Ponto de Desencontro

Por Vanessa Henriques

O mundo está dividido: entre bons e maus, corintianos e palmeirenses, carecas e cabeludos. Isso não é novidade alguma. Cada um divide o mundo da forma que bem entender e, com sorte, consegue algum seguidor para corroborar sua teoria.

Há tempos eu e minha irmã criamos uma divisão concisa e global, capaz de dar conta dos anseios humanos por categorizar e dividir seus hábitos. Baseadas em histórias que se repetiam em quantidade espantosa, chegamos à conclusão de que as pessoas se dividem em duas categorias: as que descem antes do ponto do ônibus, e as que descem depois.

Como representante do primeiro grupo, me faço entender: sempre que vou a algum lugar novo, nunca dantes explorado, costumo levar comigo anotações precisas sobre quais os números dos ônibus que posso pegar, depois de qual cruzamento devo descer e qual o trajeto a ser percorrido até o local de destino. E nunca me esqueço da volta.

Entretanto, mesmo com toda a preparação do mundo, ou talvez nem tanta assim, quando se trata de um lugar relativamente conhecido, eu sempre desço antes do ponto. Não consigo controlar a ansiedade, e começo a ver pontos de referência onde não existe, conto errado o número de ruas que já cruzei, ou me deixo levar pela quantidade de gente que desce no mesmo ponto — “só pode ser esse!”.

Já minha irmã, filha do mesmo pai e da mesma mãe, não tem o mesmo esmero. Até procura qual ônibus pegar, qual rua descer, e leva também o mesmo papelzinho. Procura memorizar o último grande cruzamento e a partir dai se mantém esperta para encontrar o ponto certo. E jamais se preocupa com a volta.

Nesse estilo de vida despreocupado, sem grandes sobressaltos, sempre perde o ponto. Desce um ou até dois pontos depois, e retorna ao seu destino. Confia excessivamente em sua memória e acaba se perdendo na volta, quando já não se lembra do caminho de ida ou pra que lado fica o Terminal Bandeira.

Se isso se resumisse ao transporte por essa cidade caótica, vá lá. Mas essas histórias acabaram por explicar muito de nosso comportamento em outras situações. Enquanto eu sou ansiosa, faço listas e planejamentos, tenho horror a me perder ou a entregar algo atrasado, minha irmã deixa tudo para a última hora, afinal sempre dá certo e não vê motivo pra se preocupar antes de faltar 24 horas para entregar um trabalho da faculdade, por exemplo.

Por isso surgiu essa teoria de que as pessoas se dividem entre aquelas que ficam aflitas ao lado do cobrador, procurando o posto de gasolina Atlantic de esquina com um boneco inflável azul no canto esquerdo, e aquelas que olham para a janela de vez em quando, interrompendo por instantes a sua leitura.

Ainda bem que essa divisão ainda não motivou guerras nem discussões, no máximo umas boas risadas e aquela chacoalhada de cabeça de quem não entende como o outro pode ser tão diferente. Agora só preciso encontrar alguns seguidores, o que não será difícil: basta ver aquele sujeito aflito perto da porta, olhando como um zumbi pela janela, à procura do posto Atlantic — que já não existe mais!

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4 thoughts on “Ponto de Desencontro

  1. =) Sensacional! Mas eu prefiro mesmo descer bemmm depois do ponto! Mas a gente se encontra no meio do caminho, sempre! =)

    1. Realmente uma boa crônica, vale constar dentre as comemorativas de 2 anos do blog. Aliás é até temático com essa de o mundo ser dividido em dois tipos: isso ou aquilo, rs.

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