Quando casar, sara

Por Vanessa Henriques

— Manhêê!

— O que foi desta vez, Luiz?

— Caí de bicicleta perto daquele terreno… Ralei feio o joelho — disse entre soluços.

— Quantas vezes eu já disse para não andar ali? Mas você não me ouve, não presta atenção no que a gente fala… — emendou a mãe, com o discurso na ponta da língua.

Luiz não respondeu. Não tinha o que responder, afinal a mãe estava certa. Já havia alertado sobre o perigo de andar naquela rua, que tinha muita areia no chão, e que qualquer descuido podia resultar num tombo daqueles. Mas seu semblante não demonstrava arrependimento, apenas dor pela nova cicatriz adquirida nos joelhos.

A mãe repetia seu discurso, dizia que não dava para continuar assim, que ele já era um mocinho, quase um homem, que deveria respeitá-la, e todas essas coisas que as mães falam para os filhos quando surge a oportunidade. Luiz a encarava, mas seu pensamento ia longe. Diante da ausência de resposta do filho, ela declarou, em tom solene:

— Bom, se você não aprende por bem, vai aprender por mal. Eu vou passar mertiolate nesse machucado!

O filho permaneceu sentado, como estava, e não esboçou nenhuma reação.

— Sabe do que eu estou falando? Aquele, da pazinha quadriculada!

— Sei sim.

A mãe ficou olhando, sem entender a passividade do filho. Lembrou-se dos tempos de criança, afinal as cicatrizes em seu joelho não negavam que também andou por terrenos proibidos quando teve a oportunidade. Quando sua mãe anunciava que passaria mertiolate, começava o chororô.

— Não, mãe, nem tá doendo tanto assim!

Sua mãe a encarava, triunfante, e repetia o discurso que ela mesma usava com seu filho. “Se não aprende por bem, aprende por mal”. Implorava por misericórdia e prometia se comportar se a mãe usasse, ao menos, o vermelho.

— O vermelho não é tão bom quanto o transparente, dizia a mãe da mãe, buscando entre mil embalagens o potinho tão temido.

Mas agora, Luiz não tinha medo do mertiolate. Claro, agora não arde. Não queima. Não faz você se arrepender de todos os seus erros. Os pais perderam uma cartada e tanto em um único golpe farmacêutico. Aposto que quem inventou isso não teve filhos. Ou então era uma criança tão rebelde que fez de sua meta pessoal acabar com o ardor do mertiolate.

A mãe vasculhava entre os potes e não achava o dito-cujo. Encontrou, ao fim, um pote judiado, no fundo da gaveta, com a embalagem amarelada. Justamente como no tempo em que ardia!

Se não aprende por bem…

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2 thoughts on “Quando casar, sara

  1. Hehehe, alguém parece ter trauma de mertiolate. Era danada ou não se importa de hoje não doer mais? Pequenas lembranças da infância, rs.

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