Carregando a cruz

Por Vanessa Henriques

— Conta todos os quadradinhos do tecido.

— Um, dois, três… ai, perdi um ponto. Um, dois, três… maldito telefone, tinha que tocar justo agora? Alô? Não, não é da farmácia. Um, dois, três… nossa, duzentos quadradinhos? Não, eu devo ter contado errado!

— Agora veja o tamanho do desenho e veja quantas vezes é possível repeti-lo.

— 4,6 vezes.

— Então quatro vezes. O 0,6 que sobrou você joga pros dois lados pra ficar centralizado.

— Ahm??

— Multiplica o tamanho do desenho por quatro. Subtrai o resultado do tamanho do tecido e, deste resultado, divida por dois. Assim você saberá quantos pontos deixar de cada lado pra ficar centralizado.

Confesso que minha cabeça já doía, e eu não tinha colocado um ponto sequer no tecido. Ou na agulha. Não sei, ainda não tinha chegado a esse ponto. Bendita hora que eu cismei em aprender ponto cruz. Minha irmã, muito paciente, respondeu a todas as minhas perguntas. Mas agora era eu e minhas contas, soltas em pequenos pedaços de papel que insistiam em sumir de minhas mãos.

Sumiu também a agulha, depois de passar dez minutos contando e recontando onde deveria começar. Não a perdi num palheiro, mas num tapete bege de textura fofinha. Eis que a encontrei. Contei novamente os quadradinhos e comecei. Nada poderia me deter!

Fazer trabalho manual é um misto de alegria e preguiça: alegria pela primeira folhinha da primeira florzinha ter adquirido finalmente formato, e tristeza em pensar que depois de dias e dias para concluir a folhinha, ainda falta a florzinha, a abelhinha, a graminha…

“Ponto cruz é tão relaxante”, disse uma amiga, tentando me encorajar. Realmente, esperava uma atividade calma, edificante e que, de quebra, renderia presentes e elogios. Pensei na figura de minha vó, sentada na pontinha do sofá, sendo capaz de manter uma conversa animada e produzir toalhas incríveis de crochê usando apenas agulha e linha.

Mas a realidade foi outra: encontrei equações de segundo grau, nervosismo e tenho quase certeza que piorei um pouquinho mais meu astigmatismo tentando enxergar os quadradinhos do tecido. Se eu soubesse todo o estresse que isso envolvia, não teria insistido em bordar aquela toalhinha do banheiro!

E em homenagem a minha avó, resolvi presenteá-la com o resultado de meu esforço. Depois de meses de dedicação consegui repetir 4,6 vezes…. digo, 4 vezes um lindo desenho de flores, folhas e abelhinhas numa pequena toalha de rosto.

Ela admira o trabalho, diz que ficou muito bonito. Eu começo a fazer um discurso, contando todas as peripécias e percalços encontrados no caminho, de forma a enaltecer meu trabalho modesto, porém bem intencionado. Ela escuta tudo com muita atenção, sacudindo a cabeça em concordância, e emenda:

— Por isso que eu nunca tive paciência para fazer ponto cruz! — diz isso deixando pender de seu colo um xale enorme e detalhado de tricô, que começou com um par de agulhas e alguns novelos de lã.

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