arena com uma chuva de aplausos que parecia não ter fim.

Começou com um truque simples: um lenço, um suporte, e de repente vários lenços coloridos. Belo e bem executado, mas não provocou nenhum sentimento no garoto que, já impaciente, cutucava a mãe dizendo: “será que ele não vai fazer hoje?”. A mãe acalma o menino, fazendo um cafuné em seus cabelos e retrucando: “calma, tem tempo”.

Alguns truques com baralho e moedas puxadas de orelhas depois, o momento esperado. A tenda ficou escura, com apenas um holofote sobre o mágico, com um semblante muito sério. Trouxeram a caixa. O menino mal conseguia conter seu entusiasmo, soltando comentários que iam desde a cor da caixa até a roupa da assistente. “Shhhh, você vai perder o truque!”.

A assistente é requisitada. Entra na apertada caixa esboçando um sorriso que não combina com o que se segue. Com um grande serrote em punho, seu algoz a fatia em três partes, ao que ela responde com uma careta exagerada. E o menino, sentindo a dor da bela moça, também torce o nariz para os atos ostensivos do mágico.

Ao final do espetáculo, tenta mais uma vez conversar com o artista. A mãe tenta convencê-lo do contrário, a fim de evitar mais uma decepção. Mas falha em seus apelos, e o menino sai correndo em direção aos camarins.

Depois de muita bagunça e muito insistir, ouve o que não queria mais uma vez: o mágico não irá conversar com ninguém, com nenhum dos fãs que o aguardavam em polvorosa. A mãe reconhece a mesma expressão no filho, desolado diante da negativa de seu ídolo em lhe explicar o truque.

Sente uma mão tocar-lhe gentilmente os ombros. “Vem aqui amiguinho, vamos conversar”. Ele levanta os olhos devagar, incomodado com a interrupção. Vê ajoelhada ao seu lado a assistente do mágico, ainda com o seu figurino brilhante e sorriso estampado no rosto.

— Você quer saber como ele faz o truque da caixa, não é?

— Sim, eu queria!

— Pois eu vou te contar um segredo, fica entre nós dois. Promete?

— Prometo!

— Quando eu conheci o Sérgio, dei uma sugestão para um de seus números: cortar-me em três pedaços na frente de todos. Ele me olhou espantado, mas antes que me chamasse de louca, mostrei-lhe isso aqui — disse a moça enquanto afastava seu figurino e revelava duas faixas que a envolvia nos locais dos “cortes”.

— O que é isso?

— Na verdade em já nasci em três, mas aprendi a me equilibrar como todo mundo. Trabalhando com um mágico, achei que poderia usar esse meu segredinho para confundir garotos como você!

O menino ficou corado, mas não conseguia parar de sorrir. A moça se despediu, e o menino finalmente pôde ir para casa satisfeito.

Respostas

  1. Que doideira! Me lembrou as histórias do Neil Gaiman.

  2. Me lembrou… CIRCO!!! A magia do circo; de uma criança no circo; de uma criança vendo mágica no circo =D

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About the author

Sophia Bennett is an art historian and freelance writer with a passion for exploring the intersections between nature, symbolism, and artistic expression. With a background in Renaissance and modern art, Sophia enjoys uncovering the hidden meanings behind iconic works and sharing her insights with art lovers of all levels. When she’s not visiting museums or researching the latest trends in contemporary art, you can find her hiking in the countryside, always chasing the next rainbow.